Grupo de Teatro para Atores Especiais, também conhecido pela sigla GTPAÊ ou pela forma estilizada G.T.P.A.Ê., foi um grupo teatral brasileiro criado em 1997, em Londrina, no Paraná. Formado por atores com deficiência intelectual, surgiu como projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e desenvolveu espetáculos cuja dramaturgia era construída coletivamente a partir das experiências, opiniões e interesses de seus integrantes.
Fundado e coordenado pela psicóloga e professora Solange Leme Ferreira, o grupo esteve inicialmente ligado ao Departamento de Psicologia Social e Institucional da UEL. Além da criação de espetáculos, funcionou como campo de estágio e pesquisa para estudantes de Psicologia, desenvolvendo laboratórios teatrais, oficinas e apresentações em escolas, empresas, universidades, eventos científicos e espaços culturais.
História
O projeto foi criado em 1997 por iniciativa de Solange Leme Ferreira, que havia conhecido, em 1989, uma experiência teatral integrada por pessoas com deficiência intelectual. Esse contato contribuiu para a elaboração de um projeto de extensão que relacionava teatro, expressão pessoal, Psicologia e discussão pública sobre a deficiência. Durante sua fase universitária, o GTPAÊ reunia jovens e adultos com diferentes formas de deficiência intelectual. Os encontros eram realizados semanalmente e incluíam exercícios de interpretação, expressão corporal, improvisação, discussão de temas e elaboração das cenas. O projeto também recebia estudantes do último ano do curso de Psicologia, que participavam como estagiários e monitores do processo criativo. A primeira montagem do grupo foi Circo da Alegria. Dois anos depois, o GTPAÊ já havia produzido seu terceiro espetáculo, Coração Valente, que realizou 46 apresentações e circulou por dezessete cidades do Paraná, de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Em 2008, o grupo era composto por doze atores e estreou sua quinta montagem, Cenas da Vida. O espetáculo reunia diferentes narrativas sobre relações afetivas, preconceito, trabalho, sexualidade, dependência química e convivência social. As personagens, situações e soluções cênicas eram discutidas e escolhidas pelos próprios integrantes. Em setembro de 2010, foi anunciado o encerramento das atividades do GTPAÊ em razão da insuficiência de recursos financeiros. A apresentação então divulgada como despedida ocorreu no Teatro Zaqueu de Melo, em Londrina, com o espetáculo Cenas da Vida. Segundo sua coordenação, os recursos captados por meio da Lei Rouanet não haviam sido suficientes para assegurar a continuidade do grupo.
Após o encerramento do projeto de extensão universitária, foi criada a Associação Arte e Gente com o objetivo de viabilizar a continuidade das oficinas e das atividades do grupo. Em 2013, o GTPAÊ encontrava-se novamente em atividade e vinculado à associação. Naquele ano, apresentou sua sexta montagem, Um dia a mais, no Festival Internacional de Londrina — FILO.
Em etapa posterior, parte da experiência do GTPAÊ foi reorganizada no Grupo JAÉ — Jovens Artistas Especiais. Documentação do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina apresenta o JAÉ como resultado da transformação do antigo grupo, sob a direção de Débora Cintra Crusiol, com atividades de teatro e dança destinadas a adolescentes e adultos com deficiência.
Processo de criação
O processo de criação do GTPAÊ era desenvolvido por meio dos chamados laboratórios de teatro. Nesses encontros, os integrantes relatavam experiências pessoais, discutiam situações sociais e realizavam exercícios de improvisação. Temas como preconceito, afetividade, namoro, casamento, sexualidade, autonomia, trabalho e relações familiares podiam ser incorporados às montagens. As decisões relativas às peças eram tomadas coletivamente, frequentemente por meio de votação. Os atores participavam da construção das histórias, das personagens, dos cenários e de outros elementos da concepção cênica. Os estudantes e coordenadores atuavam como mediadores, auxiliando na organização das propostas e na resolução dos conflitos surgidos durante o trabalho. A dramaturgia não se limitava à adaptação de textos previamente escritos. Parte das cenas era elaborada com base nas experiências e opiniões dos atores, de modo que os espetáculos apresentassem ao público questões relacionadas à deficiência intelectual a partir da perspectiva dos próprios integrantes. Embora o projeto estivesse ligado à Psicologia e investigasse aspectos como autonomia, comunicação e habilidades sociais, suas atividades também compreendiam a apresentação pública e a circulação de obras teatrais. O estudo publicado em 2007 na revista Psicologia: Ciência e Profissão analisou o grupo como experiência de expressão artística e de conscientização social sobre a deficiência.
Espetáculos
Entre as montagens do GTPAÊ documentadas pela imprensa encontram-se:
Circo da Alegria — primeira montagem do grupo; Coração Valente — terceira montagem, com 46 apresentações em dezessete cidades dos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro; Cenas da Vida — quinta montagem, estreada em 2008 e reapresentada na sessão de despedida anunciada em 2010; Um dia a mais — sexta montagem, apresentada no FILO em 2013.
Um dia a mais foi ambientado no Rio de Janeiro e estruturado por meio de histórias de personagens cujas trajetórias se cruzavam. A dramaturgia abordava temas como solidão, adolescência, traição, agressão, homossexualidade e doença de Alzheimer, utilizando situações dramáticas e elementos de humor.
Publicações e estudos
A experiência do GTPAÊ foi registrada em publicações acadêmicas relacionadas à Psicologia, à educação especial, ao teatro e à inclusão social. Em 2002, Solange Leme Ferreira organizou o livro Teatro e deficiência mental: a arte na superação de nossos limites, que reuniu reflexões sobre a formação e o funcionamento do grupo.
Em 2007, Mariana Prioli Cordeiro, Renata de Souza Scoponi, Solange Leme Ferreira e Camila Mugnai Vieira publicaram o artigo Deficiência e teatro: arte e conscientização, dedicado às atividades do GTPAÊ e às respostas do público às suas apresentações. A trajetória do grupo também foi retomada no livro Escrevendo outro script para a deficiência intelectual, publicado por Ferreira em 2015. A obra relacionou os laboratórios teatrais às discussões sobre autonomia, participação social e representação pública das pessoas com deficiência intelectual.
Denominação
A expressão “atores especiais” é mantida no nome do grupo por constituir sua denominação histórica. Fora do nome próprio, fontes contemporâneas e a terminologia adotada neste artigo empregam as expressões “atores com deficiência” e “pessoas com deficiência intelectual”.
Ver também
Teatro e deficiência no Brasil Cultura da deficiência Teatro comunitário Universidade Estadual de Londrina
Categoria:Companhias de teatro do Brasil Categoria:Cultura de Londrina Categoria:Universidade Estadual de Londrina Categoria:Cultura da deficiência Categoria:Organizações fundadas em 1997