Cyphocharax caboclo, popularmente chamado saguiru, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, endêmica do Brasil. Foi descrita em 2022 com base em exemplares do alto rio Correntes, afluente do rio Paraguai, na região entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Integra o clado Cyphocharax saladensis, juntamente com C. vanderi, C. saladensis e C. boiadeiro, sendo esta última sua espécie-irmã. A relação entre ambas é sustentada por dados morfológicos e moleculares, embora se diferenciem pelo desenvolvimento da linha lateral e pelo padrão das manchas do pedúnculo caudal.

É uma espécie de pequeno porte, atingindo pelo menos 70,8 milímetros de comprimento padrão, com corpo moderadamente alongado e relativamente alto, cabeça afilada, boca subterminal e nadadeira caudal bifurcada. Apresenta linha lateral incompleta ou interrompida, com 15 a 31 escamas perfuradas, cujo número não aumenta em função do crescimento. Sua coloração inclui uma faixa escura discreta ao longo dos flancos e duas manchas negras no pedúnculo caudal, que podem permanecer separadas ou se fundir, formando uma marca piriforme ou semelhante à letra T. Em vida, o corpo é geralmente branco-acinzentado na região ventral e castanho-oliváceo ou cinzento-oliváceo na dorsal, sem dimorfismo sexual externo conhecido.

Sua distribuição conhecida restringe-se a tributários do alto rio Correntes, a montante de um túnel cárstico natural que provavelmente limita sua dispersão. Habita áreas lênticas ou de corrente reduzida em pequenos rios e córregos do Cerrado, incluindo remansos, margens pantanosas e ambientes com vegetação submersa sobre substratos de areia e lama. Sua origem biogeográfica foi relacionada a antigos eventos de captura de cabeceiras entre as bacias dos rios Paraguai e Araguaia, que teriam isolado as linhagens de C. caboclo e C. boiadeiro. Na descrição original, foi proposta como quase ameaçada (NT), em razão da distribuição restrita, da extensão de ocorrência estimada em cerca de 200 quilômetros quadrados e dos impactos do desmatamento, da agricultura, do assoreamento e de empreendimentos hidrelétricos sobre a bacia do alto Correntes.

Etimologia

Cyphocharax caboclo é conhecida localmente como saguiru. O termo é provavelmente de origem tupi, embora sua etimologia permaneça obscura. O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico caboclo deriva provavelmente do tupi caaboc ou caa-boc, expressão interpretada como “aquele que veio do mato” ou “aquele retirado da floresta”. O termo é amplamente utilizado no Brasil para designar pessoas nascidas e criadas em áreas rurais, geralmente associado a ideias de simplicidade, rusticidade e ligação com o interior. Segundo os autores da descrição original, o nome foi escolhido em homenagem aos caboclos de todas as regiões do país. O epíteto foi proposto como substantivo em aposição.

Taxonomia

Cyphocharax caboclo é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2022 pelos ictiólogos Bruno F. Melo, Luiz F. C. Tencatt e Claudio Oliveira com base em exemplares provenientes da bacia do alto rio Correntes, afluente do rio Paraguai, na região limítrofe entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O holótipo, catalogado como MNRJ 52506, é um exemplar de 59,1 milímetros de comprimento padrão coletado em 5 de abril de 2019 no Ribeirão Comprido, no município de Itiquira, em Mato Grosso. A série de parátipos reuniu exemplares do mesmo curso d'água, do córrego Ponte do Resolvido e do córrego Lajeadão e seu afluente, nos municípios de Itiquira e Sonora. Os espécimes examinados apresentaram entre 21,2 e 70,8 milímetros de comprimento padrão e foram depositados em coleções ictiológicas brasileiras, incluindo as do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, da Universidade Estadual Paulista, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da Universidade Estadual de Maringá.

O gênero Cyphocharax, que compreendia 44 espécies à época da descrição, é o mais diversificado da família dos curimatídeos e possui ampla distribuição nas principais bacias hidrográficas da América do Sul, além de ocorrer no Panamá e na Costa Rica. Seus representantes são tradicionalmente reconhecidos pela ausência das sinapomorfias morfológicas que definem os gêneros próximos Curimatella, Pseudocurimata e Steindachnerina. Entre os caracteres geralmente associados a Cyphocharax estão o canal látero-sensorial bifurcado no sexto infraorbital, a ausência de processos elaborados no complexo bucofaríngeo e a inexistência de uma mancha escura na porção proximal dos raios simples medianos da nadadeira dorsal. Estudos morfológicos e moleculares demonstraram, contudo, que o gênero, em sua delimitação tradicional, não constitui um grupo monofilético. Análises filogenéticas recuperaram um amplo clado de Cyphocharax em sentido lato, no qual espécies de Curimatella e o gênero monofilético Steindachnerina aparecem inseridos entre diferentes linhagens de Cyphocharax, tornando este último parafilético. Dentro desse conjunto foram reconhecidos, entre outros, os clados C. gilbert, C. magdalenae, C. spilurus e Curimatella alburna, além de três espécies amazônicas de divergência mais antiga: C. abramoides, C. multilineatus e C. nigripinnis.

A descoberta de C. caboclo permitiu reconhecer uma linhagem distinta no interior do tradicional clado C. spilurus, denominada clado Cyphocharax saladensis. Esse agrupamento é composto por C. vanderi, C. saladensis, C. boiadeiro e C. caboclo e recebeu suporte de bootstrap de 100% na análise de máxima verossimilhança. O clado aparece como grupo-irmão de uma linhagem formada por C. gillii, C. oenas, C. spiluropsis e C. spilurus, enquanto C. sanctigabrielis, endêmica do Alto rio Negro, ocupa posição irmã em relação a ambos os agrupamentos. Dentro do clado C. saladensis, C. vanderi, do alto rio Paraná, constitui a linhagem de divergência mais antiga. C. saladensis, distribuída no baixo Paraná, no rio Uruguai e em drenagens costeiras do sul do Brasil, é irmã do par formado por C. caboclo, do alto Paraguai, e C. boiadeiro, do alto rio Araguaia. O agrupamento das três últimas espécies recebeu suporte moderado, de 62%, enquanto a relação entre C. caboclo e C. boiadeiro apresentou suporte elevado, de 94%.

A análise molecular utilizou uma matriz multilocus com 218 terminais, seis genes — 16S, Cytb, COI, Myh6, Rag1 e Rag2 — e pares de bases, dos quais eram variáveis. Duas sequências novas do gene mitocondrial COI obtidas de C. caboclo foram depositadas no GenBank sob os números de acesso MZ753806 e MZ753807. Uma segunda matriz, restrita ao gene COI, reuniu dez terminais das quatro espécies do clado C. saladensis, totalizando 657 pares de bases e 59 posições variáveis. Pelo modelo de Kimura de dois parâmetros, a distância genética média entre C. caboclo e C. boiadeiro foi de 3,5%, enquanto as distâncias em relação a C. vanderi e C. saladensis foram de aproximadamente 4 e 4,2%, respectivamente. A divergência intraespecífica registrada em C. caboclo foi de cerca de 1,3%, superior à observada em C. boiadeiro, mas ainda compatível com o reconhecimento de ambas como linhagens evolutivas distintas quando considerada em conjunto com suas diferenças morfológicas e geográficas.

O sistema látero-sensorial reduzido foi interpretado como uma possível sinapomorfia de C. caboclo, C. boiadeiro e C. saladensis. Nessas espécies, os poros da linha lateral ficam restritos às escamas anteriores da série longitudinal, enquanto C. vanderi conserva a linha lateral completa, considerada a condição ancestral do grupo. As três espécies também compartilham uma faixa escura fina ao longo da região médio-lateral do corpo, ausente em C. vanderi. Em C. saladensis, essa faixa se conecta à mancha do pedúnculo caudal, ao passo que em C. caboclo e C. boiadeiro permanece separada dela. Os autores ressaltaram, entretanto, que tanto a redução do sistema látero-sensorial quanto determinados padrões de pigmentação surgiram repetidamente em outras linhagens de Cyphocharax, provavelmente por evolução convergente. Modificações comparáveis da linha lateral ocorrem, por exemplo, em C. vexillapinnus, C. aninha, C. punctatus e C. gangamon, enquanto padrões de manchas ou faixas corporais semelhantes são encontrados em C. albula, C. jagunco, C. corumbae e C. laticlavius.

Descrição

Cyphocharax caboclo é uma espécie de pequeno porte, atingindo pelo menos 70,8 milímetros de comprimento padrão nos exemplares examinados. O corpo é moderadamente alongado e relativamente alto, com altura máxima correspondente a 36,1–40% do comprimento padrão, com média de 37,7%. O perfil dorsal da cabeça é convexo desde a ponta do focinho até a origem da nadadeira dorsal, ligeiramente convexo ao longo da base dessa nadadeira, reto entre a base de seu último raio e a origem da adiposa e discretamente côncavo até o primeiro raio procorrente dorsal da caudal. O perfil ventral da cabeça é convexo desde a margem anterior do lábio inferior até o istmo. O perfil ventral do corpo é suavemente convexo entre o istmo e a origem das nadadeiras pélvicas, convexo desse ponto até o término da base da anal e côncavo até o primeiro raio procorrente ventral da caudal. A região pré-pélvica é algo achatada transversalmente, enquanto a pós-pélvica apresenta contorno arredondado. A cabeça possui perfil anterior arredondado, mas aparência geral afilada, e mede 25,7–28,3% do comprimento padrão. A maxila superior é mais longa que a inferior, e a boca é subterminal, aproximadamente alinhada à margem ventral das órbitas. As narinas são próximas entre si, sendo a anterior circular ou ovalada e a posterior semilunar; a abertura entre ambas não é fechada pela fina dobra cutânea que as separa. A pálpebra adiposa é pouco desenvolvida e se concentra anteriormente à órbita. Em relação ao comprimento da cabeça, o focinho representa 26,1–31,1%, o diâmetro orbital 34,2–42,1%, a região pós-orbital 36,2–41,7% e a largura interorbital 40,3–45,9%.

A distância entre o focinho e a origem da nadadeira dorsal corresponde a 52,3–54,8% do comprimento padrão; entre o focinho e a origem da peitoral, a 26,8–29,8%; entre o focinho e a origem da pélvica, a 55,6–60,2%; e entre o focinho e a origem da anal, a 84,4–88,1%. A distância da origem da dorsal à articulação hipural equivale a 51,2–56% do comprimento padrão, enquanto as distâncias entre a origem da dorsal e as origens da anal, da pélvica e da peitoral representam, respectivamente, 45,4–50,7%, 35,3–39,6% e 36,3–40,9%. O pedúnculo caudal possui altura correspondente a 12,1–16,7% do comprimento padrão. A nadadeira dorsal é pontiaguda, apresenta margem distal reta e possui três raios simples e nove ramificados, sendo o primeiro raio simples muito curto e os dois primeiros raios ramificados mais longos que os demais. As nadadeiras peitorais apresentam margem distal ligeiramente arredondada e de treze a dezesseis raios no total, considerando um ou dois simples e de doze a catorze ramificados. Quando adpressas, suas extremidades terminam três ou quatro escamas antes da vertical que atravessa a origem das pélvicas. Estas possuem perfil pontiagudo, entre oito e onze raios no total, e, quando adpressas, terminam três ou quatro escamas antes da origem da anal. A nadadeira anal é emarginada, possui três raios simples e sete ramificados, com o primeiro simples muito curto e os primeiros raios ramificados aproximadamente duas vezes mais longos que o último. A nadadeira adiposa está presente e a caudal é bifurcada.