As Guerras Sacrílegas (, lit. "Guerra do Sacrilégio") foram uma série de conflitos travados na Arábia pré-islâmica no final do , principalmente entre duas grandes coalizões tribais: de um lado, os coraixitas e quinanaítas e, do outro, os caicitas, com exceção dos gatafanitas. Entre estes últimos participaram grupos como os hauazinitas, taquifitas, amiritas e soleimitas. Receberam sua denominação por terem sido travadas durante os meses sagrados, nos quais eram tradicionalmente proibidos os atos de hostilidade e o derramamento de sangue.

As fontes divergem quanto à divisão e enumeração das guerras. Os três primeiros confrontos foram episódios de menor escala, tratados ora conjuntamente como uma primeira guerra, ora como três guerras distintas. O principal conflito foi desencadeado pelo assassinato do chefe amirita por , um quinanaíta, quando Urua protegia uma caravana do rei lácmida destinada à feira de Ucaz. O episódio provocou uma guerra de vingança que envolveu as coalizões lideradas pelos coraixitas e quinanaítas e pelos caicitas e se prolongou por quatro anos, com combates em lugares como Nacla, Xameta, Ucaz e Alhuraira.

As causas mais amplas das Guerras Sacrílegas são discutidas pela historiografia. Uma interpretação relaciona-as à crescente importância comercial de Meca e à competição pelo controle das rotas e receitas do comércio no Négede, particularmente das ligações entre Hira, Taife e o Iêmem; Fück considera que os coraixitas emergiram do conflito numa posição predominante. Ella Landau-Tasseron, por outro lado, questionou a primazia dessa explicação econômica e enfatizou a complexa rede de alianças tribais, relações de proteção e vinganças de sangue que levou os diferentes grupos ao conflito.

Etimologia

A denominação árabe Fijār () deriva de um termo associado aos sentidos de "desviar-se", "afastar-se do que é correto", "mergulhar no pecado" e faltar à verdade em juramentos ou compromissos. As guerras receberam essa designação por terem sido travadas durante os meses sagrados — dulcada, dulrija, moarrão e rajabe —, período no qual eram tradicionalmente proibidos os atos de hostilidade e o derramamento de sangue. Fijār não constitui, nesse emprego, um plural de "guerra", mas designa a transgressão ou sacrilégio associado à violação desses meses. Por essa razão, os conflitos ficaram conhecidos como Guerras Sacrílegas (), enquanto seus episódios são também referidos nas fontes como Dias Sacrílegos (; ). Aljaiz registra uma definição mais restrita, segundo a qual a designação Fijār era aplicada aos combates ocorridos em Meca durante os meses sagrados.

Contexto

As Guerras Sacrílegas envolveram duas grandes coalizões tribais que incluíam habitantes de Meca e Taife. De um lado estavam os caicitas, com exceção dos gatafanitas, e, do outro, os coraixitas e quinanaítas. Entre as tribos caicitas que participaram dos confrontos encontravam-se os hauazinitas, taquifitas, amiritas e soleimitas. O principal conflito teria sido desencadeado por uma disputa relacionada a uma caravana do rei lácmida de Hira, , destinada à feira anual de Ucaz, no Hejaz. Anumane encarregou , dos amiritas, de conduzir e proteger a caravana. , um quinanaíta que havia sido expulso de sua tribo e era reputado negativamente entre os quinanaítas segundo a tradição preservada pela TDV, também havia procurado obter a incumbência. Urua, que frequentava a corte do rei, ridicularizou Albarrade por sua condição de proscrito e convenceu Anumane a escolhê-lo. Segundo outra versão do episódio, Albarrade, ao saber da nomeação de Urua, perguntou-lhe se seria capaz de proteger a caravana inclusive contra os quinanaítas, ao que Urua teria respondido que poderia defendê-la contra qualquer tribo ou indivíduo.

Albarrade seguiu Urua e, aproveitando uma oportunidade durante a viagem, matou-o. Em seguida, apoderou-se das mercadorias transportadas pela caravana. O assassinato assumiu particular gravidade por ter ocorrido durante os meses sagrados, período no qual os árabes tradicionalmente se abstinham de combater. Segundo a TDV, depois do homicídio Albarrade comunicou o ocorrido a Harbe ibne Omaia, uma das principais figuras dos coraixitas e seu aliado, que reuniu os coraixitas e os advertiu para a possibilidade de uma guerra de vingança. Do lado adversário, , identificado nas fontes como Abu Bará Amir ibne Maleque, principal chefe dos amiritas e de sua tribo-mãe, os hauazinitas, mobilizou seus homens e iniciou a perseguição a Albarrade. A configuração das alianças, contudo, era mais complexa que uma simples oposição entre os dois blocos. Embora Harbe fosse aliado de Albarrade, os coraixitas mantinham relações estreitas com os quilabitas, ramo dos amiritas ao qual pertenciam Urua e Abu Bará. Os quilabitas e os cabitas, outro ramo dos amiritas, integravam os , associação de caráter socioeconômico e religioso que incluía os coraixitas e outras tribos vinculadas ao harame, a área ao redor de Meca considerada inviolável pelos árabes. Embora quilabitas e cabitas não habitassem o harame, sua participação na associação decorria de sua ascendência materna coraixita.

Conflito

As fontes divergem na maneira de dividir e enumerar as Guerras Sacrílegas. Os três primeiros confrontos, de menor escala, são agrupados por algumas fontes como uma primeira guerra, enquanto outras os contam como três guerras distintas. Segundo a tradição apresentada pela TDV, o primeiro desses episódios ocorreu durante a feira de Ucaz, quando Badre ibne Maxar, dos , teria se proclamado o mais honrado dos árabes e desafiado qualquer pessoa que reivindicasse posição superior a golpeá-lo na perna com uma espada. Amar ibne Mazine, dos ou, segundo outra versão, dos naceritas (), respondeu ao desafio ferindo-o, mas o confronto terminou antes de assumir maiores proporções. O segundo episódio teria começado depois que alguns jovens quinanaítas atacaram uma mulher dos amiritas durante a feira de Ucaz, enquanto o terceiro, também travado entre quinanaítas e hauazinitas, teria resultado da recusa de um quinanaíta em reconhecer uma dívida que possuía com um homem dos naceritas. O mais importante dos conflitos começou com o assassinato de Urua Arraal por Albarrade e estendeu-se por quatro anos. Quando a notícia da morte de Urua chegou a Ucaz, Harbe ibne Omaia encontrava-se na feira com outros chefes coraixitas. Percebendo que os amiritas buscariam vingança, coraixitas e quinanaítas partiram em direção a Meca. O chefe taimita teria fornecido armaduras a cem coraixitas. Os hauazinitas perseguiram os coraixitas e quinanaítas e os alcançaram nas proximidades de Meca, atacando-os em Nacla, episódio conhecido como . Ao cair da noite, coraixitas e quinanaítas conseguiram refugiar-se no harame, e os quilabitas interromperam a perseguição por receio de violar a santidade do território. A participação de e dos quilabitas nas Guerras Sacrílegas ficou restrita ao Dia de Nacla. Esse confronto é geralmente contado como o primeiro dia de batalha da segunda Guerra Sacrílega, mas outra tradição o acrescenta aos três episódios anteriores como o quarto dia da primeira guerra.

Depois desse primeiro confronto, os dois lados prepararam-se para uma guerra de maiores proporções. Segundo a TDV, Harbe ibne Omaia foi escolhido comandante-em-chefe dos coraixitas e quinanaítas. Abu Talibe, chefe dos haxemitas, teria inicialmente se recusado a permitir a participação de seu clã por considerar impróprio combater durante os meses sagrados. Abedalá ibne Judane e Harbe teriam então declarado que não participariam da guerra caso os haxemitas permanecessem afastados, levando estes a integrar a coalizão sob o comando de Azobair ibne Abede Almotalibe. No ano seguinte, as forças adversárias voltaram a se enfrentar em Xameta ou Xameza, nas proximidades de Ucaz, no confronto conhecido como . As coalizões eram essencialmente as mesmas, mas os amiritas não contaram nessa ocasião com os ramos dos cabitas e quilabitas. Os hauazinitas saíram vitoriosos. Os combates recomeçaram no terceiro ano, novamente em Ucaz, e resultaram em nova vitória dos hauazinitas no episódio conhecido como . No quarto ano ocorreu inicialmente um confronto conhecido como ou , no qual coraixitas e quinanaítas obtiveram a vitória. Seguiu-se o , assim chamado por ter ocorrido numa harra próxima de Ucaz, no qual os hauazinitas voltaram a vencer. Depois disso ocorreram apenas algumas escaramuças antes do restabelecimento da paz. A TDV apresenta uma classificação parcialmente diferente, agrupando Xameta, Alablá, Ucaz e Alhuraira como quatro confrontos denominados coletivamente Ayyām al-Fijār al-Thānī, também travados ao longo de quatro anos.

As tradições divergem também sobre a participação de Maomé nos combates. Sua presença nas Guerras Sacrílegas é geralmente mencionada pelas fontes, mas sua idade e a natureza de sua participação variam consideravelmente nos relatos. Fück registra estimativas entre catorze e 28 anos e observa que algumas tradições lhe atribuem participação efetiva nos combates, chegando uma delas a associá-lo ao Dia de Xameta, enquanto outras afirmam que apenas fornecia flechas a seus tios. O mesmo autor assinala que especialistas nos Dias dos Árabes sustentavam que, entre os tios de Maomé, somente Azobair teria participado da guerra. A TDV registra idades de catorze, quinze, dezessete ou vinte anos. Segundo uma das versões por ela reunidas, Maomé não teria combatido, limitando-se a guardar os pertences dos tios e a recolher com um escudo as flechas lançadas pelo inimigo para entregá-las a eles; outra tradição afirma que teria disparado flechas durante a guerra e posteriormente declarado não se arrepender de sua participação. As fontes também divergem em certos aspectos do encerramento das hostilidades. Segundo a TDV, os caicitas obtiveram vantagem inicialmente num dos principais confrontos, mas coraixitas e quinanaítas terminaram o dia vitoriosos. Posteriormente, por iniciativa de Oteba ibne Rabia, teria sido alcançado um acordo entre os adversários. Como as perdas caicitas haviam sido maiores, coraixitas e quinanaítas teriam pago o preço de sangue correspondente à diferença entre os mortos dos dois lados, e o tratado teria estipulado que os nomes de Urua e Albarrade não voltassem a ser mencionados. Segundo Fück, depois do Dia de Alhuraira ocorreram apenas algumas escaramuças antes de a paz ser definitivamente restabelecida. O mesmo autor registra que numerosos poemas teriam sido compostos a respeito das Guerras Sacrílegas, embora apenas alguns versos tenham sido preservados.

Interpretações

As causas subjacentes às Guerras Sacrílegas são objeto de diferentes interpretações. Fück atribuiu importância central à disputa pelo controle das rotas comerciais do Négede e dos rendimentos proporcionados pelo comércio. Segundo sua análise, os coraixitas desempenharam papel dirigente na coalizão, fornecendo armas aos seus aliados e arcando com as despesas da guerra. Entre seus adversários, os taquifitas e os naceritas teriam oferecido a resistência mais forte, mas acabaram cedendo depois de anos de conflito, do qual os coraixitas teriam emergido vitoriosos. Essa interpretação econômica foi relacionada por outros estudiosos à conjuntura em que o Reino Lácmida de Hira entrava em declínio enquanto Meca adquiria importância crescente. Nesse contexto, as guerras foram interpretadas como uma disputa pelo controle da rota comercial entre Hira, Taife e o Iêmem, com os coraixitas procurando impedir o trânsito por Taife, cidade comercialmente concorrente de Meca, ou redirecioná-lo através desta última.