miniaturadaimagem|250x250px|Bandeira de resistência queer numa manifestação política A ecologia queer é um termo guarda-chuva que denomina um campo interdisciplinar de estudos e práticas que busca compreender a natureza e as relações sociais à luz da teoria queer e da teoria ecológica, rejeitando concepções e paradigmas heteronormativos hegemônicos epistêmicos. Baseia-se em diferentes domínios do conhecimento, como o ecofeminismo, a justiça ambiental, a teoria queer e a crítica cultural. Nessa perspectiva, o objetivo da Ecologia Queer é romper com os ideias binários de natureza, além de reimaginar e propor novas concepções do que é visto como natural

Visão geral A ecologia queer afirma que as pessoas muitas vezes consideram a natureza em termos de noções dualistas como "natural e não-natural", "vivo ou não-vivo" ou "humano ou não-humano", quando na realidade a natureza existe em um estado contínuo. A ideia de “natural” surge das perspectivas humanas sobre a natureza, não da “natureza” em si.

A ecologia queer rejeita ideias de excepcionalismo humano e antropocentrismo que propõem que os humanos são únicos e mais importantes do que os não-humanos. Especificamente, a ecologia queer desafia as ideias tradicionais sobre quais organismos, indivíduos, memórias, espécies, visões, objetos, etc. miniaturadaimagem|250x250px|Variação comum da bandeira queer A ecologia queer também afirma que as ideias heteronormativas saturam a compreensão humana da "natureza" e da sociedade humana, e apela à inclusão de uma perspectiva queer mais radicalmente inclusiva nos movimentos ambientais. Rejeita as associações que existem entre “natural” e “heterossexual” ou “heteronormativo” e chama a atenção para a forma como tanto a natureza como os grupos sociais marginalizados têm sido historicamente explorados.

A partir das percepções da ecologia queer, todos os seres vivos são considerados conectados e inter-relacionados. Tornar a natureza "queer" é reconhecer as complexidades presentes nela e libertar as interpretações da natureza de suposições humanas e seus impactos desastrosos.

A ecologia queer pode ser associada ao que Tabassi, estudiosa do feminismo, chama de "resiliência suja", ou A desmantelação de estruturas de violência que tratam corpos racializados e de gêneros específicos como descartáveis... [a resiliência suja] é, portanto, também, a criação contextual específica de espaços e estruturas que apoiam a autodeterminação e a libertação coletiva, como: soberania da terra, abolição de regimes de prisão e apartheid, novos sistemas alimentares, responsabilidade comunitária em vez de policiamento e criminalização, não-proliferação de armas nucleares e desmilitarização, acessibilidade à saúde, moradia gratuita, tomadas de decisão coletivas, transformação de traumas, entre outros.Ao falar sobre a natureza radicalmente interdisciplinar da ecologia queer, Knox traça um vínculo entre essa teoria e o "pós-humanismo insurgente", que "dissolve a dicotomia entre humanos e não-humanos" e pergunta como contribuir para "a criação de ecologias vivas como uma forma de transformação material que instiga justiça como uma experiência imediata, vivida e mundial". Além disso, se relaciona ao trabalho de Arakawa e Gins, e Simondon.

Definição O termo "ecologia queer" refere-se a um agrupamento diverso e interdisciplinar de práticas que visam, de diferentes maneiras, romper as articulações discursivas e institucionais heteronormativas predominantes do ser humano e da natureza, e também reimaginar processos evolutivos, interações ecológicas e políticas ambientais à luz da teoria queer. Baseando-se em tradições tão diversas como: biologia evolutiva; movimentos LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgênero, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, pessoas não binárias, e outras minorias de sexualidade, sexo e gênero); geografia e história queer; estudos científicos feministas; ecofeminismo; estudos sobre deficiência e justiça ambiental – a ecologia queer destaca a complexidade da biopolítica contemporânea, traça conexões importantes entre as dimensões materiais e culturais das questões ambientais e insiste numa prática articulatória em que o sexo e a natureza são compreendidos à luz de múltiplas trajetórias de poder e matéria.

História esquerda|miniaturadaimagem|270x270px|Edward Carpenter, poeta que primordialmente relacionou a sexualidade e o meio-ambiente A origem teórica da ecologia queer pode ser rastreada até os textos fundacionais da teoria queer. Por exemplo, a pesquisadora Catriona Sandilands cita as origens da ecologia queer nas obras de Michel Foucault, especialmente em A História da Sexualidade (1976). Sandilands sugere que Foucault "estabelece as bases para muitos dos estudos contemporâneos em ecologia queer" ao examinar a concepção de sexo como "um objeto específico de conhecimento científico organizado, por um lado, por uma 'biologia da reprodução', que considera o comportamento sexual humano em relação às fisiologias da reprodução de plantas e animais, e, por outro, por uma 'medicina do sexo', que concebe a sexualidade humana em termos de desejo e identidade." Foucault explica a "medicina do sexo" como uma forma de falar sobre a saúde humana separada da "medicina do corpo". Noções iniciais de ecologia queer também vêm da poesia de Edward Carpenter, que abordou temas de sexualidade e natureza em seu trabalho.

O trabalho de Judith Butler sobre gênero também lançou uma base importante para a ecologia queer. Mais especificamente, Butler explora o gênero como performatividade em seu livro de 1990, Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. A ecologia queer propõe que, quando a noção de performatividade de Butler é aplicada ao campo da ecologia, ela desmantela a dicotomia 'natureza-cultura'. Da perspectiva da ecologia queer, não existem diferenças essenciais entre "natureza" e "cultura". Em vez disso, os humanos que categorizaram "natureza" e "cultura" como distintos entre si criam essas diferenças. De uma perspectiva científica, "natureza" não pode ser totalmente compreendida se animais ou partículas forem considerados entidades distintas e estáticas; em vez disso, a natureza existe como uma "teia" de interações. miniaturadaimagem|275x275px|Murray Bookchin, teórico anarquista que conceituou a ecologia social, relacionando a ecologia com mudanças radicais na sociedade Em parte, a ecologia queer também surgiu do trabalho ecofeminista. Embora a ecologia queer rejeite traços de essencialismo encontrados no ecofeminismo inicial, alguns textos ecofeministas, como Gyn/Ecology (1978), de Mary Daly, estabeleceram a base para entender as interseções entre mulheres e o meio ambiente. A ecologia queer desenvolve essas compreensões interseccionais que começaram no campo do ecofeminismo sobre as maneiras como sexo e natureza foram historicamente representados. Como uma teoria política que insiste que problemas ecológicos e sociais estão entrelaçados, a ecologia queer tem sido comparada ao conceito de ecologia social de Murray Bookchin.

Heteronormatividade e o meio ambiente A ecologia queer reconhece que as pessoas frequentemente associam a heteronormatividade à ideia de "natural", em contraste, por exemplo, com a homossexualidade, identidades trans e não-binárias, que geralmente são associadas, sob certas estruturas, ao "não-natural". Essas expectativas sobre sexualidade e natureza frequentemente influenciam os estudos científicos sobre o não-humano. O mundo natural muitas vezes desafia as noções heteronormativas mantidas pelos cientistas, ajudando-nos a redefinir nossa compreensão cultural do que é "natural" e, portanto, como podemos tornar "queer" os espaços ambientais. Por exemplo, no texto The Feminist Plant: Changing Relations with the Water Lily, Prudence Gibson e Monica Gagliano explicam como a vitória-régia desafia noções heterossexistas. Elas argumentam que, porque a vitória-régia é muito mais do que sua reputação como uma planta "pura" ou "feminina", precisamos reavaliar nossa compreensão das plantas e reconhecer as conexões entre a biologia vegetal e modelos de prática cultural, por meio de uma lente feminista.

No texto "A Political Ecology of 'Unnatural Offenses'", Kath Weston observa que o ambientalismo e a política queer raramente parecem se interseccionar, mas que "essa deslocalização repousa em uma associação estreita da ecologia com paisagens visíveis e da sexualidade com corpos visíveis delimitados pela pele". Em "The Body as Bioregion", Deborah Slicer escreveu que "o silêncio dos ambientalistas sobre o corpo é muito familiar. Minha preocupação é que esse silêncio reflete a maneira de pensar tradicional e perigosa de que o corpo não tem importância, que nossa própria natureza corpórea é irrelevante para o que quer que os ambientalistas estejam chamando de 'Natureza'." Como afirma Nicole Seymour, "[...] novos modelos de gênero e sexualidade surgem não apenas a partir de mudanças em áreas como política, economia e medicina, mas também a partir de mudanças na consciência ecológica."

No artigo da Orion Magazine, "How to Queer Ecology: One Goose at a Time", Alex Carr Johnson clama por um fim à categorização dualista e generalizante da natureza e suas possibilidades. Duas interpretações opostas são encontradas ao comparar o ensaio de David Quammen, "The Miracle of Geese", e o livro de Bruce Bagemihl, "Biological Exuberance". Enquanto Quammen usou evidências de relações monogâmicas e heterossexuais entre gansos como um mandato ecológico para tais comportamentos, Bagemihl observou relações monogâmicas e homossexuais. Essas relações eram frequentes e persistentes, não por falta de potenciais parceiros do sexo oposto. Esses relatos conflitantes do "natural" exemplificam como a interpretação, a extrapolação e a comunicação da natureza e do natural, subsequentemente, restringem e reduzem a capacidade de conceitualizar e entender o que isso constitui.

Reimaginando perspectivas científicas Nas disciplinas das ciências naturais, como biologia evolutiva e ecologia, a ecologia queer permite que os acadêmicos reimaginem binarismos culturais que existem entre "natural e não-natural" e "vivo e não-vivo".

Timothy Morton propõe que a biologia e a ecologia desconstruam noções de autenticidade. Mais especificamente, ele sugere que a vida existe como uma "rede de inter-relações" que desfoca as fronteiras científicas tradicionais, como as das espécies, do vivo e não-vivo, do humano e não-humano, e até mesmo entre um organismo e seu ambiente. A ecologia queer, segundo Morton, enfatiza uma perspectiva sobre a vida que transcende dualismos e limites distintivos, reconhecendo, em vez disso, que existem relações únicas entre formas de vida em diferentes escalas. A ecologia queer também traz nuances às perspectivas evolutivas tradicionais sobre a sexualidade, considerando a heterossexualidade como impraticável em muitas escalas e como um desenvolvimento evolutivo "tardio".

Outros acadêmicos desafiam o contraste que existe entre as classificações "humano" e "não-humano", propondo que a ideia de "fluidez" da teoria queer também deveria se estender à relação entre o humano e o não-humano.

Ecologia queer e sociedade