Os Tarumãs (historicamente denominados também como Taromas) foram um grupo indígena de destacada importância no processo inicial de ocupação colonial do Rio Negro. A trajetória histórica da etnia foi marcada por contatos com jesuítas, mercedários e carmelitas, forte resistência à escravidão promovida pelos portugueses e uma posterior migração em massa rumo à Guiana.
Primeiros Contatos e as Missões (Século XVII) Os primeiros registros históricos sobre os Tarumãs datam de 1657, quando uma expedição de resgate portuguesa chefiada pelo cabo Vital Maciel Parente e acompanhada pelos padres jesuítas Francisco Veloso e Manuel Pires adentrou o Rio Negro. Os jesuítas iniciaram a catequese fundando uma missão de curtíssima duração, que acabou temporariamente abandonada em 1661 devido à expulsão da ordem religiosa do Estado do Maranhão e Grão-Pará.Santos, Francisco Jorge dos (2012). Nos confins ocidentais da Amazônia portuguesa: mando metropolitano e prática do poder régio na Capitania do Rio Negro no século XVIII (Tese de Doutorado). Manaus: Universidade Federal do Amazonas.
Em 1668, o capitão Pedro da Costa Favela, guiado pelos índios Aroquis (ou Aruaques), alcançou novamente a barra do Rio Negro, onde foi acolhido amigavelmente pelos Tarumãs.Amazonas, Lourenço da Silva Araújo e (1852). Diccionario topographico, historico, descriptivo da Comarca do Alto-Amazonas. Recife: Typ. de Meira Henriques. Sob a coordenação do frei mercedário Teodósio da Veiga, foi estabelecida a Missão de Aruim na foz do Rio Negro, reunindo Tarumãs e Aruaques.Porro, Antonio (2007). Dicionário Etno-Histórico da Amazônia Colonial. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP). Posteriormente, esse aldeamento foi transferido para a foz do rio Jaú, recebendo a denominação de Santo Elias do Jaú. Em 1695, a Ordem dos Carmelitas assumiu a responsabilidade pela missão dos Tarumãs, instituindo Santo Elias como o seu padroeiro.Perdigão, Jordan Lima (2013). Os carmelitas na Amazônia Ocidental: as missões Carmelitas na colonização da Amazônia Portuguesa Ocidental (séculos XVII e XVIII) (Dissertação de Mestrado). Manaus: Universidade Federal do Amazonas.
Relações Comerciais e Alianças Regionais Na geopolítica intertribal do Rio Negro, os Tarumãs eram descritos como inimigos tradicionais das nações Cuchiguara, Ibanoma e Jurimagua. Por outro lado, atuavam como parceiros comerciais dos Caripunas e de outros povos aliados dos franceses estabelecidos na Guiana Francesa.
Durante o século XVIII, as fontes registram que o frei carmelita Jerônimo Coelho, missionário responsável pelo aldeamento dos Tarumãs, utilizava a posição geográfica e as conexões da etnia para comerciar ativamente com os holandeses estabelecidos ao norte, enviando expedições comerciais pelos rios locais para intercâmbio de mercadorias.
Declínio Demográfico e Desaparecimento no Rio Negro Em 1755, os Tarumãs ainda constituíam a ampla maioria dos 800 homens de guerra estabelecidos na primeira povoação colonial do Rio Negro. Contudo, o avanço implacável das expedições de apresamento portuguesas e a eclosão de terríveis epidemias trazidas pelo contato com os colonizadores — com destaque para as devastadoras epidemias de varíola (historicamente chamadas de "bexigas") — provocaram uma rápida e drástica depopulação do grupo.
Por volta do período entre 1768 e 1771, os registros do ouvidor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio e do cronista José Monteiro de Noronha já os apontavam como desaparecidos ou extintos em seu território original na calha do Rio Negro.Noronha, José Monteiro de (2003). Roteiro da viagem da cidade do Pará até as últimas colonias do sertão da Província (1768). Nova edição anotada por Antonio Porro. Manaus: Valer. (Original publicado em 1768). Em 1820, os naturalistas alemães Spix e Martius confirmaram que a nação Tarumã estava extinta na calha principal do rio devido às moléstias, embora alguns poucos descendentes sobreviventes ainda pudessem ser encontrados habitando de forma pluriétnica e dispersa nas vilas de Barcelos, Airão e Manaus.Spix, Johann Baptist von; Martius, Carl Friedrich Philipp von (1867). Reise in Brasilien in den Jahren 1817-1820. Leipzig.
Migração e Sobrevivência na Guiana (Rio Essequibo) Diante da violência do tráfico de escravos indígena promovido pelos portugueses no Rio Negro, a maior parte dos Tarumãs decidiu recuar e migrar em direção ao norte, estabelecendo-se no território do rio Essequibo, então sob controle da Guiana Holandesa. Em 1764, o Diretor-Geral holandês Storm van 's Gravesande registrou oficialmente em seus relatórios coloniais a presença da "numerosa e poderosa tribo chamada Tarouma" habitando as cabeceiras daquela bacia hidrográfica.
A forte e duradoura presença histórica dos Tarumãs na região sul da Guiana deixou marcas profundas na geografia local através de diversos hidrônimos de sua autoria terminados em kidiu (ou kityou), termo que significa "rio" em seu idioma original. Exemplos notáveis incluem: Kassikidiu: "Rio dos Mortos"; Koatjangkityou: "Rio do Quati" (nome Tarumã para o próprio rio Essequibo); Assimarikityou: "Rio da Aimara" (peixe traíra grande). Embora a literatura histórica tradicional tenha apontado a língua tarumã como completamente extinta, investigações e relatos acadêmicos no início do século XXI trouxeram novas evidências sobre a sobrevivência do idioma. Conforme registrado pelo professor Bessa Freire, a linguista Eithne Carlin, da Universidade de Leiden, na Holanda, identificou um grupo remanescente de falantes fluentes de tarumã durante suas pesquisas de campo sobre línguas ameríndias na região das Guianas (Suriname, Guiana Francesa e ex-Guiana Inglesa). A partir dessa descoberta, Carlin iniciou um projeto sistemático de documentação linguística com os últimos falantes da etnia.
A relevância histórica e a antiga extensão territorial do grupo também encontram respaldo na toponímia regional. Mesmo que as áreas de fronteira contemporâneas sejam demograficamente dominadas pelos povos Wapishana e Waiwai, uma parcela significativa dos nomes geográficos na bacia do rio Rupununi possui origem originalmente tarumã, o que evidencia a proeminência histórica e a influência que essa população exerceu na região meridional da Guiana.
Os detalhes sobre a descoberta e as frentes de pesquisa de Eithne Carlin foram divulgados publicamente pelo linguista holandês Willem Adelaar durante o Encontro Internacional de Arqueologia e Linguística Histórica, realizado em Brasília entre os dias 24 e 28 de outubro de 2011. O evento científico, sediado no Memorial Darcy Ribeiro e coordenado pelos proeminentes linguistas brasileiros Aryon Rodrigues e Ana Suely Cabral (sob os auspícios do Laboratório de Línguas Indígenas da UnB e da Pontifícia Universidade Católica do Peru), reuniu especialistas internacionais de diversas áreas — como arqueólogos, antropólogos, historiadores e museólogos — promovendo debates interdisciplinares cruciais para a revisão da história e da sobrevivência de grupos indígenas considerados desaparecidos pela historiografia colonial.
Língua, Identidade e Absorção Final A autodenominação do grupo era Kuase, cujo significado literal é "ser humano". O nome "Tarumã", por sua vez, é considerado um xenônimo (nome dado por outros grupos), possivelmente derivado do termo na língua Wapishana para uma espécie de formiga picadora.
Estudos linguísticos apontam que a língua dos Tarumãs é considerada uma língua isolada e cientificamente inclassificável, não apresentando parentesco ou cognatos com as línguas caribes vizinhas e nem com a língua de seus vizinhos geográficos imediatos, os Wapishana.
Entre 1919 e 1923, o missionário jesuíta Cuthbert Cary-Elwes e o antropólogo americano William Farabee visitaram os Tarumãs e registraram listas de vocábulos e pequenas frases de sua língua. Naquele período, o grupo já se encontrava drasticamente reduzido numericamente, debilitado por doenças e vivendo de forma dispersa entre os povos Waiwai e Wapishana. Por volta de 1925, os Tarumãs deixaram de existir como um grupo social independente, tendo sido completamente assimilados e absorvidos pelas populações Waiwai e Wapishana envolventes.
Referências
Bibliografia LOUKOTKA, Cestmir. Classification of South American Indian Languages. Johannes Wilbert Ed. Los Angeles, University of California, 1968. LOUKOTA, Cestmif. La Langue Taruma. Journal de la Société des Américanistes. 38: 53-65, Paris 1949.
Ver também Forte de São José da Barra do Rio Negro Manaus (povo) Línguas indígenas do Brasil
Categoria:Povos indígenas do Brasil Categoria:Povos nativos da Guiana Categoria:Povos indígenas extintos Categoria:História do Amazonas Categoria:História de Manaus