Luiza Prado (Porto Alegre, 1914 – Rio de Janeiro, 2000) foi uma ceramista, escultora e professora de arte brasileira. Sua trajetória esteve ligada à organização do meio artístico do Rio Grande do Sul, à formação e ao ensino de cerâmica no Brasil e no exterior e à circulação da arte sul-rio-grandense em exposições e salões. Em 1938, foi uma das fundadoras da Associação de Artistas Plásticos Francisco Lisboa, instituição que presidiu durante dois anos.

Prado aperfeiçoou seus conhecimentos de cerâmica na França e estudou técnicas de preparação de tintas na China. Também exerceu atividades docentes em Cuba e no Chile, manteve atuação artística no Uruguai e criou, no Brasil, o Curso Livre de Cerâmica. Em Porto Alegre, prestou acompanhamento técnico a Iberê Camargo na primeira série de pinturas do artista sobre porcelana, realizada entre 1960 e 1961. Uma de suas obras, Vaso (nº 1), de 1956, pertence ao acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS).

Biografia

Atuação institucional e vida em Porto Alegre Nascida em Porto Alegre em 1914, Luiza Prado iniciou sua atuação pública no meio artístico gaúcho pelo menos na década de 1930. Em 1938, participou da fundação da Associação de Artistas Plásticos Francisco Lisboa, criada para reunir artistas, promover exposições e fortalecer a atividade profissional no Rio Grande do Sul. Prado não apenas integrou o grupo fundador, como também ocupou a presidência da entidade por dois anos. No mesmo ano, casou-se com o escultor e gravador Vasco Prado, de quem foi a primeira esposa.

Sua participação na Associação Francisco Lisboa insere-se num período de institucionalização das artes visuais no estado. A cerâmica artística ainda ocupava uma posição recente nesse ambiente: segundo síntese histórica publicada pelo governo estadual por ocasião da exposição Caminhos da Cerâmica, o reconhecimento oficial dessa linguagem no Rio Grande do Sul ganhou força a partir da década de 1930, embora a produção local em barro tivesse sido anteriormente associada sobretudo a objetos utilitários.

Em 1953, já de volta ao Brasil depois de experiências formativas no exterior, Prado participou do IV Salão do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul e recebeu medalha de prata. Posteriormente, fundou o Curso Livre de Cerâmica, iniciativa por meio da qual reuniu a produção artística e a transmissão de conhecimentos técnicos.

Na segunda metade da década de 1950, sua produção passou a integrar o acervo público gaúcho. O MARGS adquiriu por compra, em 1957, Vaso (nº 1), peça criada no ano anterior. A obra, em cerâmica com esmaltes, mede 60 centímetros de altura e 47,1 centímetros de diâmetro e recebeu o número de registro 0094 no museu. A aquisição ocorreu durante os anos iniciais de formação da coleção do MARGS, instituição fundada em 1954.

Em 1960, Prado figurou entre os participantes do Festival de Artes Plásticas Contemporâneas, realizado em Porto Alegre pela Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, com apoio do Museu de Arte Moderna de São Paulo. O evento reuniu artistas de diferentes regiões e gerações, e seu catálogo registrou a presença de Prado ao lado de nomes como Iberê Camargo, Manabu Mabe, Francisco Stockinger, Regina Silveira, Tikashi Fukushima e Yara Tupynambá. No ano seguinte, participou da coletiva Arte Rio-Grandense do Passado ao Presente, organizada no MARGS.

Formação e docência internacional Durante a década de 1950, Prado esteve na França, onde se aperfeiçoou com o ceramista e decorador Pierre Lordereau. A formação francesa foi complementada por viagens e estudos em outros países. Na China, realizou um curso voltado à preparação de tinta fosca para aplicação sobre barro ainda úmido, conhecimento relacionado ao tratamento da superfície antes da queima. Em Cuba, lecionou na Escola de Instrutores de Artes.

Prado permaneceu em Porto Alegre até o início da década de 1960. Posteriormente, morou em Montevidéu, no Uruguai, e em Santiago, no Chile. Em Montevidéu, frequentou um curso de pintura com o professor Collel; tanto na capital uruguaia quanto na chilena realizou exposições individuais e recebeu prêmios em salões. Em Santiago, atuou como professora no Colégio de Jornalismo. Esses deslocamentos ampliaram uma trajetória que combinava produção autoral, estudo de materiais, ensino e participação no circuito expositivo latino-americano.

As fontes disponíveis não estabelecem uma cronologia completa de suas estadias em cada país nem informam quando se transferiu para o Rio de Janeiro. Prado morreu nessa cidade em 2000.

Obra e procedimentos A documentação museológica e biográfica identifica Luiza Prado simultaneamente como ceramista e escultora. A obra preservada no MARGS demonstra seu trabalho com volumes de grande porte e superfícies esmaltadas: Vaso (nº 1), com 60 centímetros de altura, ultrapassa a escala de um pequeno objeto doméstico e integra formalmente a coleção de artes visuais do museu. Registros de acervos particulares também documentam esculturas cerâmicas produzidas por ela no fim da década de 1950.

Sua formação revela interesse continuado pelos processos físicos e químicos da cerâmica. O estudo de tinta fosca para barro úmido realizado na China, o aperfeiçoamento com Pierre Lordereau na França e o posterior domínio da pintura sobre porcelana indicam conhecimento de preparação de superfícies, pigmentos minerais, esmaltação e queima. Esse saber técnico fundamentou tanto a produção própria quanto sua atuação como professora e colaboradora de outros artistas.

Colaboração com Iberê Camargo Entre 1960 e 1961, Prado acompanhou tecnicamente o primeiro conjunto de pinturas de Iberê Camargo sobre pratos de porcelana industrial. A parceria ocorreu em seu ateliê, em Porto Alegre, e foi registrada fotograficamente em 1961.

O trabalho exigia conhecimento específico porque as tintas para porcelana eram produzidas à base de minerais e tinham cores e texturas alteradas pela ação do forno. O tempo e a temperatura de queima precisavam ser controlados com precisão. Nesse processo, Prado forneceu a base técnica que permitiu a Iberê experimentar a porcelana como suporte pictórico, incluindo a retirada de tinta com o cabo do pincel para formar riscos secos, procedimento conhecido como scratch.

A Fundação Iberê mantém registros fotográficos de sessenta peças cerâmicas atribuídas às experiências do pintor nas décadas de 1960, entre elas o primeiro grupo realizado com a orientação de Prado. Uma obra de cerca de 1961 conservada pela instituição — pintura em esmalte cerâmico sobre prato de porcelana industrial, com 24,3 por 24,3 centímetros — integra esse contexto de produção. Em janeiro de 1961, cerca de quarenta peças foram apresentadas em Torres, na Sociedade Amigos de Torres, sob promoção da Associação Francisco Lisboa; a documentação dessa produção inclui imagens de Iberê e Prado no ateliê da ceramista.

Quando Prado deixou Porto Alegre, no início da década de 1960, Iberê retomou as experiências cerâmicas com a assistência de Marianita Linck. Décadas depois, a contribuição das duas ceramistas tornou-se um dos eixos da exposição Iberê Camargo – O Fio de Ariadne, que investigou a rede de mulheres vinculadas à trajetória do artista.

Exposições, salões e homenagens A trajetória expositiva de Prado incluiu salões competitivos, coletivas institucionais e mostras individuais no Brasil, no Uruguai e no Chile. Entre os eventos documentados estão: AnoEventoLocal e observações1953IV Salão do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do SulParticipação premiada com medalha de prata.1960Festival de Artes Plásticas ContemporâneasPorto Alegre; realizado pela Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, com apoio do Museu de Arte Moderna de São Paulo.1961Exposição de pinturas de Iberê Camargo sobre porcelanaSociedade Amigos de Torres, em Torres; Prado prestou acompanhamento técnico à produção apresentada.1961Arte Rio-Grandense do Passado ao PresenteMuseu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.Década de 1960Exposições individuais e salõesMontevidéu e Santiago; as fontes registram individuais e prêmios, mas não fornecem datas e títulos de todos os eventos.1998Salão de CerâmicaHomenagem concedida pela Associação de Ceramistas do Rio Grande do Sul.1999Exposição individual em homenagem a Luiza PradoGaleria Arte&Fato.2007Caminhos da CerâmicaExposição póstuma do acervo do MARGS, na Galeria João Fahrion, com trabalhos de Prado, Hilda Goltz, Nilton Maia, Vasco Prado e Wilbur Olmedo.2013A Bela Morte: Confrontos com a Natureza-Morta no Século XXIExposição coletiva de acervo do MARGS que incluiu obra de Prado.2020–2021Iberê Camargo – O Fio de AriadneFundação Iberê, Porto Alegre; exposição com curadoria de Denise Mattar e Gustavo Possamai.

Acervos e reconhecimento póstumo O principal registro público de uma obra autoral de Luiza Prado é Vaso (nº 1), incorporado ao acervo artístico do MARGS em 1957. A peça foi reapresentada em mostras dedicadas à coleção do museu e à história da cerâmica no Rio Grande do Sul. Em Caminhos da Cerâmica, realizada de 13 de fevereiro a 25 de março de 2007, sua obra integrou um conjunto de treze trabalhos de cinco artistas na Galeria João Fahrion. A mostra situou Prado entre autores históricos empregados pelo museu para reconstruir o desenvolvimento da cerâmica artística gaúcha. Em 2013, seu nome também apareceu entre os artistas de A Bela Morte, exposição que estabeleceu relações entre obras do acervo e o gênero da natureza-morta.

A revisão contemporânea de sua contribuição ganhou novo alcance com Iberê Camargo – O Fio de Ariadne, aberta em 19 de setembro de 2020 e encerrada em 28 de fevereiro de 2021. A exposição reuniu 37 cerâmicas, sete tapeçarias de grandes dimensões, cartões pintados e gravuras de Iberê. O projeto curatorial apresentou Luiza Prado ao lado de Marianita Linck e de outras mulheres que participaram de diferentes etapas da produção e da vida intelectual do pintor, destacando o conhecimento especializado que sustentou suas experiências em porcelana.

Além das peças expostas, a Fundação Iberê preserva fotografias de Prado e Iberê trabalhando no ateliê da ceramista em 1961 e documentação sobre a apresentação das porcelanas em Torres. Esses registros permitem reconhecer sua atuação não apenas como assistência de oficina, mas como mediação técnica indispensável a um processo no qual composição de pigmentos, aplicação do esmalte e condições de queima determinavam o resultado final.

As homenagens recebidas em 1998 e 1999, ainda em vida, e as exposições póstumas promovidas pelo MARGS e pela Fundação Iberê demonstram a permanência de seu nome na memória da cerâmica e das artes visuais do Rio Grande do Sul.

Ver também

Cerâmica no Brasil Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli Iberê Camargo

Referências

Ligações externas

Categoria:Ceramistas do Brasil