A espiroquetose intestinal humana é uma condição clinicopatológica rara caracterizada pela colonização do epitélio superficial do cólon e do reto por bactérias anaeróbias obrigatórias ou facultativas do género Brachyspira, sendo as espécies Brachyspira aalborgi e Brachyspira pilosicoli os agentes etiológicos predominantemente isolados na espécie humana. Do ponto de vista epidemiológico, esta infeção apresenta taxas de prevalência marcadamente díspares, sendo endémica e frequentemente associada a precárias condições de saneamento básico em países em vias de desenvolvimento, ao passo que, no mundo ocidental e industrializado, exibe uma incidência muito baixa, afetando quase exclusivamente grupos de risco específicos, tais como doentes imunocomprometidos (sobretudo indivíduos seropositivos para o VIH) e homens que fazem sexo com homens (HSH). A grande maioria dos doentes colonizados permanece inteiramente assintomática, sendo a infeção detetada de forma incidental; contudo, nos casos clinicamente manifestos, o quadro clínico caracteriza-se por uma sintomatologia gastrointestinal inespecífica que inclui diarreia aquosa crónica, dor ou desconforto abdominal difuso, meteorismo, náuseas e, em raras situações, episódios de hemorragia retal (retorragia), o que pode mimetizar patologias mais comuns como a síndrome do intestino irritável ou a doença inflamatória intestinal. Atendendo a que a avaliação macroscópica por colonoscopia revela, na maior parte das vezes, uma mucosa perfeitamente normal ou com alterações mínimas e inespecíficas, como eritema ligeiro ou edema, o diagnóstico definitivo depende obrigatoriamente do exame histopatológico de biopsias colónicas, no qual se observa uma característica banda basófila densa na margem apical dos enterócitos com cerca de 3 a 7 micrómetros de espessura — conhecida classicamente como a «linha azul» ou falsa orla em escova (false brush border) —, cuja morfologia filamentosa e em espiral é facilmente evidenciada recorrendo a colorações argênticas especiais (como a de Warthin e Starry) ou a testes de imunohistoquímica e biologia molecular (PCR). Finalmente, a abordagem terapêutica é ditada pela clínica do paciente: enquanto os indivíduos assintomáticos dispensam qualquer tipo de intervenção médica, sendo submetidos apenas a vigilância clínica, os doentes sintomáticos beneficiam de antibioterapia dirigida, constituindo o metronidazol o fármaco de eleição que demonstra uma eficácia robusta na erradicação bacteriana e na consequente resolução completa dos sintomas gastrointestinais.
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