A expressão cena primária refere-se à visão das relações sexuais entre os pais, conforme observada, construída ou fantasiada pela criança e interpretada por ela como uma cena de violência. A teoria sugere que a cena não é compreendida pela criança, permanecendo enigmática, mas ao mesmo tempo provocando excitação sexual.

Visões de Freud Evolução O termo apareceu pela primeira vez no trabalho publicado de Freud a propósito do caso Homem-lobo (1918b ), mas a noção de uma memória sexual vivida cedo demais para ter sido traduzida em imagens verbais, e portanto passível de retornar sob a forma de sintomas de conversão ou obsessões, fazia parte de seu pensamento já em 1896 [conforme testemunha sua carta de 30 de maio daquele ano a Wilhelm Fliess, na qual evoca um “excesso de sexualidade” que “impede a tradução” (1950a, pp. 229–230)]. Aqui Freud já está próximo do modelo do trauma e de seu efeito de posterioridade. No ano seguinte, em sua carta a Fliess de 2 de maio, Freud usa o termo real Urszene pela primeira vez;Sigmund Freud, Case Studies II (PFL 9) p. 270n e estima que a idade aproximada em que a criança é passível de “ouvir coisas” que só compreenderá “subseqüentemente” seja de seis ou sete meses (SE 1, p. 247). O tema do testemunho infantil do coito parental surgiu ainda, embora em criança mais velha, no caso de “Katharina”, em Estudos sobre a histeria (1895), e Freud o evocou novamente em A interpretação dos sonhos, com a fantasia do jovem que sonhava assistir aos pais copulando durante sua vida no útero.

Fantasia ou realidade? Freud esforçou-se persistentemente para decidir se a cena primária era fantasia ou algo realmente presenciado; sobretudo, passou a enfatizar cada vez mais a interpretação fantasiosa da criança, que via a cena como violência imposta à mãe pelo pai. Chegou a reconhecer, em “Sobre as teorias sexuais na infância” (1908c, p. 221), uma medida de justificação para o que chamou de “conceito sádico do coito”,Sigmund Freud, On Sexuality (PFL 7) p. 199 sugerindo que, ainda que a criança exagere, a percepção de repulsa real em relação ao ato sexual por parte de uma mãe receosa de nova gravidez pode ser bastante precisa. No caso de “[ [Pequeno Hans]]”, entretanto, a violência foi explicada em termos de proibição: Hans a considerava análoga a “quebrar um vidro ou forçar entrada num espaço fechado” (1909b, p. 41).

O histórico de caso do Homem-lobo deu a Freud a oportunidade não só de aprofundar a questão da realidade da cena primária, mas também de propor a ideia de que ela estava na raiz da neurose infantil (e, mais tarde, adulta): o desenvolvimento sexual da criança teria sido “positivamente fragmentado por ela” (1918b , pp. 43–44). Em suas Aulas introdutórias de psicanálise, no entanto, ele defendeu a universalidade da fantasia da cena primária (assim como das teorias sexuais infantis): ela pode ser encontrada em todos os neuróticos, se não em todos os seres humanos (Freud, 1915f), e pertence à categoria de fantasias “primordiais”. Parece, contudo, não ter a mesma força para todos os indivíduos. Freud viria a atribuir lugar central à cena primária em sua análise de Marie Bonaparte, embora, no caso dela, a cena ocorresse entre sua ama e um cocheiro (Bonaparte, 1950–53).

Considerada como um evento real em vez de pura fantasia reconstruída retrospectivamente (à maneira do fantasiar retrospectivamente de Carl Jung), a cena primária apresentava um impacto traumático muito mais marcado, o que levou Freud a insistir na “realidade” de tais cenas, retornando ao debate sobre realidade histórica versus realidade psíquica. Para além da própria cena, o tema da fantasia foi assim levantado (no capítulo cinco do histórico de caso do Homem-lobo [1918b, pp. 48–60]), discutido em termos que Freud retomaria mais tarde em Construções na análise (1937d).

Para Freud, não se tratava apenas de que a técnica da psicanálise exigisse que as fantasias fossem tratadas como realidades, a fim de lhes conferir toda a força necessária à evocação, mas também de que muitas cenas “reais” não estavam acessíveis por via da recordação, e sim apenas por meio dos sonhos. Quer a cena fosse construída a partir de elementos observados em outro contexto (por exemplo, o coito animal transposto para os pais), reconstruída com base em pistas (como lençóis manchados de sangue) ou de fato observada, mas numa idade em que a criança ainda não dispunha de imagens verbais correspondentes, nada alterava fundamentalmente os fatos: “Pretendo, nesta ocasião,” escreveu Freud, “encerrar a discussão sobre a realidade da cena primária com um Non liquet.” (1918b, p. 60)

Interpretações kleinianas Melanie Klein via a cena primária de forma diferente de Freud: onde ele via uma percepção enigmática de violência, ela percebia fantasias projetivas da criança. Klein considerava que a curiosidade infantil era primeiramente provocada pela cena primária, e que geralmente a criança se sentia ao mesmo tempo excitada e excluída por ela.David Mann, Psychotherapy, an Erotic Relationship (1997) p. 140 O relacionamento sexual entre os pais, fantasiado como contínuo, é também a base da figura dos “pais combinados”,David Mann, Psychotherapy, an Erotic Relationship (1997) p. 140 isto é, mãe e pai vistos como satisfeitos mutuamente, porém excluindo a criança.

Enquanto Klein enfatizava a forma como o bebê projetava tendências hostis e destrutivas na cena primária, com a mãe retratada como tão perigosa ao pai quanto o pai o é para ela, kleinianos posteriores, como John Steiner, ressaltaram o aspecto criativo da cena primária e a necessidade, na análise, de superar uma clivagem de sua imagem entre um casal amoroso, por um lado, e uma figura parental combinada presa ao ódio, por outro.David Mann, Psychotherapy, an Erotic Relationship (1997) pp. 141, 196

Características gerais A cena primária é inseparável das teorias sexuais da infância que ela ajuda a criar. Essa representação perturbadora, que simultaneamente reconhece e nega a familiaridade dos pais, exclui a criança ao mesmo tempo em que a envolve, como demonstra a excitação libidinal sentida pela criança em resposta. Otto Fenichel ressaltou o caráter traumático do excesso de excitação sentido pela criança, o que ela não consegue processar — o que ele chamou de “desconhecido avassalador”.Otto Fenichel, The Psychoanalytic Theory of Neurosis (1946) pp. 214–215, 483

A particularidade da cena primária está no fato de que o sujeito vivencia, de modo simultâneo e contraditório, o surgimento do desconhecido dentro de um mundo familiar, ao qual está vinculado pelas necessidades vitais, pelas expectativas de prazer e pela autoimagem que esse mundo reflete. A falta de medida comum entre a experiência emocional e psicosexual da criança e as palavras que poderiam dar conta da cena primária cria um abismo que as teorias sexuais da infância tentam preencher. Uma leitura sádica da cena combina a curiosidade da criança tanto pela origem quanto pelo fim da vida em uma representação na qual morte e vida se fundem de fato.

Dissertações de doutorado sobre a cena primária passaram a surgir desde os anos 1970. A dissertação de M. F. Hoyt, intitulada “The primal scene: A study of fantasy and perception regarding parental sexuality”, foi apresentada à Universidade Yale. Com base em amostra de aproximadamente 400 estudantes universitários, Hoyt inferiu que cerca de 20 % dos entrevistados relataram ter presenciado (por visão e/ou som) seus pais em relações sexuais. A conclusão do estudo indicou que a experiência da cena primária em si não é necessariamente deletéria; os efeitos traumáticos ou patogênicos geralmente ocorrem apenas no contexto de brutalidade geral ou relações familiares perturbadas. Um segmento da dissertação de doutorado de Paul Okami à Universidade da Califórnia em Los Angeles nos anos 1990 foi publicado no Journal of Sex Research em 1995.

Outras acepções de "cena primária" Leituras intertextuais Ned Lukacher propôs usar o termo em crítica literária para se referir a um tipo de intertextualidade em que a capacidade de interpretar um texto depende do significado de outro ou de um conjunto de critérios antes não percebido, mesmo quando não há meios conclusivos de estabelecer a relação para além de dúvida razoável.Ned Lukacher, Primal Scenes (Cornell University Press, 1986), p. 24 online.

Exemplos culturais Maynard Solomon interpreta quatro sonhos registrados de Beethoven como centrados na cena primária, com o compositor ora participante, ora impotente testemunha.Maynard Solomon, Beethoven Essays (1988) pp. 65, 71–72

Ver também

Leitura adicional Bonaparte, Marie. (1950–53). Cinco cadernos de cópia. Traduzido por Nancy Procter-Gregg. Londres: Imago. Freud, Sigmund. (1900a). A interpretação dos sonhos. Parte I, SE 4: 1–338; Parte II, SE 5: 339–625. ——. (1908c). “Sobre as teorias sexuais na infância”. SE 9: 205–226. ——. (1909b). “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos”. SE 10: 1–149. ——. (1915f). “Um caso de paranoia contrariando a teoria psicanalítica da doença”. SE 14: 261–272. ——. (1918b ). “Da história de uma neurose infantil”. SE 17: 1–122. ——. (1937d). Construções na análise. SE 23: 255–269. ——. (1950a [1887–1902]). “Extratos dos papéis de Fliess”. SE 1: 173–280. Freud, Sigmund, e Breuer, Josef. (1895d). Estudos sobre a histeria. SE 2: 48–106. Hoyt, M. F. (1978). “Primal scene experiences as recalled and reported by college students”. Psychiatry, 41: 57–71. Hoyt, M. F. (1979). “Primal scene experiences: Quantitative assessment of an interview study”. Archives of Sexual Behavior, 8: 225–245. Klein, Melanie. (1961). Narrativa de uma análise infantil. A condução da psicanálise de crianças conforme o tratamento de um menino de dez anos. Nova Iorque: Basic Books. Laplanche, Jean. (1989). Novos fundamentos para a psicanálise (trad. David Macey). Oxford: Blackwell. Mijolla-Mellor, Sophie de. (1999). “Les Mythes magicosexuelles sur l’origine et sur la fin”. Topique, 68. Paul Okami. (1995). “Childhood exposure to parental nudity, parent-child co-sleeping, and ‘primal scenes’: a review of clinical opinion and empirical evidence”. Journal of Sex Research, 32(1): 51–64. Paul Okami; Richard Olmstead; Paul R. Abramson; Laura Pendleton. (1998). “Early childhood exposure to parental nudity and scenes of parental sexuality (‘primal scenes’): an 18-year longitudinal study of outcome”. Archives of Sexual Behavior, 27(4): 361–384; prévia disponível. Arlow, Jacob A. (1980). “O motivo da vingança na cena primária”. Journal of the American Psychoanalytic Association, 28: 519–542. Aron, Lewis. (1995). “A cena primária internalizada”. Psychoanalytic Dialogues, 5: 195–238. Greenacre, Phyllis. (1973). “A cena primária e o sentido da realidade”. Psychoanalytic Quarterly, 42: 10–41.

Categoria:Sexualidade humana Categoria:Terminologia psicanalítica