Friedrich Kiefer (Karlsruhe, 24 de fevereiro de 1894 – Santos, 30 de julho de 1969) e Ottilie Kiefer, nascida Langenstein (Friedrichshafen, 31 de dezembro de 1893 – São Paulo, 4 de julho de 1978) foi um casal de jornalistas alemães refugiados no Brasil.

Durante o exercício da profissão, Friedrich foi perseguido, preso e obrigado a exilar-se no início da era da Alemanha Nazista. No Brasil, permaneceu confinado com Ottilie e seus oito filhos na zona rural do sul do país, além de ter sido novamente preso durante o Estado Novo.Arquivo Público Central de Stuttgart, acervo Q1/35, arquivo 179, Carta de Fritz Kiefer, de São Paulo, Brasil, ao Presidente Dr. Gebhard Müller em 10 de agosto de 1949. Logo após o Golpe de Estado de 1964, surgiram indícios de que seu trabalho como correspondente estrangeiro estava sob investigação por agentes do Estado.

Conhecido profissionalmente como "Fritz Kiefer", exerceu sua atividade jornalística em conjunto com a esposa. Ottilie não apenas colaborava diretamente com o trabalho do marido, como também suavizava o estilo considerado intrépido e ousado de seus textos.EHRMANN, Peter. Rottenburg im Nationalsozialismus – Von der Machtergreifung zum Kriegsbeginn (1933 – 1939), in: Band 52/53, Rottenburg am Neckar, Sülchgau, 2008/2009].ISBN 978-3-86595-322-2 Numa época em que a atuação das mulheres era frequentemente desacreditada, alguns artigos de Ottilie foram publicados sob a assinatura de Fritz, como forma de garantir sua divulgação.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 4606, p. 2b: Requerimento de Ottilie Kiefer, Rio de Janeiro, para indenização nos termos da Lei de Indenização da República Federal da Alemanha de 21/08/1954.

Ambos compartilhavam convicções republicanas e democráticas, resistindo por meio da escrita à fragilidade da República de Weimar, à influência do bolchevismo russo e à ascensão do nacional-socialismo.KIENZLE, Paula, Frauen mit Profil und Tatkraft – in Rottenburg im 20. Jahrhundert, Band 41, Berlin, Lit Verlag, 2017, pp.121-122 e 125. ISBN 978-3-643-13826-2.

Biografia Friedrich Kiefer

Primogênito de uma família católica alemã, recusou-se a seguir a carreira religiosa, destinada a um casal de irmãos. Lutou durante quase toda a Primeira Guerra Mundial, retornando ileso. Após o conflito, ingressou na Universidade de Freiburg, onde iniciou sua formação acadêmica. Seguiu carreira como jornalista, realizando estágios em alguns periódicos, entre eles o Konstanzer Nachrichten, onde integrou a equipe editorial. Seu último estágio foi no Deutsche Bodensee-Zeitung, em Constança,Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 4606, p. 127. Dr. Wörner para o Escritório Estadual de Restituição em Stuttgart em 8 de julho de 1969. época em que conheceu Ottilie.Arquivo Municipal de Baden-Baden, Certidão de casamento de Fritz e Ottilie Kiefer.

Ottilie Kiefer

Filha de Adolf Langenstein, comerciante bem-sucedido da região do Bodensee, cresceu em uma família católica marcada pela defesa de ideais republicanos e democráticos. Realizou parte dos seus estudos na InglaterraSchool Report – Convent of the Holy Cross – Southey Road, Wimbledon, London, England. e, posteriormente, seguiu carreira como pianista e cantora, participando de turnês pela Europa. Durante a Primeira Guerra Mundial, atuou como voluntária na coordenação de comboios de órfãos de guerra para a Suíça, sendo condecorada com a Cruz de Mérito da Cruz Vermelha por seus serviços humanitários. A influência política herdada do pai orientou sua trajetória pessoal e profissional, consolidando seu engajamento em causas sociais e democráticas.KIENZLE, Paula. Frauen mit Profil und Tatkraft – in Rottenburg im 20. Jahrhundert, Band 41, Berlin, Lit Verlag, 2017, pp. 112-113.

Família Kiefer

O casal teve nove filhos. As duas últimas nasceram durante o exílio da família no Brasil, ocorrendo o falecimento da caçula poucas semanas após o nascimento. O primogênito, Bruno Kiefer, destacou-se como compositor, musicólogo e figura relevante na vida cultural brasileira, especialmente no Rio Grande do Sul. Em 1936, a segunda filha, Gertrud — um ano mais nova que Bruno —, retornou à Alemanha acompanhada do pai para residir em Constança e fazer companhia à avó materna, então viúva e sem outros descendentes. A entrada de ambos na Alemanha ocorreu sem atrair a atenção das autoridades nazistas. Gertrud permaneceu no país europeu até o término da Segunda Guerra Mundial.KIENZLE, Paula. Frauen mit Profil und Tatkraft – in Rottenburg im 20. Jahrhundert, Band 41, Berlin, Lit Verlag, 2017, pp. 104-166. No início do pós-guerra, ela conheceu um médico do exército norte-americano, com quem se casou. O casal fixou residência nos Estados Unidos, e Gertrud regressou ao Brasil apenas uma vez para visitar a família. O casal Kiefer teve treze netos nascidos no Brasil.

Atividade profissional na Alemanha (1922–1933) Fritz atuou como editor ou editor-chefe em diversos jornais regionais, incluindo o Badische Volkszeitung (Baden-Baden), Badischer Landsmann (Ettlingen) e Rottenburger Zeitung (Rottenburg). Também foi colaborador permanente nos periódicos Kölnische Volkszeitung, Deutsche Bodenseezeitung, Pfälzer Boten, Münchner Rundschau e Badischer Beobachter.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 3848, p. 86. Da decisão do Escritório Estadual de Reparações de Tübingen, de 19/10/1955.

Em 1925, assumiu a chefia do departamento de imprensa do Ministério do Interior de Baden, em Karlsruhe.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 3848, p. 127. Desde 1924, publicou artigos de oposição ao nacional-socialismo,Arquivo Público Central de Stuttgart, acervo Q1/13, arquivo 703. posicionamento que se intensificou durante sua atuação como redator-chefe do Rottenburger Zeitung. Em 1933, em decorrência de suas críticas ao regime,KIEFER, Fritz. Ungeschickte Fragen – notwendige Feststellungen (Perguntas embaraçosas – constatações necessárias). Rottenburger Zeitung. Colunas publicadas frequentemente de fevereiro a março de 1933. Arquivo municipal de Rottenburg.THORNE, Ellen Jean. Resistance in the Third Reich?: Political dissent in Rottenburg am Neckar, 1933 – 1938, 2000, pp. 71-72. Dissertação (Mestrado em História) - Faculty of Graduate Studies, University of Guelph, Guelph, Ontário, Canadá. foi detido sob “custódia protetiva” na prisão estadual de Rottenburg, aguardando a homologação para ser transferido ao campo de concentração de Heuberg. Foi liberto após intervenção de autoridades políticas e religiosas. Pouco depois, demitiram-no do jornal por imposição dos nazistas.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 3848, p. 86-87 e 89. Da decisão do Escritório Estadual de Restituição de Tübingen, datada de 19 de outubro de 1955. Em decorrência das dificuldades financeiras, o clero local recomendou-lhe a emigrar com a família para o Brasil. Apesar da relutância, Ottilie e Fritz decidiram emigrar após serem informados da ameaça de nova prisão do jornalista.Arquivo Estadual de Sigmaringen Württemberg 33, T 1, arquivo 3848, p.128. Friedrich Kiefer: Declaração juramentada de Ottilie Kiefer datada de 27 de maio de 1958.

Exílio no Brasil (1934 - 1960) A família emigrou em 1934Lista de Passageiro de Bremen (Projeto conjunto da Câmara de Comércio de Bremen e do Arquivo Estadual de Bremen) - Navio: Madrid. Data de partida: 14 de abril de 1934. Porto de partida: Bremen. Porto de chegada: São Francisco do Sul, Brasil., com o auxílio de organizações católicas e autoridades religiosas. Estabeleceu-se no interior de Santa Catarina, onde ocupou-se da lavora por cinco anos, conforme exigência do acordo de imigração.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 3848, p.173.KIEFER, Fritz. Meine erste Weihnacht im brasilianischen Urwald (Meu primeiro Natal no sertão brasileiro). Tübinger Chronik, 24 dezembro 1949.

Durante o Estado Novo, em meio às tensões políticas da Segunda Guerra Mundial, Fritz foi alvo de denúncias feitas por alguns alemães locais e descendentes simpatizantes do nacional-socialismo. Considerado por eles um "traidor da pátria" devido à sua firme oposição ao regime nazista, ele acabou acusado falsamente como forma de represália. Consequentemente, Fritz foi preso duas vezes e enviado ao campo de confinamento Oscar Schneider, em Joinville, destinado a estrangeiros das Potências do Eixo. Ottilie desempenhou papel decisivo na sua libertação ao escrever uma carta em francês direcionada à primeira-dama, Darcy Vargas, na qual atestava as convicções democráticas do marido e seu histórico de resistência ao regime de Adolf Hitler na Alemanha.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 3848, p. 290. Dr. med. Wörner para o Escritório Estadual de Reparações em Stuttgart.

Após a guerra, mudaram-se para São Paulo. Fritz retomou gradualmente a carreira jornalística como correspondente estrangeiro. Ao longo dos anos, publicou crônicas e algumas traduções de livros em periódicos nacionais e internacionais de língua alemã.Arquivo Estadual de Sigmaringen, Württemberg 33, T 1, arquivo 4606, p. 157. Dr. med. Wörner para o Escritório Estadual de Reparações em Stuttgart.RIBEIRO-DE-SOUSA, Celeste, Pontes Poéticas – 200 anos de literatura brasileira de expressão alemã (1824-2024), Instituto Martius-Staden, 2024, p. 43. ISBN 978-85-64168-19-0. Também se dedicou a escrever livros, incluindo obras infantojuvenis, como Regina und die Tiere von Rio (Regina e os animais do Rio), publicado na Alemanha em 1958.KIEFER, Friedrich. Regina und die Tiere von Rio (Regina e os Animais do Rio) – Hannover, D. Gundert Verlag, 1958. Em 1952, tornou-se redator-chefe do Deutschen Wochenblatt, no Rio de Janeiro.

Últimos anos No início da década de 1960, o casal recebeu reparação financeira do governo alemão destinada a vítimas da perseguição nazista e decidiu retornar à Alemanha. Pouco depois, a morte de um dos filhos motivou o regresso ao Brasil. Nessa ocasião, Fritz atuava no país como correspondente estrangeiro, no entanto, com o golpe civil-militar de 1964, o casal evidenciou o monitoramento da residência deles pela polícia política. Esse contexto instável, somado à ausência de dois filhos, comprometeu o estado de saúde de Ottilie. Diante dessa situação, foram aconselhados a buscar tratamento médico na Europa, onde acabaram fixando residência novamente em 1967.KIENZLE, Paula. Frauen mit Profil und Tatkraft – in Rottenburg im 20. Jahrhundert, Band 41, Berlin, Lit Verlag, 2017, pp. 156-160. O jornalista Fritz encerrou definitivamente sua carreira.

Em 1969, durante visita aos filhos em Santos, Fritz faleceu vítima de enfarte agudo do miocárdio. Ottilie viveu com as filhas em São Paulo até sua morte, em 1978.Arquivo do Cemitério Campo Grande, São Paulo.

Ver também

Jornalismo político Campos de concentração no Brasil na Segunda Guerra Mundial

Bibliografia

Livros

EHRMANN, Peter (2008/2009). Rottenburg im Nationalsozialismus – Von der Machtergreifung zum Kriegsbeginn (1933 – 1939); Rottenburg sob o Nacional-Socialismo – Da tomada do poder ao início da guerra (1933 – 1939). (em alemão); Rottenburg am Neckar: Band 52/53, Sülchgau, cap.: pp. 88-95. - Fritz Kiefer, ein unerschrockener Redakteur; Fritz Kiefer, um editor destemido. ISBN 978-3-86595-322-2

KIENZLE, Paula (2017). Frauen mit Profil und Tatkraft – in Rottenburg im 20. Jahrhundert; Mulheres com personalidade e vigor – em Rottenburg, no século XX. (em alemão); Berlin: Band 41, Lit Verlag, cap.: pp. 104-166. Auf Widerstand gegen den "braunen Terror" folgte die Vertreibung; A resistência contra o "terror marrom" foi seguida de expulsão. ISBN 978-3-643-13826-2

Trabalhos acadêmicos

THORNE, Ellen Jean (2000). Resistance in the Third Reich?:Political dissent in Rottenburg am Neckar, 1933 – 1938. Dissertação (Mestrado em História) (em inglês) - Faculty of Graduate Studies, University of Guelph, Guelph, Ontário, Canadá.

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