Abu Anre Axaibani (), de nome Isaque ibne Mirar (; c. 719–825/8), foi um filólogo, lexicógrafo e transmissor de poesia árabe, considerado um dos principais representantes da Escola de Cufa no . Nascido nas proximidades de Cufa, estudou gramática com Abu Anre ibne Alalá e poesia com Almufadal Adabi, além de passar longos períodos entre os beduínos recolhendo diretamente material linguístico e poético. Mais tarde estabeleceu-se em Baguedade, onde ensinou até idade avançada.

Sua principal reputação deveu-se à atividade como rauia, coletor e transmissor da antiga poesia árabe. Abu Anre teria reunido a produção poética de mais de oitenta tribos, abrangendo material desde a Jailia até o , num vasto conjunto posteriormente conhecido como Kitāb Ashʿār al-qabāʾil. Embora essa coleção não tenha sobrevivido, foi amplamente utilizada por compiladores posteriores e contribuiu para a preservação da antiga tradição poética árabe. Abu Anre também se distinguiu pela interpretação das referências históricas presentes nos poemas e teve entre seus discípulos importantes filólogos e estudiosos, como , Ibne Aciquite, Ibne Salame Aljumai e Amade ibne Hambal.

Como lexicógrafo, dedicou-se especialmente às palavras raras e às particularidades dialetais das tribos cuja poesia recolhia. Sua única obra conservada, o Kitāb al-Jīm, constitui uma extensa reunião de vocabulário, expressões e testemunhos poéticos e é particularmente importante para o conhecimento dos antigos dialetos árabes. Abu Anre também transmitiu hádice e recebeu a atribuição de diversas outras obras filológicas e lexicográficas hoje perdidas. Sua atividade de coleta, organização e transmissão de materiais linguísticos e poéticos fez dele uma figura importante para a preservação e o estudo da língua e da poesia árabes antigas.

Vida e formação

Abu Anre Axaibani, de nome Isaque ibne Mirar, foi um filólogo, lexicógrafo e transmissor de poesia árabe, considerado um dos principais representantes da Escola de Cufa no . Era de ascendência iraniana por parte de pai e nabateia por parte de mãe e nasceu por volta de 100 A.H. (719) em Ramada, uma aldeia próxima de Cufa, onde passou a infância e grande parte da vida. Foi contemporâneo de importantes representantes da escola rival de Baçorá, entre eles Abu Ubaida e Alasmai. A origem de sua nisba Axaibani, que o associa aos xaibanitas, é explicada de diferentes maneiras pelas fontes. Segundo uma tradição, teria sido um liberto de um membro da tribo; outra atribui a nisba à sua atuação como preceptor de crianças confiadas pelo califa Harune Arraxide a Iázide ibne Maziade Axaibani. Kılıç considera esta última explicação pouco provável, pois as fontes relativas a Harune e seus filhos não incluem Abu Anre entre os mestres de Alamim e Almamune. A explicação considerada mais plausível relaciona a nisba à sua vizinhança com os Banu Xaibane e à atividade que exerceu na educação dos filhos de membros da tribo. Troupeau igualmente relaciona sua nisba à proximidade com os xaibanitas e ao trabalho como preceptor de alguns de seus filhos.

Sua formação reuniu elementos das tradições filológicas de Baçorá e Cufa. Estudou gramática com Abu Anre ibne Alalá e poesia com Almufadal Adabi, um dos principais representantes da escola cufana. Depois de estudar com os mestres de Cufa, passou períodos consideráveis entre os beduínos, estabelecendo contato com eles e recolhendo diretamente material linguístico e poético. Segundo uma anedota transmitida por , Abu Anre partia para o deserto levando dois recipientes de tinta e não regressava antes de esgotá-los, relato destinado a ilustrar a quantidade de material que recolhia. Durante o califado de Harune Arraxide, transferiu-se de Cufa para Baguedade, onde permaneceu até o fim da vida e continuou a ensinar em idade avançada. Entre seus discípulos estiveram , Ibne Aciquite e Ibne Salame Aljumai, além de estudiosos como Amade ibne Hambal e . As fontes concordam que viveu excepcionalmente muito, atribuindo-lhe entre noventa e 119 anos. Kılıç considera mais provável que tenha morrido em 213 A.H. (828), embora também sejam transmitidos os anos de 205 (820), 206 (821), 210 (825), 215 (830) e 216 (831); Troupeau situa sua morte aproximadamente em 210 (825), quando já teria mais de cem anos.

Coleta e transmissão da poesia

Abu Anre alcançou particular reputação como rauia (), isto é, coletor e transmissor da antiga poesia árabe. Segundo seu filho Anre, reuniu a poesia de mais de oitenta tribos árabes; pai e filho teriam copiado e organizado o material em coleções que foram posteriormente depositadas na mesquita de Cufa. Kılıç identifica esse grande conjunto como o Kitāb Ashʿār al-qabāʾil ("Livro das poesias das tribos"), no qual cada tribo ocupava um volume próprio e cujo material abrangia desde a Jailia até aproximadamente meados do . A obra não chegou à atualidade, mas foi amplamente utilizada pelos estudiosos que posteriormente compilaram e organizaram a antiga poesia árabe. Sua atividade não se limitava à simples reunião de poemas. Segundo Kılıç, Abu Anre selecionava o material coletado e transmitia aquilo que considerava confiável, conquistando entre contemporâneos e estudiosos posteriores reputação pela precisão de seus registros e transmissões. Alasmai considerava-o, com exceção de Abu Ubaida, superior aos demais estudiosos e literatos contemporâneos na interpretação das alusões a acontecimentos históricos presentes na poesia antiga. Embora tenha sido acusado de transmitir como autênticos alguns poemas espúrios, as fontes utilizadas por Kılıç apresentam-no predominantemente como transmissor cuidadoso e digno de confiança.

Lexicografia e obras

Ao lado da transmissão poética, Abu Anre destacou-se como lexicógrafo, dedicando especial atenção às palavras raras e ao vocabulário dialetal das diferentes tribos árabes. Sua única obra conservada é o Kitāb al-Jīm, também referido nas fontes pelos títulos Kitāb al-Ḥurūf e Kitāb al-Lughāt. Kılıç observa, contudo, que algumas obras biográficas tratam esses títulos como livros independentes e que, como apenas o Kitāb al-Jīm sobreviveu, não é possível determinar com segurança se designavam uma única obra ou trabalhos distintos. O Kitāb al-Jīm contém grande quantidade de vocabulário, expressões, nomes de poetas e versos provenientes de diferentes tribos, incluindo material que Abu Anre aparentemente retirou de sua própria coleção de poesia tribal. Kılıç considera provável que a obra tenha sido concebida em parte como um léxico das palavras raras encontradas nesses poemas. Troupeau igualmente a caracteriza como um dicionário particularmente rico para o conhecimento dos antigos dialetos árabes e relaciona seu conteúdo às numerosas tribos cuja poesia Abu Anre havia recolhido. Segundo ele, embora o título tradicional seja Kitāb al-Jīm, Krenkow propôs, com base no único manuscrito conservado no Escorial, a leitura Kitāb al-Ḥurūf wa-l-Lughāt.

A obra organiza o vocabulário segundo a primeira letra radical das palavras, distribuindo-o em vinte e oito capítulos, de alif a yāʾ; dentro de cada capítulo, contudo, os vocábulos não seguem nova ordenação alfabética. Kılıç considera Abu Anre o primeiro estudioso árabe a empregar sistematicamente a primeira letra radical como princípio de ordenação lexical. Troupeau observa ainda que o exame do Lisān al-ʿArab indica que os lexicógrafos posteriores não utilizaram diretamente o Kitāb al-Jīm. Além de filólogo e lexicógrafo, Abu Anre é apresentado pelas fontes como transmissor de hádice. Entre os que frequentaram suas aulas esteve Amade ibne Hambal, que registrou tradições transmitidas por ele. Troupeau menciona ainda uma obra intitulada Kitāb Gharīb al-ḥadīth, transmitida por Amade sob sua autoridade, embora algumas fontes atribuam esse e outros títulos tanto a Abu Anre quanto a seu filho Anre. Entre suas obras perdidas são ainda mencionados Kitāb al-Nawādir al-kabīr, Kitāb al-Ibil, Kitāb Khalq al-insān, Kitāb Sharḥ al-Faṣīḥ e Kitāb al-Nakhla, além do monumental Kitāb Ashʿār al-qabāʾil.

Bibliografia

Categoria:Iranianos do século VIII Categoria:Iranianos do século IX Categoria:Xaibanitas Categoria:Pessoas do Califado Abássida