Abu Talha Zaíde ibne Sal Alançari (; m. 652/71) foi um cazerajita de Medina, pertencente aos najaritas, e um dos primeiros habitantes da cidade a se converterem ao islão. Padrasto de Anas ibne Maleque por seu casamento com , participou do Primeiro Pacto de Ácaba e, após a Hégira, tornou-se um dos companheiros de Maomé. Participou das principais campanhas militares do período, incluindo as batalhas de Badre, Uude e Hunaine, distinguindo-se particularmente como arqueiro em Uude.

Abu Talha também possuía numerosos pomares em Medina, entre eles , que doou a pedido de Maomé a seus parentes. Após a morte de Maomé, participou de acontecimentos da comunidade medinense e foi encarregado por Omar de proteger o conselho responsável pela escolha de seu sucessor. Foi ainda transmissor de hádices, preservados em importantes compilações posteriores. As fontes divergem consideravelmente sobre sua morte, situando-a em 652, 654–655 ou 671 e apresentando versões segundo as quais teria falecido em Medina, Damasco ou durante uma expedição naval contra o Império Bizantino.

Vida

Abu Talha Zaíde ibne Sal Alançari nasceu em Medina durante a Jailia e pertencia aos cazerajitas, mais especificamente aos najaritas, razão pela qual também era conhecido pelas nisbas Alcazeraji e Alnajari. Tornou-se padrasto de Anas ibne Maleque após se casar com a mãe deste, . Segundo o relato preservado por M. Yaşar Kandemir, após a morte de , primeiro marido de Ume Soleime, Abu Talha pediu-a em casamento. Ela respondeu que sua condição de politeísta impedia a união, mas que aceitaria casar-se sem exigir dote caso ele se convertesse ao islão. Abu Talha então se converteu e se casou com ela; da união nasceram Abedalá e Abu Omeir. Em 621, participou do Primeiro Pacto de Ácaba, na qual representou seu grupo tribal. Após a Hégira de Maomé para Medina, este estabeleceu um vínculo de fraternidade entre Abu Talha e Abu Ubaida ibne Aljarrá. Abu Talha participou da Batalha de Badre e das campanhas militares posteriores de Maomé. Na Batalha de Uude, destacou-se como arqueiro e procurou proteger Maomé com seu próprio corpo e um escudo de couro enquanto disparava contra os adversários. Segundo a tradição citada por Kandemir, Maomé, reconhecendo sua habilidade com o arco, ordenou aos combatentes que passavam pelo local com suas aljavas cheias que entregassem suas flechas a Abu Talha. Quando Maomé tentava erguer-se para observar onde atingiam seus disparos, Abu Talha pedia-lhe que não se expusesse às flechas inimigas e afirmava que seu próprio peito deveria servir-lhe de proteção. Mais tarde, na Batalha de Hunaine, teria matado vinte adversários.

Além de sua atuação militar, Abu Talha era conhecido em Medina por cavar sepulturas e, após a morte de Maomé, foi responsável pela escavação de seu túmulo. Durante o califado de Omar , este lhe confiou a tarefa de proteger os membros do conselho encarregado de escolher seu sucessor, impedindo que fossem perturbados até concluírem a eleição do novo califa. Há também relatos segundo os quais Abu Talha posteriormente deixou Medina e passou algum tempo em Damasco. Abu Talha era conhecido entre os companheiros de Maomé por sua coragem, habilidade militar e particularmente pela potência de sua voz. Maomé mantinha relações próximas com sua família e frequentava sua residência, onde comia alimentos preparados por Ume Soleime e por vezes repousava durante o dia. Uma tradição relata que, numa ocasião, Abu Talha enviou Anas para convidá-lo para uma refeição. Maomé compareceu acompanhado de cerca de setenta ou oitenta de seus seguidores, embora a quantidade de comida preparada fosse limitada. Segundo o relato, após Maomé orar pela multiplicação do alimento, os presentes comeram em grupos de dez até que todos estivessem satisfeitos. Durante a peregrinação realizada por Maomé, parte dos cabelos cortados de sua cabeça também foi entregue a Abu Talha, e Ume Soleime conservou alguns deles.

Entre os muçulmanos de Medina, Abu Talha possuía numerosos pomares de tamareiras. Tinha especial apreço por um jardim chamado , situado diante da Mesquita do Profeta e conhecido por possuir água doce. Segundo a tradição, após a revelação do versículo 92 da sura Al Imran, que associa a virtude à disposição de oferecer aquilo que se estima, Abu Talha colocou o jardim à disposição de Maomé para que fosse empregado conforme julgasse apropriado. Maomé aconselhou-o a destiná-lo a seus parentes, e Abu Talha distribuiu a propriedade entre familiares, entre os quais Ubai ibne Cabe e Haçane ibne Tábite. As fontes apresentam versões divergentes sobre a morte de Abu Talha. Segundo a opinião considerada majoritária por Kandemir, morreu em 34 A.H. (654–655), embora também sejam registradas as datas de 32 A.H. (652) e 51 A.H. (671). Uma tradição transmitida por Anas ibne Maleque afirma que, já idoso, Abu Talha interpretou o versículo 41 da sura at-Tawba como uma convocação que abrangia tanto jovens quanto idosos e decidiu participar de uma expedição naval contra os bizantinos. Teria morrido a bordo antes que a embarcação alcançasse terra e, como não se encontrou local para sepultá-lo durante sete dias, seu corpo teria permanecido no navio durante esse período. Outras tradições afirmam, contudo, que morreu em Medina e que sua oração fúnebre foi conduzida pelo califa Otomão , enquanto outra versão situa sua morte em Damasco.

Abu Talha também foi transmissor de hádices. As fontes divergem quanto ao número de tradições atribuídas a ele, apresentando totais que variam de pouco mais de vinte a noventa e duas. Amade ibne Hambal incluiu vinte e cinco delas no Musnad, enquanto três aparecem no Sahih de Albucari e três no de Muslim. Entre aqueles que transmitiram tradições sob sua autoridade estavam seu enteado Anas ibne Maleque, Ibne Abas, e seu filho .

Bibliografia

Categoria:Naturais de Medina Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Najaritas Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes Categoria:Generais do Califado Ortodoxo