Os xaibanitas, Banu Xaibane ou Banu Xaibã () foram uma importante tribo árabe pertencente aos becritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, segundo a genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. Descendiam de Xaibane ibne Talaba ibne Uqueba ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail, cuja linhagem era conduzida por Rebia e Nizar até Adenane. Dividiam-se em numerosos ramos, entre os quais se destacavam os hamamitas, jassacitas, mualimitas, alharititas, aburrebiaítas e murraítas. Durante a Jailia, eram predominantemente nômades ou seminômades e ocupavam uma extensa zona entre o Négede, Iamama, Barém, o Eufrates e o golfo Pérsico, deslocando-se sazonalmente até a Jazira. Às vésperas do Islã, constituíam, segundo Fred Donner, o mais poderoso e proeminente dos principais grupos becritas e eram conhecidos por sua reputação guerreira, por seus poetas e pelo emprego de uma forma particularmente pura da língua árabe.
Nas décadas anteriores ao surgimento do Islã, a liderança xaibanita concentrou-se sobretudo nos hamamitas, embora outros ramos aristocráticos disputassem a chefia tribal. Os xaibanitas participaram de numerosos confrontos dos Dias Árabes e mantiveram relações estreitas, mas variáveis, com os lácmidas de Hira e o Império Sassânida. No início do , tiveram participação central na Batalha de Di Car, na qual uma coalizão de grupos becritas derrotou um exército sassânida; apesar da importância posteriormente atribuída ao episódio, Donner considera inadequado interpretá-lo como expressão de uma hostilidade xaibanita permanente contra os persas. O advento do Islã também dividiu politicamente a tribo. Enquanto os hamamitas resistiram à expansão muçulmana, um ramo até então secundário, os saditas, aliou-se aos conquistadores sob Almutana ibne Harita e desempenhou papel destacado na conquista muçulmana do Iraque.
Após as conquistas, os xaibanitas permaneceram particularmente numerosos e influentes no Iraque e na Jazira, estendendo sua presença à Síria, Armênia, Azerbaijão e Xirvão. Durante os períodos omíada e abássida, diferentes segmentos da tribo participaram tanto de movimentos de oposição, sobretudo revoltas carijitas, quanto da administração e dos exércitos califais. Linhagens xaibanitas produziram importantes governadores e comandantes e chegaram a estabelecer poderes regionais, destacando-se os descendentes de Iázide ibne Maziade, que governaram Xirvão, e a família de Issa ibne Axeique Axaibani, dominante em partes da Jazira no . A tribo também produziu numerosos poetas, gramáticos, filólogos e eruditos. A partir do , os xaibanitas como conjunto tornam-se menos visíveis nas fontes, enquanto suas numerosas linhagens e grupos descendentes aparecem separadamente, resultado da progressiva dispersão, sedentarização e integração da tribo nas sociedades das regiões conquistadas.
Origem e genealogia
Os xaibanitas (Banu Xaibane) eram uma tribo árabe pertencente aos becritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, pela genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. A linhagem de seu ancestral epônimo era apresentada como Xaibane ibne Talaba ibne Uqueba ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail ibne Cácite ibne Himbe ibne Afexa ibne Dumi ibne Jadila ibne Açade ibne Rebia ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Os xaibanitas constituíam um dos cinco principais ramos atribuídos aos becritas no esquema genealógico apresentado por Fred Donner, juntamente com os dulitas, caicitas, ijelitas e hanifaítas. Bianquis observa, contudo, que as fontes genealógicas registram outras linhagens associadas ao nome Xaibane. Entre elas figurava outro Xaibane, apresentado como sobrinho do primeiro e cuja linhagem era Xaibane ibne Dul ibne Talaba ibne Uqueba, além de outras genealogias correspondentes a diferentes ramos da tribo. A genealogia tradicional atribuía aos xaibanitas numerosas subdivisões. Segundo Demircan, a descendência de Xaibane prosseguia por seus filhos Dul, Taime, Talaba e Aufe, enquanto a tribo se ramificou posteriormente por meio dos dez filhos de Murra ibne Dul, chefe xaibanita do período pré-islâmico. Entre seus ramos mais conhecidos estavam os hamamitas, jassacitas, mualimitas, alharititas, aburrebiaítas e murraítas. No esquema simplificado reproduzido por Donner, Dul aparece como descendente de Xaibane e ancestral de Abu Rebia, Murra e Mualime, além de outros ramos; de Murra descendiam Hamame e Sade. O ramo de Hamame, em particular, ocupava posição de destaque dentro dos xaibanitas às vésperas do Islã, embora a importância política relativa dessas linhagens tenha variado ao longo do tempo.
História
Período pré-islâmico
Às vésperas do advento do Islã, os xaibanitas constituíam, segundo Fred Donner, o mais poderoso e proeminente dos principais grupos becritas. Seu território estendia-se pelas regiões a oeste do Eufrates, aproximadamente entre e Hite, concentrando-se sobretudo na parte central dessa faixa, a oeste de Hira. Ao sul, a zona de influência xaibanita encontrava a dos ijelitas, enquanto, ao norte, a região de Hite era dominada principalmente pelos anamiritas, grupo não becrita. Durante a posterior conquista muçulmana do Iraque, a distribuição das operações nas quais os xaibanitas aparecem sugere que sua área se prolongava de algum ponto entre Hira e Alubula, ao sul, até aproximadamente Aine Atanre, ao norte. Bianquis descreve uma mobilidade sazonal mais ampla: durante a Jailia, os xaibanitas invernavam em , no Négede, numa região que compartilhavam com os Banu Juxame, e no verão deslocavam-se para o alto Eufrates e a Jazira ou, mais a leste, para o médio e baixo Eufrates, entre Hira e Alubula, alcançando também o sudoeste do Iraque e as regiões próximas ao golfo Pérsico, onde compartilhavam pastagens com os quindaítas. Demircan situa-os na Iamama e no Barém durante a Jailia e afirma que, à época do surgimento do Islã, estavam distribuídos por uma vasta área que se estendia da Iamama até Baçorá, a Jazira e Diar Becre. Embora alguns indivíduos e provavelmente segmentos inteiros da tribo mantivessem relações especiais com o Império Sassânida e levassem vida sedentária, a maioria dos xaibanitas era nômade ou parcialmente nômade. Segundo Donner, era sobretudo sobre a aristocracia guerreira constituída por esses poderosos grupos nômades que se apoiavam as pretensões dos xaibanitas à liderança e ao estatuto de nobreza entre os becritas. A posição predominante dos xaibanitas entre os becritas é refletida tanto pela literatura genealógica quanto pelos relatos dos Dias Árabes e, posteriormente, pelas narrativas da conquista do Iraque. Donner considera que, no tempo de Maomé, sua reputação de poder militar se tornara praticamente proverbial entre os árabes do norte. Um relato atribuído a Aluaquidi afirma que, após a Conquista de Meca, quando Maomé saiu da cidade à frente de um exército de 12 mil homens, um de seus seguidores teria expressado confiança no tamanho da força observando que nem mesmo um encontro com os Banu Xaibane seria motivo de preocupação. Para Donner, o episódio, independentemente de seu valor literal, ilustra como os xaibanitas haviam se tornado uma referência de poderio militar entre os árabes do norte no início do . Bianquis observa que essa reputação guerreira já acompanhava a tribo durante a Jailia e persistiu nos primeiros séculos islâmicos, juntamente com a fama pela qualidade de seus poetas e pelo emprego de uma forma particularmente pura da língua árabe.
A liderança interna da tribo parece ter se concentrado, nas décadas imediatamente anteriores ao Islã, nos hamamitas, do ramo dulita. A literatura genealógica destaca-os como o clã dominante dos xaibanitas, e os relatos dos Dias Árabes indicam que sua proeminência já estava estabelecida no período pré-islâmico; a tradição genealógica também incluía hamamitas, mualimitas, aburrebiaítas e murraítas entre os principais ramos da tribo. Membros dos hamamitas são apresentados comandando xaibanitas ou contingentes becritas em numerosos confrontos tribais, entre eles os , , , , , , , , , , , , e . Um membro do mesmo ramo, , teria negociado o fim da prolongada Guerra de Albaçus entre os becritas e taglibitas, e relatos relativos ao período imediatamente posterior apresentam ou seu irmão como chefe dos becritas. A posição dos hamamitas, contudo, não era incontestada. Seus principais concorrentes pela liderança dos xaibanitas eram os aburrebiaítas, cujos membros também aparecem comandando a tribo em diferentes episódios dos Dias Árabes, entre eles Zuairaine, Aluzala e Algabite. Os mualimitas constituíam outro ramo aristocrático e são explicitamente descritos numa fonte como integrantes da nobreza (axerafe) xaibanita no período pré-islâmico. As fontes chegam a divergir sobre se o comando dos xaibanitas no pertenceu a um membro dos aburrebiaítas ou dos mualimitas. Donner conclui que os hamamitas constituíam o principal grupo dirigente pouco antes do surgimento do Islã, mas que os aburrebiaítas e, provavelmente, os mualimitas conservavam prestígio suficiente para disputar a chefia tribal. É possível que estes dois últimos grupos tivessem liderado segmentos dos xaibanitas em período anterior e fossem posteriormente superados pelos hamamitas, embora Donner ressalte que essa reconstrução permanece hipotética; a rivalidade registrada entre os aburrebiaítas e os murraítas, ramo ao qual pertenciam os hamamitas, nos relatos do pode refletir essa competição entre linhagens.
No plano religioso, os xaibanitas não formavam um grupo homogêneo. Segundo Demircan, a grande maioria da tribo ainda praticava cultos árabes tradicionais à época do surgimento do Islã, mas o cristianismo miafisita havia penetrado diferentes segmentos dos becritas, e há indícios de sua presença em pelo menos dois dos principais ramos aristocráticos dos xaibanitas. Um cristão dos mualimitas permaneceu fiel à sua religião mesmo após o advento do Islã, enquanto o célebre chefe , dos hamamitas, também era cristão. Para Donner, esses exemplos demonstram que o cristianismo havia estabelecido pelo menos uma presença significativa entre esses dois importantes clãs xaibanitas. Bistame, além de chefe tribal, destacou-se como guerreiro e poeta e figura entre as personalidades xaibanitas mais conhecidas da Jailia. A posição política dos xaibanitas no final do período pré-islâmico foi profundamente condicionada por sua proximidade com o Império Sassânida e com os lácmidas de Hira, seus reis clientes árabes. Segundo Demircan, após a Guerra de Albaçus, por volta de 525, os xaibanitas, assim como outros ramos becritas, ficaram submetidos à autoridade lácmida. Donner observa que, ao menos até o início do , os principais clãs xaibanitas mantiveram estreitas relações com lácmidas e sassânidas, provavelmente cultivadas por ambos como meio de conservar uma tribo militarmente poderosa dentro de sua esfera de influência. Essas relações eram particularmente fortes entre os hamamitas. Anre ibne Xarrique, chefe desse ramo, teria comandado a força policial dos lácmidas, enquanto Xarrique ibne Matar gozava de grande influência junto ao rei lácmida . Os dulitas, ramo mais amplo ao qual pertenciam os hamamitas, também parecem ter estabelecido vínculos matrimoniais com a dinastia de Hira. Outro exemplo dessas relações foi , dos hamamitas. Depois de anteriormente ter realizado incursões no Sauade iraquiano e sido derrotado pelos persas, recebeu do xá benefícios nas proximidades de Alubula, sob a condição de manter sua tribo sob controle em benefício do soberano sassânida. Caice parece ter conservado essa posição durante a primeira década do , até a Batalha de Di Car, travada por volta de 611, após a qual foi aprisionado por Cosroes, talvez por não ter conseguido impedir que seus companheiros tribais participassem do confronto contra os sassânidas.