Cyphocharax biocellatus é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, descrita em 2012 a partir de exemplares coletados no leste do Suriname e oeste da Guiana Francesa. Pertence ao gênero Cyphocharax, o mais diverso da família, embora as relações filogenéticas dentro desse grupo permaneçam parcialmente incertas. Seu nome específico faz referência às duas manchas escuras características presentes na lateral do corpo, uma situada abaixo da nadadeira dorsal e outra na região posterior do pedúnculo caudal, padrão de coloração que distingue a espécie de todos os seus congêneres conhecidos.
De pequeno porte, alcançando pouco mais de sete centímetros de comprimento padrão, C. biocellatus apresenta corpo moderadamente alongado e comprimido lateralmente, boca terminal, linha lateral completa com 29 a 31 escamas perfuradas e 31 ou 32 vértebras. A coloração geral varia do castanho-claro ao castanho-escuro, com brilho prateado produzido pela deposição de guanina e um discreto padrão reticulado formado pelas margens pigmentadas das escamas. Em vida, possui íris prateada e nadadeiras dorsal e caudal com tonalidade amarelada. A espécie habita pequenos rios e tributários de correnteza moderada a rápida, associados a corredeiras, substratos arenosos e rochosos e vegetação ripária típica das drenagens do Escudo das Guianas.
A distribuição conhecida de C. biocellatus está restrita às bacias dos rios Marowijne–Maroni, Mana e Apruague, na porção oriental do Escudo das Guianas. Pouco se sabe sobre sua biologia, embora seja considerada uma espécie epibentônica, herbívora e detritívora. Em razão de sua distribuição relativamente limitada, baixa abundância conhecida e dos impactos causados pela mineração sobre os ambientes aquáticos da região, a espécie foi classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como quase ameaçada (NT). As principais ameaças identificadas incluem a degradação do hábitat associada à exploração mineral, o desmatamento, a erosão, a poluição por metais pesados e, potencialmente, a coleta para o comércio aquarista especializado.
Etimologia
O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico biocellatus deriva do latim bi, que significa "dois", e ocellatus, que significa "dotado de pequenos olhos" ou "ocelado". O nome faz referência às duas manchas escuras presentes na lateral do corpo da espécie, uma situada abaixo da nadadeira dorsal e outra na região do pedúnculo caudal.
Taxonomia
Cyphocharax biocellatus é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2012 por Richard P. Vari, Brian L. Sidlauskas e Pierre-Yves Le Bail a partir de exemplares coletados no Suriname e na Guiana Francesa. O holótipo, catalogado como ANSP 189146, mede 62,8 milímetros de comprimento padrão e foi coletado no Litani, próximo à confluência com o , no leste do Suriname. Os parátipos procedem do rio Oelemari, também no Suriname, e da bacia do rio Mana, na Guiana Francesa. À época de sua descrição, Cyphocharax compreendia 35 espécies válidas e constituía o gênero mais diverso dos curimatídeos. Os autores ressaltaram que o gênero não possui sinapomorfias exclusivas que sustentem sua monofilia, sendo delimitado principalmente pela ausência das características diagnósticas que definem os gêneros aparentados Curimatella, Pseudocurimata e Steindachnerina. Embora as relações filogenéticas da nova espécie permaneçam incertas, sua inclusão em Cyphocharax foi considerada a hipótese taxonômica mais consistente diante das evidências morfológicas disponíveis. A espécie distingue-se de todos os seus congêneres pela combinação de duas manchas escuras laterais características: uma situada abaixo da nadadeira dorsal e outra localizada na região posterior do pedúnculo caudal, estendendo-se até a base dos raios medianos da nadadeira caudal. Essa combinação de marcas pigmentares não ocorre em nenhuma outra espécie conhecida do gênero. A descrição de C. biocellatus elevou para quatorze o número de espécies de Cyphocharax registradas no Escudo das Guianas, uma das regiões de maior diversidade de curimatídeos da América do Sul.
Diagnose
Cyphocharax biocellatus distingue-se de todos os demais representantes do gênero pela presença de duas manchas escuras na superfície lateral do corpo. A primeira localiza-se abaixo da nadadeira dorsal e varia desde uma concentração difusa de cromatóforos em indivíduos menores até uma mancha negra bem definida nos exemplares maiores. A segunda situa-se na região posterior do pedúnculo caudal e estende-se sobre as escamas que recobrem a base dos raios medianos da nadadeira caudal. Essa combinação de manchas é exclusiva da espécie entre os representantes conhecidos de Cyphocharax. A espécie diferencia-se ainda de C. punctatus e C. vanderi, que apresentam três a seis manchas laterais ao longo do corpo, e de C. pantostictos, que possui uma série de pequenas manchas distribuídas sobre as escamas da linha lateral. Também pode ser distinguida de diversas espécies do gênero, incluindo C. stilbolepis, pela presença da mancha caudal escura e pela combinação de características merísticas, como 29 a 31 escamas perfuradas na linha lateral e 31 ou 32 vértebras totais.
Descrição
Cyphocharax biocellatus apresenta corpo moderadamente alongado e comprimido lateralmente, com o alongamento tornando-se mais evidente nos indivíduos maiores. A altura máxima do corpo corresponde a aproximadamente 32,3–33,9% do comprimento padrão. O perfil dorsal da cabeça é convexo desde o lábio superior até uma posição ligeiramente posterior às narinas anteriores, tornando-se reto até a extremidade posterior do supraoccipital. O perfil dorsal do corpo é levemente convexo até a origem da nadadeira dorsal e posteriormente reto ou discretamente convexo até a nadadeira adiposa. Ventralmente, o corpo é levemente convexo até a inserção das nadadeiras pélvicas e quase reto ao longo da região abdominal posterior. A cabeça corresponde a aproximadamente 25,4–28,2% do comprimento padrão. O focinho é pontudo, porém arredondado anteriormente, e a boca é praticamente terminal, com a maxila superior ligeiramente mais longa que a inferior. As narinas são muito próximas entre si, sendo a anterior circular e a posterior em forma de crescente. A pálpebra adiposa é moderadamente desenvolvida e estende-se posteriormente sobre a porção anterodorsal do opérculo. O comprimento do focinho corresponde a 29,4–33,3% do comprimento da cabeça, o diâmetro orbital a 36,6–38,8%, o comprimento pós-orbital a 36,7–38,3% e a largura interorbital a 37,8–41,4%.
A linha lateral é completa, com 29–31 escamas perfuradas entre o supracleitro e a articulação hipural, seguidas por três escamas perfuradas adicionais na base da nadadeira caudal. Existem cinco séries de escamas entre a origem da nadadeira dorsal e a linha lateral, quatro ou cinco séries entre a linha lateral e a origem da nadadeira anal, uma série entre o ânus e a nadadeira anal e 10–13 escamas na série mediana predorsal. A espécie possui 31 ou 32 vértebras totais. A nadadeira dorsal apresenta três raios simples e nove ramificados (iii,9), enquanto a anal possui três raios simples e sete ramificados (iii,7). As nadadeiras pélvicas apresentam um raio simples e oito ou nove ramificados, e as peitorais possuem 13 ou 14 raios. A nadadeira caudal é profundamente bifurcada e a adiposa é bem desenvolvida. A extremidade da nadadeira peitoral comprimida contra o corpo termina cerca de duas escamas antes da origem da pélvica, enquanto a pélvica alcança o ânus nos maiores exemplares examinados.
Em exemplares preservados, Cyphocharax biocellatus apresenta coloração geral castanho-clara a castanho-escura. A característica mais marcante consiste em duas manchas escuras laterais. A primeira localiza-se abaixo da porção anterior da nadadeira dorsal e apresenta formato ovalado verticalmente. A segunda situa-se na porção posterior do pedúnculo caudal, prolongando-se sobre a base dos raios medianos da nadadeira caudal. Nos indivíduos menores essas manchas podem aparecer como concentrações difusas de cromatóforos, tornando-se progressivamente mais evidentes nos exemplares maiores. Uma faixa lateral escura profunda estende-se ao longo do corpo, embora seja parcialmente mascarada pela deposição de guanina. As margens posteriores das escamas apresentam cromatóforos que produzem um padrão reticulado discreto, especialmente na região dorsolateral do corpo. As nadadeiras dorsal, peitoral e pélvica possuem cromatóforos dispersos, enquanto a adiposa apresenta pontuações escuras mais evidentes. Em vida, a espécie possui coloração geral castanho-clara, brilho prateado intenso nas escamas e na cabeça, íris prateada e nadadeiras dorsal e caudal com tonalidade amarelada.
Distribuição e habitat
Cyphocharax biocellatus ocorre no leste do Suriname e oeste da Guiana Francesa, onde é conhecida nas bacias dos rios Marowijne–Maroni, Litani, Oelemari e Mana. Sua distribuição está restrita às drenagens do Escudo das Guianas, uma das regiões de maior diversidade de curimatídeos da América do Sul. O holótipo foi capturado em um canal secundário do rio Litani que isolava uma pequena ilha florestada. A porção superior desse canal apresentava corredeiras rasas sobre substrato rochoso com matacões e seixos, enquanto a parte inferior era formada por um remanso arenoso pouco profundo. As margens possuíam áreas de águas calmas com vegetação submersa e cobertura proporcionada pela vegetação ripária. O exemplar proveniente da bacia do rio Mana foi coletado em um tributário raso, com cerca de dez metros de largura e correnteza relativamente rápida, sobre substrato predominantemente arenoso com barras rochosas e troncos submersos.
Ecologia
Pouco se conhece sobre a biologia e a ecologia de Cyphocharax biocellatus. Os exemplares disponíveis foram obtidos em ambientes de pequeno porte associados a corredeiras, canais secundários e trechos rasos de rios do Escudo das Guianas. Os autores observaram que o holótipo foi o único representante da família dos curimatídeos capturado após três dias de coleta em sua localidade de origem, situação semelhante à observada para o exemplar proveniente da bacia do rio Mana, que também constituiu o único curimatídeo registrado naquele ponto de amostragem. Esses registros sugerem que os locais de coleta possam representar habitats marginais para a espécie. Não existem informações publicadas sobre alimentação, reprodução, comportamento, estrutura populacional ou uso de hábitat ao longo do ciclo de vida.
Conservação