Cyphocharax albula, popularmente chamado saguiru, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos (Curimatidae), endêmica da região cárstica de Lagoa Santa, na bacia do rio das Velhas, em Minas Gerais. Descrita originalmente por Christian Frederik Lütken em 1874 como Curimatus albula, permaneceu durante mais de um século considerada sinônimo de Cyphocharax gilbert. Em 2016, exemplares provenientes da mesma região foram descritos como Cyphocharax lundi, mas uma revisão subsequente demonstrou que os dois nomes se referiam à mesma espécie, resultando na revalidação de C. albula e na sinonimização de C. lundi com base no princípio da prioridade nomenclatural.

Trata-se de um peixe de pequeno porte, com comprimento padrão inferior a nove centímetros, caracterizado por uma série de sete a onze manchas escuras ao longo da linha lateral e por pequenas manchas castanho-claras distribuídas na região dorsal dos flancos. A espécie distingue-se de congêneres semelhantes por combinações de caracteres merísticos e de coloração, incluindo o elevado número de escamas da linha lateral e a presença de uma mancha caudal ovalada. Habita pequenos cursos d'água da região cárstica de Lagoa Santa, especialmente córregos de águas turvas e corrente moderada com substrato arenoso e vegetação ripária relativamente preservada, convivendo com uma ictiofauna diversificada típica do alto rio São Francisco.

A distribuição conhecida de C. albula é extremamente restrita, limitada a poucas localidades da região de Lagoa Santa, com extensão de ocorrência e área de ocupação estimadas em apenas oito quilômetros quadrados. Em avaliação nacional concluída em 2018 e publicada pelo ICMBio em 2023, a espécie foi classificada como menos preocupante (LC), em razão da ausência de ameaças consideradas significativas no curto prazo. Contudo, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) avaliou-a em 2021 como em perigo (EN), considerando sua distribuição extremamente limitada e o declínio inferido da qualidade do habitat decorrente da urbanização, industrialização, mineração e degradação ambiental que afetam a região cárstica de Lagoa Santa.

Etimologia

Cyphocharax albula é conhecida localmente como saguiru. O termo é provavelmente de origem tupi, embora sua etimologia permaneça obscura. O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado a um peixe marinho não identificado. A etimologia atribuída em 2016 ao nome Cyphocharax lundi não corresponde ao epíteto atualmente válido de Cyphocharax albula e deverá ser tratada no contexto histórico da taxonomia da espécie. O nome lundi havia sido proposto em homenagem ao naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund , em reconhecimento às suas contribuições à paleontologia, arqueologia, zoologia e espeleologia. Lund realizou parte de suas principais descobertas científicas na região cárstica de Lagoa Santa, que inclui a localidade de procedência dos exemplares estudados em 2016. O atual epíteto específico albula deriva do latim e significa "esbranquiçada" ou "ligeiramente branca". Embora Lütken não tenha explicado explicitamente a origem do nome ao descrever a espécie, Christopher Scharpf sugeriu que a denominação provavelmente faz referência aos flancos e ao ventre intensamente prateados observados nos exemplares originais.

Taxonomia

Cyphocharax albula é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita originalmente por Christian Frederik Lütken em 1874 como Curimatus albula, com base em exemplares provenientes do ribeirão da Mata, em Lagoa Santa, afluente do rio das Velhas na bacia do rio São Francisco. Pouco depois, o próprio Lütken sugeriu que a espécie poderia representar um sinônimo de C. gilbert, hipótese posteriormente formalizada por Eigenmann em 1910 e adotada pela maior parte da literatura subsequente. Em 1989, Richard P. Vari transferiu ambas as espécies para o gênero Cyphocharax, mas manteve a sinonímia em sua revisão dos curimatídeos. Mais de um século após a descrição original, exemplares provenientes da região cárstica de Lagoa Santa foram descritos por Guilherme Moreira Dutra, Iago de Souza Penido, Gabriel Caetano Guimarães de Mello e Tiago Casarim Pessali sob o nome Cyphocharax lundi. O holótipo dessa espécie, catalogado como MCNIP 807, era um exemplar com 73,7 milímetros de comprimento padrão coletado em 2012 no córrego Capão de Santana, afluente do córrego do Jaques, enquanto dois parátipos foram depositados no Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e no Museu Paraense Emílio Goeldi.

Assim como em C. jagunco, a inclusão desses exemplares em Cyphocharax foi fundamentada principalmente em caracteres externos. Os espécimes diferem de Curimata pela ausência das abas carnosas no teto da boca; de Curimatella, pela ausência de escamas cobrindo a nadadeira caudal; de Curimatopsis, pela linha lateral completa; de Potamorhina, pelo número muito menor de escamas longitudinais; de Psectrogaster, pela conformação simples do canal sensorial do sexto infraorbital; e de Steindachnerina, pela ausência de processos lobulados na cavidade oral, de abas longitudinais espessas no teto da boca e de uma mancha escura na base da nadadeira dorsal. A impossibilidade de examinar caracteres osteológicos impediu uma diferenciação direta de Pseudocurimata, mas a distribuição geográfica dos exemplares a leste dos Andes favoreceu sua classificação em Cyphocharax. A espécie compartilha com C. jagunco, C. punctatus e C. vanderi uma série médio-lateral de manchas escuras irregulares acompanhando a linha lateral. Na interpretação dos autores de 2016, duas características poderiam representar autapomorfias da população então denominada C. lundi: a presença de aproximadamente 36 escamas na linha lateral e de pequenas manchas castanho-claras acima dela. Estas últimas também são observadas em indivíduos jovens e de porte intermediário de C. voga, embora os autores tenham considerado provável uma origem independente do caráter nas duas linhagens.

Em 2017, Dutra, Penido, Pessali e Andre Luiz Netto-Ferreira reexaminaram o lectótipo e os paralectótipos de Curimatus albula e concluíram que a espécie era válida e distinta de C. gilbert. Os autores verificaram que os espécimes-tipo de C. albula apresentam uma série de manchas escuras ao longo da região médio-lateral do corpo, além de pequenas manchas castanho-claras nos flancos e uma mancha caudal estreita e horizontalmente oval, características ausentes em C. gilbert e que haviam sido ignoradas ou interpretadas incorretamente por revisões anteriores. A comparação entre os tipos de C. albula e C. lundi demonstrou completa sobreposição dos caracteres merísticos, morfométricos e de coloração, não existindo evidências que justificassem o reconhecimento de duas espécies distintas. Em consequência, C. lundi foi colocado na sinonímia de C. albula, que passou a ser o nome válido em virtude do princípio da prioridade estabelecido pelo Código Internacional de Nomenclatura Zoológica. Os autores recomendaram ainda que a diagnose proposta para C. lundi fosse mantida para C. albula, caracterizada pela presença de sete a onze manchas médio-laterais ao longo da linha lateral, pequenas manchas castanho-claras na porção dorsal dos flancos, uma ou duas escamas perfuradas posteriores à articulação hipural, linha lateral completa e cinco a seis fileiras de escamas acima da linha lateral.

Descrição

Cyphocharax albula apresenta corpo alongado e, nos exemplares examinados em 2016, comprimento padrão entre 69,9 e 84,6 milímetros. O perfil dorsal da cabeça é convexo entre a margem do lábio superior e a vertical que atravessa a narina anterior e quase reto daí até o espinho supraoccipital. O perfil dorsal do corpo é convexo desde a extremidade do supraoccipital até a base do último raio da nadadeira dorsal, quase reto entre esse ponto e a origem da adiposa e levemente côncavo até o primeiro raio procorrente dorsal da caudal. O perfil ventral é convexo até a base do último raio anal e côncavo daí até o primeiro raio procorrente ventral da caudal. A maior altura corporal situa-se na vertical que passa pela origem da nadadeira dorsal. A cabeça é comprimida lateralmente e alcança sua maior altura na nuca. A boca é terminal e a maxila superior é apenas ligeiramente mais longa que a inferior. As narinas são próximas e separadas por uma fina aba de pele. A narina anterior é circular e está mais próxima da ponta do focinho que do olho; a posterior é semilunar e situa-se aproximadamente a meio caminho entre o focinho e a margem anterior do olho. A pálpebra adiposa restringe-se à margem anterior do olho, que ocupa aproximadamente a região mediana do comprimento da cabeça e é orientado lateralmente. As membranas branquiais unem-se ao nível do istmo.

A maior altura corporal corresponde a 33,8–35,2% do comprimento padrão, com média de 34,7%. A distância entre o focinho e a origem da nadadeira dorsal representa 48,2–49,3% do comprimento padrão; entre o focinho e a peitoral, 27,6–28,7%; entre o focinho e a pélvica, 53,5–54,8%; entre o focinho e a anal, 78–79,2%; e entre o focinho e o ânus, 72,7–74,8%. A distância entre a origem da dorsal e a articulação hipural corresponde a 58,7–59,4%; entre as origens da dorsal e da anal, 44,5–45,3%; entre as origens da dorsal e da pélvica, 33,9–35,2%; e entre as origens da dorsal e da peitoral, 34,4–35,9%. A altura do pedúnculo caudal representa 12,1–12,4% do comprimento padrão. O comprimento das nadadeiras peitorais corresponde a 16,6–18,7%; o das pélvicas, 18,1–19,5%; e o da dorsal, 23,9–26,2%. A cabeça mede 26–28,1% do comprimento padrão. Em relação ao comprimento da cabeça, o focinho representa 29,6–30,4%, o diâmetro orbital 28,1–31,2%, a distância pós-orbital 39,3–42,9% e a largura interorbital 40,8–42,9%. A linha lateral é completa e formada por escamas perfuradas por um canal laterossensorial primário reto. Foram registradas 35 ou 36 escamas perfuradas entre o supracleitro e a articulação hipural, seguidas por uma ou duas escamas perfuradas sobre a base da caudal. Entre a origem da dorsal e a linha lateral existem cinco fileiras e meia ou seis fileiras e meia de escamas; entre a origem da anal e a linha lateral, quatro, cinco ou cinco fileiras e meia; e entre o ânus e a origem da anal, uma ou duas. A série mediana dorsal compreendida entre a região posterior do espinho supraoccipital e a origem da dorsal possui doze ou treze escamas. Escamas recobrem a porção proximal dos raios caudais e são semelhantes em tamanho às situadas na região posterior do pedúnculo caudal.