Cyphocharax ivo é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, descrita em 2025 a partir de exemplares coletados no rio Mapaoni, um afluente do alto rio Jari, no estado do Amapá. Seu nome específico homenageia Ivo Silva dos Santos, técnico do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá. A espécie pertence ao gênero Cyphocharax, o mais diverso dos curimatídeos, embora as relações evolutivas dentro desse grupo permaneçam incompletamente compreendidas. Entre seus principais caracteres distintivos destaca-se um padrão de pigmentação único, formado por uma faixa longitudinal escura, reta e contínua, que se estende do focinho até a base da nadadeira caudal e se alinha a manchas escuras presentes na região pós-orbital e no focinho.

De pequeno porte, alcançando pouco mais de cinco centímetros de comprimento padrão, C. ivo apresenta corpo relativamente alto e comprimido lateralmente, perfil dorsal quase reto e coloração geral castanho-amarelada clara. Em exemplares preservados, a faixa longitudinal escura constitui o elemento mais conspícuo da coloração, diferindo dos padrões observados em outros representantes do gênero. A espécie é conhecida apenas por três exemplares coletados em uma única localidade, o que a torna uma das formas mais raras e menos conhecidas de Cyphocharax.

A espécie é endêmica do Brasil e conhecida exclusivamente do rio Mapaoni, no interior do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, uma extensa unidade de conservação situada no extremo norte da Amazônia, próxima às fronteiras com o Suriname e a Guiana Francesa. O local de ocorrência encontra-se na porção oriental do Escudo das Guianas, a cerca de 292 metros de altitude. Pouco se sabe sobre sua biologia, não existindo informações específicas sobre alimentação, reprodução, comportamento ou abundância populacional. Cyphocharax ivo ainda não foi avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), embora sua ocorrência em uma região remota e protegida sugira que suas populações estejam associadas a ambientes relativamente preservados.

Etimologia

O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico ivo homenageia Ivo Silva dos Santos, assistente técnico do Laboratório de Ictiologia do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA), em reconhecimento à sua atuação em trabalhos de campo e à contribuição para o desenvolvimento de pesquisas sobre os peixes do estado do Amapá.

Taxonomia

Cyphocharax ivo é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2025 por Bruno F. Melo, Cecile S. Gama e Mark H. Sabaj a partir de exemplares coletados no rio Mapaoni, um afluente do alto rio Jari, no estado do Amapá. À época de sua descrição, Cyphocharax compreendia 48 espécies válidas distribuídas desde a vertente do Pacífico da Costa Rica até as drenagens atlânticas do centro da Argentina, constituindo o gênero mais diverso da família. Apesar dessa diversidade, o gênero não possui sinapomorfias inequívocas que sustentem sua monofilia e análises filogenéticas recentes indicam que ele é parafilético em relação a espécies atualmente classificadas em Curimatella e Steindachnerina. O holótipo, catalogado como IEPA 4825, mede 52,1 milímetros de comprimento padrão e foi coletado em 12 de janeiro de 2005 no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no norte do Amapá. Os parátipos compreendem dois exemplares adicionais, medindo entre 37,1 e 50,6 milímetros de comprimento padrão, provenientes da mesma localidade. Embora os autores tenham comparado a nova espécie com dezenas de congêneres, não foi possível propor hipóteses robustas sobre suas relações filogenéticas devido à ausência de material adequado para análises moleculares e ao caráter singular de sua morfologia externa, especialmente do padrão de coloração. A espécie distingue-se de todos os demais representantes do gênero pela presença de uma faixa longitudinal escura única, reta e contínua, que se estende do focinho até a base da nadadeira caudal. Essa faixa acompanha a série da linha lateral ao longo de praticamente todo o corpo e encontra-se alinhada com uma mancha escura pós-orbital e outra situada no focinho, formando um padrão de pigmentação sem paralelo conhecido entre os curimatídeos. Os autores ressaltaram que essa característica dificulta o reconhecimento de afinidades morfológicas com outras espécies de Cyphocharax, tornando C. ivo uma das formas mais peculiares atualmente conhecidas no gênero.

Diagnose

Cyphocharax ivo distingue-se prontamente de todos os seus congêneres pela presença de uma única faixa longitudinal escura, reta e contínua, que se estende do focinho até a base da nadadeira caudal. A faixa permanece praticamente confinada à série de escamas da linha lateral desde a região do supracleitro até a vertical que passa pela inserção posterior da nadadeira adiposa, apresentando intensidade relativamente uniforme ao longo do corpo. Anteriormente, ela encontra-se alinhada a uma mancha pós-orbital escura e a uma área pigmentada situada no focinho abaixo das narinas, formando um padrão de coloração único entre as espécies conhecidas do gênero. Entre as espécies que também apresentam uma faixa longitudinal escura única, C. ivo difere de C. signatus por não possuir mancha losangular escura no pedúnculo caudal, por apresentar 32 escamas perfuradas na linha lateral, em vez de 27, por possuir 15 a 16 raios peitorais totais, em vez de 10 a 12, e por apresentar nadadeira anal proporcionalmente mais curta. Distingue-se de C. corumbae porque a faixa longitudinal termina na base da nadadeira caudal, em vez de prolongar-se pela própria nadadeira, além de possuir menos escamas na linha lateral e menor número de vértebras totais.

Descrição

Cyphocharax ivo apresenta corpo relativamente alto e comprimido lateralmente, com altura máxima correspondendo a aproximadamente 34,2–35,9% do comprimento padrão. O perfil dorsal da cabeça e do tronco é quase reto desde a região das narinas até a origem da nadadeira dorsal, apresentando apenas uma leve concavidade na região occipital. Posteriormente, o perfil dorsal mantém-se praticamente reto até a região da nadadeira adiposa, tornando-se suavemente côncavo em direção ao pedúnculo caudal. O perfil ventral é discretamente côncavo abaixo do olho, tornando-se amplamente convexo ao longo do abdômen e novamente levemente côncavo na região posterior do corpo. A região pré-pélvica apresenta leve achatamento transversal, enquanto a porção posterior do corpo é transversalmente arredondada. A cabeça corresponde a aproximadamente 27,2–29,9% do comprimento padrão. O focinho é rombo e arredondado, a boca é subterminal e a mandíbula inferior é mais curta que a superior. As narinas são separadas entre si, sendo a anterior circular ou ovalada e a posterior alongada verticalmente. O complexo bucofaríngeo é formado por três pregas longitudinais delgadas. A pálpebra adiposa encontra-se apenas discretamente desenvolvida nas regiões anterior e posterior do olho. O comprimento do focinho corresponde a cerca de 28,7–31,8% do comprimento da cabeça, o diâmetro orbital a 40,3–42,1%, o comprimento pós-orbital a 32,2–35,3% e a largura interorbital a 40,3–42,6%.

A linha lateral é completa e composta por 32 escamas perfuradas entre o supracleitro e a articulação hipural, seguidas por duas escamas adicionais sobre a base da nadadeira caudal. Existem 5½ séries de escamas entre a origem da dorsal e a linha lateral, 4½–5 séries entre a linha lateral e a origem da anal, uma série entre o ânus e a nadadeira anal, 10–11 escamas predorsais e 16 escamas circumpedunculares. A espécie possui 31 vértebras totais, das quais 19 são pré-caudais e 12 caudais. A nadadeira dorsal apresenta três raios simples e nove ramificados (iii,9), enquanto a anal possui três raios simples e sete ramificados (iii,7). As nadadeiras peitorais apresentam um raio simples e 14–15 ramificados, e as pélvicas um raio simples e oito ramificados. A nadadeira caudal é profundamente bifurcada e a adiposa é bem desenvolvida, com formato ovalado. A extremidade da peitoral comprimida contra o corpo permanece cerca de quatro escamas antes da origem da pélvica; a pélvica, por sua vez, termina aproximadamente quatro escamas antes da origem da anal; e a anal alcança uma posição cerca de duas escamas antes do primeiro raio principal ventral da caudal.

Em exemplares preservados, Cyphocharax ivo apresenta coloração geral castanho-amarelada clara. Partes da bochecha e do opérculo mantêm brilho prateado decorrente da presença residual de guanina, embora esse aspecto esteja ausente na maior parte do corpo em razão da preservação em formalina. O padrão mais conspícuo consiste em uma faixa longitudinal escura contínua que se estende desde a região ocular até a base da nadadeira caudal. Essa faixa é formada por concentrações de cromatóforos superficiais e profundos, mantendo largura e intensidade relativamente uniformes ao longo do corpo, embora apresente discreta expansão e atenuação na região do pedúnculo caudal. A faixa longitudinal conecta-se anteriormente a uma mancha escura pós-orbital e a uma área pigmentada situada no focinho, abaixo das narinas. As escamas acima da faixa apresentam pigmentação marginal muito discreta, enquanto as situadas abaixo possuem cromatóforos dispersos. Diferentemente do observado em diversas espécies do gênero, a faixa não forma uma mancha definida no pedúnculo caudal nem se prolonga significativamente pela nadadeira caudal. As nadadeiras pares, a anal e a adiposa são pálidas, ao passo que a dorsal apresenta leve escurecimento decorrente da presença de cromatóforos dispersos nos raios anteriores e ao longo dos raios ramificados, com a extremidade distal ligeiramente mais escura.

Distribuição e habitat

Cyphocharax ivo é endêmica do Brasil e conhecida exclusivamente do rio Mapaoni, um afluente do Alto Jari, no estado do Amapá. A localidade-tipo situa-se no interior do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, uma vasta unidade de conservação localizada no extremo norte da Amazônia, próxima às fronteiras do Brasil com o Suriname e a Guiana Francesa. O rio Mapaoni integra a drenagem do alto Jari, pertencente à porção oriental do Escudo das Guianas, cujas águas deságuam posteriormente no baixo rio Amazonas. Todos os exemplares conhecidos foram coletados em uma única localidade situada a aproximadamente 292 metros de altitude. Os autores não forneceram informações detalhadas sobre as características físicas do ambiente ou parâmetros limnológicos do local de coleta, mas destacaram que a região se encontra em uma área remota e relativamente preservada do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque. Até o momento, não existem registros da espécie em outras drenagens ou localidades da bacia amazônica.

Ecologia

As informações disponíveis sobre a ecologia de Cyphocharax ivo são extremamente limitadas. A espécie é conhecida apenas por três exemplares coletados em uma única expedição realizada em 2005 no rio Mapaoni, afluente do alto rio Jari. Não existem dados específicos sobre alimentação, reprodução, comportamento, estrutura populacional, deslocamentos sazonais ou interações ecológicas. Embora os curimatídeos sejam geralmente detritívoros e consumam matéria orgânica associada ao substrato, essa característica não foi diretamente observada em C. ivo. A ausência de amostras adicionais e de material para análises moleculares também limita o conhecimento sobre sua biologia, abundância e relações evolutivas com outras espécies do gênero.

Conservação