Berlinde De Bruyckere (nascida em 1964) é uma artista contemporânea belga que trabalha com escultura e instalação.Fullerton, Elizabeth. "Suffering and Desire: A Conversation with Berlinde De Bruyckere". Consultado em 26 de abril de 2025. Suas esculturas usam formas corporais.Alexandrova, Alena. "The Body Recast: The Sculpture of Berlinde de Bruyckere". Fordham University Press. doi:10.1515/9780823274505. ISBN 978-0-8232-7447-5. Seu trabalho é influenciado por imagens religiosas, mitologia e o Renascimento Flamengo.Moldan, Tessa (2023). "Berlinde De Bruyckere".Moldan, Tessa (2023). "Berlinde De Bruyckere". OCULA. Consultado em 26 de abril de 2025. Os temas em suas obras de arte exibem experiência humana, existência e emoção crua.Bruyckere, Berlinde de; Alloa, Emmanuel; Carrion-Murayari, Gary; Coetzee, J.M.; Lamarche, Caroline; Cauteren, Philippe Van (2014). Mengoni, Angela (ed.). Berlinde De Bruyckere. Brussels: Mercatorfonds. ISBN 9780300204452.
Introdução
Berlinde De Bruyckere é uma das artistas belgas contemporâneas mais relevantes no cenário internacional, reconhecida por suas esculturas em cera, madeira, tecido e resina, que tratam da vulnerabilidade do corpo, da dor e da memória histórica. Sua obra ocupa uma posição singular na arte contemporânea, ao fundir referências mitológicas, religiosas e existenciais em formas que oscilam entre o humano e o animal, o vivo e o morto.
Formação e Primeiros Anos Berlinde De Bruyckere nasceu em 1964, em Gand, Bélgica. Formou-se na Koninklijke Academie voor Schone Kunsten (Academia Real de Belas Artes) de Gand entre 1982 e 1986. Durante sua formação, De Bruyckere já demonstrava interesse pelas questões da corporeidade e da matéria viva, áreas que viriam a constituir o núcleo de sua prática artística.
Segundo Mieke Bal, "a educação artística de De Bruyckere fundamentou-se menos na ideia da representação do real e mais na investigação das possibilidades expressivas da materialidade".Bal, Mieke. "Matters of Flesh: Berlinde De Bruyckere’s Vulnerable Bodies." Journal of Visual Culture 13, no. 2 (2014): 212–228. Esse enfoque inicial foi fundamental para a evolução de sua linguagem escultórica.
Desenvolvimento da Carreira A trajetória profissional de De Bruyckere consolidou-se a partir da década de 1990, momento em que começou a atrair atenção internacional. Suas primeiras obras — como as instalações de cobertores dobrados, expostas na Bienal de Veneza de 2003 — já apontavam para temas que se tornariam centrais em sua produção: o abrigo, a memória coletiva e o trauma.
Como observa Angela Mengoni, "os primeiros trabalhos de De Bruyckere, utilizando objetos do cotidiano como cobertores, enraízam-se na ideia de proteção e, simultaneamente, de desamparo.Angela Mengoni, "Scultori dell’interiorità: Berlinde De Bruyckere e la carne ferita," in Arte e Trauma, ed. G. C. Argan et al. (Milano: Postmedia Books, 2017), p. 90.
Ao longo dos anos 2000, a artista aprofundou sua pesquisa sobre o corpo fragmentado, criando esculturas de corpos humanos e animais mutilados ou amalgamados, sempre utilizando cera como principal material. A textura orgânica e vulnerável de suas obras intensificava o caráter emocional e metafórico de seu discurso plástico.
Sua participação na Bienal de Veneza de 2013, representando o Pavilhão da Bélgica com a instalação Kreupelhout – Cripplewood, em colaboração com o escritor J. M. Coetzee, marcou um dos momentos mais altos de sua carreira. Nesta obra, um grande tronco de árvore ferido, modelado em cera e sustentado por suportes ortopédicos, evoca simultaneamente o corpo humano em sofrimento e a natureza devastada, em uma poderosa alegoria da ferida universal.
Temas e Estilo A obra de De Bruyckere é marcada por uma intensa tensão entre a beleza formal e a angústia existencial. Como nota Philippe Van Cauteren, "a sua estética encontra-se em permanente estado de suspensão entre o sublime e o grotesco".Van Cauteren, Philippe. "Wounded Wood and Wax: On Berlinde De Bruyckere." In Berlinde De Bruyckere: We Are All Flesh, edited by Franz-W. Kaiser. The Hague: Gemeentemuseum Den Haag, 2014. pg 18
Entre os principais temas que permeiam sua produção, destacam-se:
Vulnerabilidade e sofrimento: De Bruyckere vê o corpo como um locus da dor e da resistência. Suas esculturas frequentemente remetem a corpos exaustos, feridos ou transformados.
Metamorfose e hibridismo: Suas figuras, muitas vezes, oscilam entre o humano e o animal, refletindo sobre as fronteiras da identidade.
História e mitologia: A artista recorre a narrativas bíblicas, mitológicas e literárias para criar imagens atemporais que ressoam com o inconsciente coletivo.
Materialidade: A cera, pela sua capacidade de evocar a pele e a carne, é um meio privilegiado em sua prática, frequentemente combinada com madeira, tecidos antigos e metais.
Recepção Crítica A crítica tem enfatizado o caráter profundamente emocional e simbólico da obra de De Bruyckere. Para Marina Warner, "suas esculturas desenterram uma camada profunda de medo e ternura, reatando com tradições antigas da arte votiva e da ex-voto. De Bruyckere é vista como uma artista que renova a tradição escultórica europeia, reapropriando elementos da iconografia cristã e dos relicários medievais, mas de maneira secularizada e existencial.Warner, Marina. "Corporeal Vulnerabilities: Berlinde De Bruyckere’s Sculptural Practice." In Art and Trauma, edited by Maria Walsh and Áine O'Brien. London: IB Tauris, 2018.
Além disso, sua prática é frequentemente associada ao conceito de "precariedade" na arte contemporânea, conforme proposto por Judith Butler, uma vez que suas figuras materializam o estado de exposição e desamparo que caracteriza a existência moderna.
Principais Exposições 2000 – In Flanders Fields, Ieper, Bélgica.
2003 – 50ª Bienal de Veneza, Itália.
2006 – De Pont Museum of Contemporary Art, Tilburg, Países Baixos.
2013 – 55ª Bienal de Veneza, Pavilhão da Bélgica (Kreupelhout – Cripplewood).
2015 – Gemeentemuseum Den Haag, Países Baixos.
2019 – Hauser & Wirth, Somerset, Reino Unido.
Berlinde De Bruyckere construiu uma carreira notável ao dar voz, através da escultura contemporânea, à vulnerabilidade intrínseca do ser humano e à precariedade da vida. Seu trabalho, profundamente enraizado na história cultural europeia, oferece um dos testemunhos mais pungentes da arte do nosso tempo, desafiando as fronteiras entre beleza, horror e transcendência.
Categoria:Artistas da Bélgica