thumb|300px|Pilha de crânios de bisontes-americanos à espera de serem triturados para uso como fertilizante. Os bisontes quase foram extintos no fim do século XIX devido à caça predatória, mas graças a uma série de programas de conservação a espécie se recuperou e já não se encontra ameaçada.Bergman, Brian. "Bison, Back from Brink of Extinction". In: The Canadian Encyclopedia, 16/02/2004
O declínio contemporâneo da biodiversidade mundial é um fenômeno que envolve a extinção ou significativa redução populacional de inúmeras espécies selvagens, bem como a destruição de ecossistemas em larga escala, e em anos recentes tem sido especialmente dramático na longa história da degradação ambiental causada pelo homem.
Os efeitos danosos da ação humana sobre a vida natural são antigos. Começaram a surgir na pré-história, se aprofundaram a partir da consolidação das civilizações e continuam a se fazer notar com impacto crescente, em particular desde fins do séculos XIX, quando a industrialização se intensificou e a população do mundo começou a se expandir exponencialmente. De fato, as causas básicas para o declínio são a explosão demográfica, impondo cada vez maior pressão sobre os ambientes e os recursos naturais, e um modelo de civilização e desenvolvimento caracterizado pela insustentabilidade, explorando agressiva e abusivamente a natureza. Isso é a origem das causas imediatas para as perdas, entre as quais estão a degradação de ecossistemas, a caça e pesca predatórias, a poluição e outras perturbações, que agem interativamente potencializando seus efeitos.
A biodiversidade íntegra e sadia é a fonte dos serviços ambientais oferecidos pela natureza, e que são vitais para a sociedade humana em uma infinidade de maneiras — como por exemplo provendo sustento, fertilizando os solos e protegendo-os da erosão, purificando as águas e o ar, regulando as chuvas e o clima em geral, fornecendo energia e uma multiplicidade de outros materiais e substâncias úteis — sem os quais a vida humana seria impossível. Também muito amiúde animais e plantas carregam fortes associações espirituais, folclóricas, artísticas e éticas com o homem, que lhes atribuiu ou encontrou neles poderes, inteligência, beleza, e mesmo sabedoria, e os reproduziu em sua arte, os viu em seus sonhos e falou com eles, aprendendo mistérios, e até os adorou como deuses. Disso deriva que o declínio da biodiversidade deve necessariamente prejudicar, como já prejudica, as pessoas de todo o mundo, seja direta ou indiretamente, em termos econômicos, políticos, culturais e sociais, e representa uma das maiores ameaças ambientais que o mundo hoje enfrenta, comprometendo também o futuro das novas gerações.
Muitos programas e acordos internacionais, nacionais e regionais já foram lançados para tentar reverter esse quadro altamente preocupante, com destaque para o estabelecimento da Convenção sobre a Biodiversidade como o principal fórum internacional de debates científicos, técnicos e políticos de alto nível, mas tem sido pouco diante da gravidade do problema, que piora a cada dia, e que apenas em termos econômicos tem gerado prejuízos exorbitantes em escala global, chegando à casa dos trilhões de dólares anuais. A despeito disso, das amplas e sólidas evidências científicas já acumuladas, e mesmo com a considerável publicidade que o tema vem ganhando, a sociedade em geral ainda não percebeu ou não compreendeu devidamente o valor da biodiversidade, não apenas para a natureza em si, mas também para a civilização. Se esta situação não mudar rápido, segundo advertem de modo enfático as maiores autoridades no assunto, em um período de tempo relativamente exíguo o mundo enfrentará uma crise de proporções gigantescas e nunca vistas, cujos primeiros sinais já são auto-evidentes, sem garantia de que poderá ser revertida.
No entanto, segundo as avaliações disponíveis, os custos do combate ao problema, mesmo em aparência altos, são pequenos em relação aos seus benefícios no longo prazo, e espera-se que o entendimento desta perspectiva possa estimular as instâncias oficiais e as comunidades em geral para que enfrentem juntas mais decididamente um desafio criado pelo próprio homem e que precisa de uma abordagem objetiva, honesta, vigorosa e imediata.
Biodiversidade thumb|esquerda|A floresta amazônica é um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade.
Na definição da Convenção sobre a Biodiversidade (doravante nomeada CB - ver nota:Como informa o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, a Convenção sobre a Biodiversidade é a maior autoridade mundial em biodiversidade: "É um tratado da Organização das Nações Unidas e um dos mais importantes instrumentos internacionais relacionados ao meio ambiente. A Convenção foi estabelecida durante a notória ECO-92 – a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992 – e é hoje o principal fórum mundial para questões relacionadas ao tema. Mais de 160 países já assinaram o acordo, que entrou em vigor em dezembro de 1993.... A Convenção abarca tudo o que se refere direta ou indiretamente à biodiversidade – e ela funciona, assim, como uma espécie de arcabouço legal e político para diversas outras convenções e acordos ambientais mais específicos, como o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança; o Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e a Agricultura; as Diretrizes de Bonn" etc. ), biodiversidade é "a variabilidade entre organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte, compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas".Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica. Panorama da Biodiversidade Global 3, 2010, p. 15 O termo é também usado para se referir genericamente a todas as espécies e habitats de uma determinada região ou de todo o planeta.Secretariat of the Convention on Biological Diversity. "Chapter 1a: Status and Trends of Global Biodiversity". In: Global Biodiversity Outlook 1, 2001. Apesar da amplitude do conceito, ainda segundo a CB, de costume ele é mais empregado em relação ao número de espécies.Secretariat of the Convention on Biological Diversity. "Chapter 1b: Status and Trends of Global Biodiversity". In: Global Biodiversity Outlook 1, 2001.
Na perspectiva do tempo geológico, o processo de aparecimento de novas espécies ultrapassou o ritmo das extinções, com o resultado de o mundo ter hoje uma variedade de seres vivos ao que parece inédita na história do planeta, mas não é possível determinar quantas espécies existem na atualidade. Em primeiro lugar porque o conceito de espécie ainda é polêmico e mal delimitado, e, em segundo, porque as pesquisas já feitas conseguiram descrever ou estudar somente uma pequena proporção delas, permanecendo a maioria ainda não identificada ou mesmo inteiramente desconhecida, como prova a contínua "descoberta" de novas espécies pelos cientistas. As estimativas variam muitíssimo. A CB indica que cerca de 14 milhões de espécies podem estar vivendo na Terra; já os taxonomistas admitem até 100 milhões,Mora, Camilo et alii. "How Many Species Are There on Earth and in the Ocean?". In: PLOS Biology, 2011; 9 (8):e1001127 e a Avaliação Ecossistêmica do Milênio cita que é frequente os pesquisadores aceitarem a hipótese de existir até 30 milhões somente de espécies eucariotas (possuidoras de células com núcleo bem definido). Do total, qualquer que seja ele, apenas cerca de 2 milhões já foram descritas e nomeadas, sem que isso signifique que foram completamente estudadas em todos os seus aspectos biológicos e comportamentais. Destarte, o campo é infinito, e apenas começa a ser explorado pela ciência.Mace, Masundire & Baillie, pp. 88-113.
O declínio: síntese histórica e panorama atual
thumb|Exemplar empalhado da pomba-migratória, Royal Ontario Museum, Toronto. Em seu auge foi possivelmente a ave mais abundante do planeta, com uma população estimada em 3 a de indivíduos. Durante suas migrações, ao passarem pelas cidades, bandos de centenas de quilômetros de extensão escureciam os céus por dias inteiros. Em vista dessa vasta população, acreditava-se que jamais desapareceria, mas desapareceu em virtude da caça predatória e da rápida degradação do seu habitat pelo homem. O último bando, com cerca de 250 mil aves, foi exterminado em um único dia de caçada em 1896, deixando poucos sobreviventes, e o último exemplar conhecido morreu num zoológico em 1914, sem que sua reprodução fosse conseguida em cativeiro. A extinção da pomba-migratória se tornou uma das mais emblemáticas e dramáticas do processo de declínio da biodiversidade pela ação humana.The Writings of Audubon. Ulala.orgDepartment of Vertebrate Zoology, National Museum of Natural History in cooperation with Public Inquiry Services. "The Passenger Pigeon" . In: Encyclopedia Smithsonian. Smithsonian Institution, março de 2001Sullivan, Jerry. "The Passenger Pigeon: Once There Were Billions". In: Hunting for Frogs on Elston, and Other Tales from Field & Street. University of Chicago Press, 2004, pp. 210-213Lee, Paul A. In Memoriam, The Passenger Pigeon. EcoTopia.org
Extinções massivas de espécies e grandes declínios populacionais não são uma característica exclusiva de nosso tempo. A partir dos registros fósseis, acredita-se que na longa história da vida na Terra a maior parte das extinções ocorreu em um ritmo mais ou menos constante, permitindo definir uma média aproximada do tempo de vida de uma espécie, que oscilaria entre um e dez milhões de anos, mas aparentemente cinco grandes eventos pontuais levaram a imensas e rápidas perdas em biodiversidade, como o do período Permiano tardio, quando julga-se que desapareceram em torno de 90% das espécies do planeta. O episódio mais recente, apelidado "extinção K-T", ocorreu há aproximadamente 65 milhões de anos, sendo o mais popularmente conhecido, pois nele desapareceram os dinossauros. Enquanto que esses eventos foram sempre causados por fenômenos naturais cataclísmicos, o atual declínio acentuado, todavia, se deve apenas às atividades humanas.Lister, A. "Fifty Thousand Years of Extinction" In: PLOS Biology, 2011; 9(11):e1001186.
Desde que o homem surgiu na Terra vem impactando negativamente o meio ambiente, provocando o desmatamento, degradando os solos, disseminando espécies invasoras por toda parte e destruindo ecossistemas, entre outros problemas ambientais antropogênicos (causados pelo homem).FAO [Martin, R. M. (coord.)]. State of the World's Forests 2012, p. 22 À medida que se consolidavam e expandiam as civilizações sedentárias, os impactos passaram a ser mais acentuados, redefinindo-se ambientes inteiros graças às intervenções humanas. Um dos resultados mais graves dessas intervenções é a extinção de grande número de espécies em praticamente todas as categorias taxonômicas principais, fenômeno conhecido como a "extinção em massa do Holoceno", ou a "sexta grande extinção", que iniciou após a última glaciação, há cerca de 11 mil anos atrás, e que continua até os dias de hoje, com tendência à aceleração.Wake, David B. & Vredenburg, Vance T. "Are we in the midst of the sixth mass extinction? A view from the world of amphibians". In: Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, ago/2008; 105 (1 suppl.):11466-11473Barnosky, Anthony D. et al. "Has the Earth’s sixth mass extinction already arrived?". In: Nature, mar/2011; 471:51–57