A KARNART — Criação e Produção de Objectos Artísticos, Associação, geralmente referida como Karnart, é uma associação cultural portuguesa sediada em Lisboa, constituída em 2001 por Luís Castro, Vel Z, Fernanda Ramos, Filipa Reis e Maria Campos, na continuidade de um percurso artístico iniciado na década de 1990. A sua actividade cruza teatro, dança, performance, body art, instalação e artes visuais, em particular através do conceito de perfinst, desenvolvido por Castro a partir da combinação entre performance e instalação.

A obra da Karnart tem sido objecto de crítica teatral e investigação académica. Entre outros estudos, Maria João Brilhante analisou o projecto no contexto do teatro português contemporâneo em 2009 e dedicou-lhe posteriormente um artigo integral na revista científica Dedalus; Maria Helena Serôdio estudou especificamente o conceito de perfinst e o projecto Karnart na revista internacional Critical Stages, e Daniela Salazar utilizou o Gabinete de Curiosidades Karnart como caso de estudo num artigo sobre performance e espaço museológico.

História

Maria João Brilhante situa o início do percurso artístico que viria a dar origem à Karnart em 1991, quando Luís Castro apresentou Pecado, a partir de O Pecado de João Agonia, de Bernardo Santareno. Nos anos seguintes, Castro prosseguiu a experimentação em Lisboa e Londres, com trabalhos como Madala (1993) e Comb (1996). Para Maria Helena Serôdio, Comb, apresentado em Londres na Smith's Gallery e no Institute of Contemporary Arts, constituiu uma experiência inicial da abordagem que Castro viria a denominar perfinst.

A associação Karnart foi formalmente criada em 2001 por Castro com o artista plástico Vel Z, a designer Fernanda Ramos, a produtora e realizadora Filipa Reis e a fotógrafa Maria Campos. A Direção-Geral das Artes regista 2001 como o início da actividade profissional continuada da estrutura e indica Luís Castro e José Velez (Vel Z) como responsáveis pela direcção artística.

Entre 2001 e 2009, a associação manteve o EspaçoKarnart nas instalações da antiga Escola de Medicina Veterinária, em Lisboa. Após a perda desse espaço, o colectivo desenvolveu a sua actividade, entre 2009 e 2013, na Galeria Monumental, em teatros e noutros locais. Em 2014 passou a dispor, em Belém, de um espaço cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, denominado Gabinete de Curiosidades Karnart (GCK).

A partir de 2012, o Gabinete de Curiosidades introduziu de forma mais explícita no trabalho da estrutura as questões do património e da memória das próprias criações. Daniela Salazar descreveu o projecto como uma forma de recolha, documentação, exposição e reutilização dos objectos provenientes dos espectáculos, procurando preservar a sua memória performativa e reinseri-los em novas criações.

Perfinst e prática artística

O termo perfinst resulta da aglutinação das palavras performance e instalação. Na análise de Brilhante, o conceito assenta na coexistência de uma linguagem ligada às artes do palco com outra proveniente das artes visuais, sem que uma tenha necessariamente de subordinar-se à outra. A relação entre performers, objectos, espaço e espectadores tornou-se, deste modo, um elemento recorrente das criações da Karnart. Serôdio assinala igualmente a utilização frequente de espaços não teatrais, como galerias, armazéns e o antigo laboratório da Faculdade de Medicina Veterinária, bem como o recurso a objectos quotidianos, miniaturas e outros elementos plásticos.

Em 2005, Serôdio analisou na revista Sinais de Cena o espectáculo Escravo Doutros, composto por sequências desenvolvidas com diferentes coreógrafos e interpretadas por Luís Castro. A crítica enquadrou a criação no território artístico do perfinst e no percurso anterior de Castro e da Karnart.

Brilhante analisou, entre outras criações, Pecado, Visões sobre Cemitério de Pianos e Húmus como exemplos de diferentes relações entre textos literários e a linguagem do perfinst. Em Visões sobre Cemitério de Pianos, baseado no romance homónimo de José Luís Peixoto, os espectadores percorriam uma instalação orientados por performers e por um roteiro, de forma que a experiência variava consoante o percurso realizado. Em Húmus (2010), a partir da obra de Raul Brandão, a acção distribuía-se pelos diferentes espaços de uma galeria, combinando narração gravada, interpretação, manipulação de objectos e circulação livre do público.

Ao estudar o percurso da estrutura até ao início da década de 2010, Brilhante identificou também a utilização de textos de autores como William Shakespeare, Raul Brandão, Bernardo Santareno, Federico García Lorca, Albert Camus, Copi e José Luís Peixoto, a par de trabalhos desenvolvidos a partir de materiais autobiográficos, visuais ou recolhidos em comunidades.

Recepção crítica e estudos

A actividade da Karnart recebeu tratamento continuado em publicações especializadas. Em 2005, Maria Helena Serôdio dedicou três páginas de Sinais de Cena a Escravo Doutros, discutindo o conceito de perfinst e situando a produção no percurso artístico de Luís Castro e da Karnart.

Em 2009, num estudo sobre a criação e a reflexão crítica no teatro português contemporâneo publicado na revista Sala Preta, da Universidade de São Paulo, Maria João Brilhante apresentou os percursos dos Artistas Unidos e da Karnart como dois casos que justificavam uma reflexão crítica sistematizada. A autora destacou a consistência do programa artístico da Karnart e considerou que o projecto vinha a conquistar «um lugar sólido no campo teatral português».

Maria Helena Serôdio voltou ao tema em 2011, num texto de Sinais de Cena dedicado a Húmus, e, em 2012, publicou na revista internacional Critical Stages/Scènes critiques, da Associação Internacional de Críticos de Teatro, o estudo Stepping off the Stage: Luís Castro’s Concept of “Perfinst” and his Theatre Project Karnart, centrado no percurso do projecto, na sua linguagem artística e em produções como Moç+amor, Escravo Doutros e Húmus.

Em 2014, Brilhante publicou na Dedalus: Revista Portuguesa de Literatura Comparada o artigo Do teatro ao perfinst: a obra de arte viva segundo a Karnart, de quinze páginas, no qual examinou a história da estrutura, os fundamentos conceptuais do perfinst, a sua relação com o financiamento público, o repertório e diversas criações realizadas desde a década de 1990. Em 2020, Daniela Salazar incluiu o Gabinete de Curiosidades Karnart entre os casos de estudo do artigo O lugar da performance artística no museu: memórias, presenças e ausências, publicado em Sinais de Cena, analisando a relação do projecto com arquivo, património e memória performativa.

Húmus recebeu uma distinção da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro em 2010, e o trabalho cenográfico de Luís Castro para a mesma produção venceu a categoria de Melhor Trabalho Cenográfico dos Prémios Autores de 2011.

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