thumb|direita|Stephanie Davies-Arai em 2024
Transgender Trend é um grupo de pressão britânico descrito por diversas fontes como antitransgênero. A organização descreve-se como um grupo formado por pais, profissionais e acadêmicos preocupados com o aumento do número de crianças diagnosticadas com disforia de gênero. Foi fundada em 2015 por Stephanie Davies-Arai. História e posições
Jovens transgênero
A Transgender Trend afirma que não há "evidências de que crianças realmente sejam trans" e sustenta que a "ideologia de gênero" causa danos às crianças. A Association for Women's Rights in Development descreve essa posição como "quase idêntica à dos fundamentalistas religiosos". Textos publicados em seu sítio eletrônico afirmam que crianças transgênero estariam sendo "doutrinadas" e submetidas à "lavagem cerebral". A organização também declarou acreditar que a transição de pessoas adultas com menos de 25 anos será "o próximo grande escândalo".
Em setembro de 2018, Davies-Arai declarou ao BuzzFeed News: "Se uma criança se assumir como trans, acho realmente importante que os pais sejam informados". Questionada sobre os efeitos de revelar a identidade de gênero de crianças aos pais sem seu consentimento, reconheceu que "alguns pais são abusivos e preconceituosos", mas acrescentou que "devemos presumir que a maioria dos pais tem os melhores interesses de seus filhos em mente".
Em 2022, um homem trans de 18 anos denunciou Az Hakeem, psiquiatra que se descreve como "crítico de gênero", ao General Medical Council por supostamente ter praticado terapia de conversão quando ele era seu paciente aos 17 anos. Segundo seu relato, após ele se assumir trans, sua mãe passou a pesquisar o assunto e acabou se envolvendo em "círculos muito, muito antitrans", entrando em contato com a Transgender Trend em busca de orientação. Um representante da organização respondeu que "compartilhamos suas reservas" em relação à sua transição social. A Transgender Trend já havia entrevistado Hakeem, ocasião em que ele afirmou que "o pensamento muito preto no branco... é característico de uma mente trans" e fez referência à "psicopatologia da condição trans".
Davies-Arai também atua como consultora clínica da Genspect, uma organização sem fins lucrativos internacional associada ao movimento crítico de gênero, que faz campanha contra direitos de pessoas transgênero e divulga alegações contestadas sobre os cuidados de saúde destinados a essa população.
O portal Truthout afirmou: "Grupos como a Transgender Trend, uma organização que faz campanha contra a educação inclusiva sobre relacionamentos e sexualidade voltada para pessoas LGBT nas escolas (e que foi autorizada a contribuir como testemunha especializada no caso Keira Bell), agora estão concentrando seus esforços em atacar os cuidados de saúde para pessoas trans com menos de 25 anos". Bell v Tavistock
A Transgender Trend apresentou depoimento contrário ao uso de bloqueadores da puberdade no processo Bell v Tavistock, um caso judicial britânico que discutiu se esses medicamentos poderiam ser prescritos a menores de idade. Stephanie Davies-Arai afirmou: "As crianças não possuem maturidade nem experiência de vida suficientes para fornecer consentimento informado a intervenções médicas com consequências tão devastadoras a longo prazo".
Materiais didáticos para escolas
A Transgender Trend arrecadou milhares de libras em doações pela internet para distribuir "kits de recursos para escolas", nos quais sustenta que o melhor procedimento é não afirmar a identidade de gênero de crianças transgênero. O material orienta as escolas a "agir com cautela" ao respeitar o direito de estudantes trans de vestir-se ou serem tratados de acordo com sua identidade de gênero, evitar conceder dispensas para consultas médicas relacionadas à transição e organizar as aulas de educação física com base no "sexo biológico" dos alunos. O guia também recomenda que professores informem aos colegas de estudantes trans que "você não pode realmente mudar de menino para menina".
O material argumenta que a disforia de gênero em crianças pode ser resultado de uma "simples contágio social", por meio do conceito de disforia de gênero de início rápido. A disforia de gênero de início rápido não é reconhecida por nenhuma das principais associações profissionais como um diagnóstico válido de saúde mental e, segundo a MIT Technology Review, o estudo que originalmente propôs essa hipótese foi "baseado em pesquisas com pais recrutados em sites e fóruns explicitamente anti trans e céticos em relação às pessoas trans", incluindo a Transgender Trend.
A Stonewall descreveu o guia como "repleto de conteúdo factualmente incorreto". O Departmento de Educação do Reino Unido não comentou o conteúdo do material, mas confirmou que não o endossava nem fornecia qualquer financiamento para sua produção. Campanha de adesivos
A Transgender Trend foi criticada por publicar, em setembro de 2018, adesivos para download com frases como "As crianças não devem aprender na escola que podem escolher ser menino ou menina", "A disforia de gênero de início rápido é a nova anorexia?" e "Adolescentes estão se assumindo transgênero após maratonas nas redes sociais", entre outras. Davies-Arai defendeu os adesivos e afirmou que havia conversado com "cerca de 10" pessoas trans desde a criação da Transgender Trend, em 2015.
O BuzzFeed News afirmou que "Davies-Arai não possui formação em medicina, direito ou ensino, nem experiência profissional trabalhando com pessoas trans". A Stonewall argumentou que a campanha de adesivos "contribui para um ambiente em que a intimidação contra estudantes trans pode prosperar". Susie Green, diretora-executiva da organização Mermaids, declarou: "Se utilizados nas escolas, eles transmitem uma mensagem clara aos estudantes transgênero de que sua identidade não é válida". O BuzzFeed News descreveu a iniciativa como a distribuição de "propaganda antitrans às escolas sob a aparência de um 'kit de recursos' de nome neutro", comparando essa estratégia à dos centros de gravidez em crise, que, segundo a reportagem, induzem ao erro mulheres que procuram serviços de aborto. Educação sobre relacionamentos e sexualidade
Em fevereiro de 2020, Davies-Arai discursou na Câmara dos Comuns do Reino Unido durante uma sessão informativa parlamentar na qual se posicionou contra o currículo de Educação sobre Relacionamentos e Sexualidade (Relationship and Sex Education – RSE) favorável aos direitos e às identidades LGBT, que entrou em vigor em setembro de 2020. Davies-Arai argumentou que o ensino sobre identidade de gênero levaria a abusos e permitiria que homens adultos utilizassem banheiros destinados a meninas. Ela participou do evento ao lado de Lynda Rose, diretora de um grupo de pressão contrário ao aborto, que afirmou: "Submeter crianças, desde os três anos de idade, à mensagem de que podem mudar de gênero, se desejarem, e de que podem ser homossexuais porque têm um melhor amigo do mesmo sexo [...] é um experimento social e constitui abuso"; de Ed Matyjaszek, que declarou: "Corremos o risco de instituir, por meio da RSE, um programa nacional de doutrinação LGBT nas escolas primárias"; e de Judith Nemeth, dirigente da organização anti-LGBT Values Foundation. A sessão foi organizada pelo Lords and Commons Family and Child Protection Group, grupo parlamentar que anteriormente apoiou a Seção 28, legislação que proibia escolas de "promover a homossexualidade". O House of Commons Trade Union e a ParliOUT, rede de igualdade no ambiente de trabalho para pessoas LGBT+ no Parlamento, enviaram uma carta às Câmaras dos Comuns e dos Lordes manifestando oposição ao evento e questionando se funcionários LGBT+ seriam obrigados a trabalhar em encontros dessa natureza. Organizações de defesa dos direitos LGBT
A organização afirma ser favorável a "regras baseadas no sexo, quando justificadas", e sustenta que organizações de defesa dos direitos LGBT, como a Stonewall e a Mermaids, promovem papéis de gênero rígidos ao incentivar crianças que não se conformam às normas de gênero a "acreditar que podem ser trans".
O grupo se opõe à prescrição de bloqueadores da puberdade e a outras intervenções médicas para adolescentes menores de 18 anos, além de ter apoiado ações judiciais destinadas a restringir esse tipo de prescrição ou intervenção. Recepção
Em abril de 2018, representantes da Universidade de Oxford, da Universidade Oxford Brookes e da National Union of Students assinaram uma carta aberta em protesto contra um evento promovido pela Woman's Place UK, na qual afirmavam: "A Woman's Place e os grupos que discursam esta noite, incluindo a Transgender Trend e a Fair Play for Women, estiveram no centro da retórica antitransgênero violenta e dos abusos na mídia ao longo do último ano".
Em junho de 2022, Davies-Arai participou do seminário "Sex, Gender and Schools", realizado na Universidade de Edimburgo. Os copresidentes da University of Edinburgh Staff Pride Network afirmaram que "não foi apresentada nenhuma pesquisa ao público" e que os palestrantes utilizaram "táticas alarmistas" ao defender que professores deveriam "questionar por que uma criança poderia estar se expressando dessa forma", em vez de afirmar sua identidade de gênero.
Cerca de 8 mil mulheres assinaram uma carta aberta dirigida a Liz Truss, afirmando: "Estamos profundamente preocupadas porque a linguagem que você utilizou é muito semelhante à retórica antitrans empregada por grupos e organizações de ódio transfóbicos, como Woman's Place UK, Transgender Trend e a LGB Alliance", em resposta à caracterização feita por Truss dos "direitos das pessoas trans como uma nova ameaça às mulheres cisgênero como nós".
Em 2022, Davies-Arai foi agraciada com a Medalha do Império Britânico por Isabel II, com a citação: "Fundadora da Transgender Trend. Pelos serviços prestados às crianças". Os sociólogos Anna McLean e Paul B. Stretesky descrevem a Transgender Trend como parte de "um verdadeiro miasma de grupos de campanha antitrans [...] unidos por sua antipatia em relação às pessoas transgênero", ao lado de organizações como CitizenGo, FiLiA, Fair Play for Women, Get the L Out, Keep Prisons Single Sex, Lesbian Rights Alliance, LGB Alliance e Sex Matters.
Ligações externas
Categoria:Organizações fundadas em 2015 Categoria:Direitos LGBT Categoria:Organizações do Reino Unido