Os escribas da revelação () eram os companheiros de Maomé encarregados de registrar por escrito os versículos do Alcorão que lhe eram revelados. Segundo a tradição islâmica, Maomé ditava as novas revelações aos escribas, podia solicitar que o texto registrado lhe fosse lido e indicava a posição dos versículos nas respectivas suras. O registro era realizado em diferentes materiais disponíveis na época, enquanto outros companheiros também produziam ou encomendavam cópias dos textos. Embora o Alcorão não tenha sido reunido durante a vida de Maomé em um único volume na forma posteriormente estabelecida, as tradições sobre sua compilação após sua morte descrevem a existência de registros escritos dispersos entre seus seguidores.
As fontes divergem consideravelmente sobre a identidade e o número dos escribas, em parte porque autores posteriores nem sempre distinguiram os responsáveis pela revelação dos demais secretários de Maomé, que redigiam cartas, tratados e outros documentos. Entre os nomes identificados de maneira recorrente como escribas da revelação estão Ali, Otomão, Zaíde ibne Tábite, Ubai ibne Cabe e Abedalá ibne Sade ibne Abi Sar, embora diversos outros companheiros também sejam associados à atividade. Zaíde ibne Tábite adquiriu particular destaque nas tradições sobre o registro da revelação e posteriormente participou da reunião do texto corânico.
Registro da revelação
Os escribas da revelação eram os companheiros de Maomé encarregados de registrar por escrito os versículos do Alcorão que lhe eram revelados. Embora o texto corânico tenha sido transmitido também oralmente e memorizado pelos primeiros muçulmanos, as tradições islâmicas afirmam que Maomé mandava registrar por escrito as revelações ao longo de sua atividade profética. O Alcorão não foi reunido durante sua vida em um único volume com as suras dispostas na ordem posteriormente estabelecida, situação atribuída, entre outros fatores, à continuidade da revelação até pouco antes de sua morte e à possibilidade de ab-rogação de determinados versículos. M. Suat Mertoğlu observa que, apesar disso, não há divergência na tradição muçulmana quanto ao fato de que o texto corânico foi colocado por escrito durante a vida de Maomé. As próprias fontes islâmicas preservam diferentes indícios da existência desses registros. Mertoğlu menciona passagens do Alcorão que foram interpretadas como referências à existência de textos escritos, embora algumas dessas interpretações sejam controversas, e destaca sobretudo as tradições preservadas na literatura de hádice. Uma das principais evidências apresentadas é o relato da reunião do Alcorão durante o califado de Abu Becre , pouco depois da morte de Maomé: nesse processo, os versículos foram encontrados escritos em diferentes materiais conservados por diversos companheiros. Segundo as tradições, quando novos versículos eram revelados, Maomé convocava um dos escribas e ditava-lhes o texto. Durante o período de Medina, Zaíde ibne Tábite, que residia próximo de Maomé, figurava entre os homens chamados com maior frequência para essa tarefa e recebia instruções para trazer consigo material de escrita.
O registro escrito não parece ter ficado restrito aos escribas oficialmente encarregados dessa atividade. Uma tradição atribuída a Maomé, na qual ele teria ordenado que não fossem registradas suas palavras além do Alcorão, é interpretada como indicação de que outros companheiros também escreviam os versículos. Há ainda relatos de pessoas incapazes de escrever que procuravam escribas levando consigo suas folhas para que fossem feitas cópias. Com base em tradições segundo as quais a cópia e a correção de exemplares particulares ocorriam sob a supervisão de Maomé, alguns autores admitiram inclusive a possibilidade de ter existido um local especificamente destinado à cópia do texto corânico. A documentação sobre o período de Meca é mais limitada. Uma tradição atribuída a Ibne Abas afirma que os versículos revelados nesse período já eram registrados por escrito, mas as fontes não esclarecem quando a prática começou nem como era organizada. Mertoğlu considera possível que os primeiros versículos, geralmente curtos, fossem inicialmente memorizados e que um registro escrito mais sistemático tenha se desenvolvido posteriormente. Algumas tradições, contudo, indicam que textos corânicos circulavam por escrito ainda em Meca. O relato da conversão de Omar, situada no quinto ano da missão de Maomé, afirma que ele encontrou na casa de sua irmã versículos das suras Ta-Ha e at-Takwir escritos em uma folha. Outro relato afirma que, durante os Pactos de Ácaba, Maomé entregou a os versículos que haviam sido revelados durante os dez anos anteriores, e que este os leu posteriormente aos habitantes de Medina.
Procedimento e materiais
As tradições preservam algumas informações sobre a maneira pela qual os escribas registravam as revelações. Segundo um relato transmitido por Zaíde ibne Tábite, depois de ditar os versículos Maomé pedia ao escriba que lesse aquilo que havia escrito e ordenava a correção de eventuais erros. Os relatos também afirmam que Maomé indicava em qual posição de determinada sura um novo versículo deveria ser inserido. Como os versículos de uma mesma sura podiam ser revelados em momentos diferentes, Ubai ibne Cabe teria afirmado que aguardava as instruções de Maomé para colocá-los em suas posições correspondentes. Mertoğlu interpreta essas tradições como indicação de que o material anteriormente escrito era periodicamente revisto e que versículos inicialmente registrados de forma dispersa eram reunidos e ordenados à medida que novos materiais de escrita se tornavam disponíveis.
Não há consenso nas fontes sobre onde eram conservados os textos produzidos pelos escribas. Alguns autores sustentaram que permaneciam na residência de Maomé, enquanto outros consideraram mais provável que fossem mantidos pelos próprios escribas, o que permitiria aos demais companheiros copiá-los com maior facilidade. Mertoğlu considera esta última possibilidade mais plausível, observando que os relatos sobre a reunião do Alcorão no período de Abu Becre não mencionam um conjunto completo de registros guardado na casa de Maomé, mas descrevem a coleta de materiais escritos que se encontravam dispersos entre diferentes companheiros.
Os materiais disponíveis para a escrita eram variados e relativamente escassos. Entre eles estavam papiros egípcios, couro curtido, pedaços de couro ou outros suportes próprios para escrita, pergaminho produzido com pele de gazela, seda e tecido. Materiais mais simples também eram empregados, como ramos de tamareira, pedras de superfície plana, omoplatas e costelas de animais, pedaços de madeira e fragmentos de cerâmica. Os escribas utilizavam a ortografia árabe existente no período da revelação, que continuou a desenvolver-se tanto durante a vida de Maomé quanto nos processos de reunião do Alcorão realizados nos califados de Abu Becre e Otomão .
Identidade e número dos escribas
As fontes fornecem números consideravelmente diferentes para os escribas de Maomé. Mertoğlu atribui grande parte dessa divergência à dificuldade de distinguir os escribas da revelação daqueles que exerciam outras funções de escrita, como a redação de cartas e tratados ou o registro de despojos. As tradições indicam que havia divisão de tarefas entre os secretários de Maomé e que apenas determinados indivíduos se ocupavam regularmente do registro da revelação. Sem estabelecer essa distinção, enumerou catorze escribas de Maomé, quarenta e três e Muḥammad Muṣṭafā al-Aʿẓamī chegou a sessenta e cinco nomes, alguns dos quais considerados discutíveis. Consequentemente, números como quarenta e três ou sessenta e cinco encontrados em trabalhos posteriores não devem ser entendidos necessariamente como o total de escribas especificamente encarregados da revelação. Entre os autores antigos que procuraram especificar as funções exercidas pelos escribas, Albaladuri relacionou dez secretários de Maomé, dos quais três seriam escribas da revelação; Atabari enumerou oito, dos quais quatro teriam essa função; e Ibne Abede Rabi mencionou catorze, dos quais cinco seriam escribas da revelação. Cinco nomes aparecem em comum nessas fontes como pessoas que efetivamente registravam a revelação: Ali, Otomão, Zaíde ibne Tábite, Ubai ibne Cabe e Abedalá ibne Sade ibne Abi Sar. Embora outras pessoas também sejam identificadas nas tradições como escribas da revelação, Mertoğlu considera que esses cinco parecem ter desempenhado a função de maneira mais regular. Zaíde ibne Tábite ocupa posição particularmente destacada entre eles.
Outros indivíduos apontados como escribas da revelação incluem Moáuia ibne Abi Sufiane, , Abane ibne Saíde, Alalá ibne Alhadrami e Hanzala ibne Arrabi. As fontes divergem também sobre quem teria sido o primeiro a desempenhar a função. Há tradições que identificam Abedalá ibne Sade ibne Abi Sar como o primeiro escriba da revelação em Meca. Outra tradição, segundo a qual a filha de Calide ibne Saíde afirmou que seu pai foi o primeiro a escrever a bismilá, levou alguns autores a considerar Calide o primeiro escriba mecanense. Em Medina, Ubai ibne Cabe é apontado como o primeiro a exercer a função, sendo substituído por Zaíde ibne Tábite quando não estava disponível. Atabari, por sua vez, afirma que Ali e Otomão escreviam a revelação e que, na ausência de ambos, a tarefa era desempenhada por Ubai e Zaíde, o que faz destes últimos os primeiros escribas da revelação entre os ançares.
Algumas tradições sobre a atuação dos escribas foram contestadas pela própria historiografia islâmica. Entre elas estão relatos segundo os quais Abedalá ibne Sade ibne Abi Sar teria alterado deliberadamente as palavras ditadas durante sua atividade como escriba e Maomé teria aceitado essas modificações. Mertoğlu observa que esses relatos foram considerados inaceitáveis por autores que os avaliaram tanto à luz do cuidado atribuído a Maomé na preservação do texto corânico quanto dos critérios de transmissão das próprias tradições. O tema dos escribas da revelação foi tratado em obras de hádice, biografias de Maomé, compilações sobre seus companheiros e trabalhos dedicados à história do islão e do Alcorão. Também surgiram obras especificamente dedicadas aos escribas de Maomé ou aos escribas da revelação, entre elas o Kitāb al-Kuttāb, atribuído a , o al-Miṣbāḥ al-muḍī fī kuttāb al-nabī al-ummī, de , o Kuttāb al-nabī, de Muḥammad Muṣṭafā al-Aʿẓamī, e o Kuttāb al-waḥy, de Aḥmad ʿAbd al-Raḥmān ʿĪsā.
Bibliografia
Categoria:Escribas da revelação