Lélia Gonzalez (Belo Horizonte, 1 de fevereiro de 1935 — Rio de Janeiro, 10 de julho de 1994) foi uma intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira. É uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro no país. Ademais, foi pioneira em pesquisas sobre Cultura Negra no Brasil e co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ) e do Movimento Negro Unificado (MNU).

Lélia nasceu como Lélia de Almeida e, em 1964, adotou o sobrenome do marido Luiz Carlos Gonzalez, passando a se chamar Lélia de Almeida Gonzalez. Ela teve uma importante presença tanto na academia quanto no mundo político, tendo circulado por diversos espaços.

Ao longo de sua carreira publicou diversos artigos, livros e ministrou aulas, palestras e conferências abordando perspectivas interseccionais quando o conceito em si ainda não tinha sido criado, atuando contra o sexismo e o racismo na sociedade e cunhando conceitos como o de "Améfrica" "amefricanidade" e "pretuguês".

A estreia de Lélia Gonzalez no mercado editorial ocorre na década de 1960 com a tradução de textos filosóficos como o Volume II da coletânea Compêndio moderno de Filosofia. Entretanto, seu primeiro livro autoral foi Lugar de Negro, publicado em 1982, em parceria com Carlos Hasenbalg e apresenta um panorama histórico do modelo econômico de 1964, com a inserção da população negra neste cenário e o resgate histórico dos movimentos sociais negros. Em 1987, no livro "Festas Populares", Lélia Gonzalez registrou a diversidade das manifestações culturais brasileiras.

Início de vida Nascida Lélia de Almeida no dia 1º de fevereiro de 1935 na cidade de Belo Horizonte, era filha do ferroviário negro Accacio Serafim d’Almeida e da empregada doméstica e indígena Orcinda Serafim d’Almeida. Ela era a décima-sétima filha de 18 irmãos, entre eles o futebolista Jaime de Almeida, que jogou pelo Flamengo. A oportunidade de entrar para o clube que seu irmão recebeu foi o que permitiu que a família de Lélia se mudasse para o Rio de Janeiro em 1942 buscando melhores condições de vida. Ao chegar ao Rio, iniciou seus estudos na Escola Municipal Manoel Cícero, na Gávea.

No início de sua vida no Rio, Lélia trabalhou pela primeira vez como babá. Seguiu seus estudos em escolas públicas e em 1954 concluiu os ensinos no prestigiado Colégio Pedro II, tradicional instituição de ensino carioca. Sua qualidade educacional e anos de estudo mudaram o rumo de sua vida.

Carreira e trajetória Depois do colégio Lélia Gonzalez ingressou na Universidade, graduando-se bacharel em História e Geografia pela Universidade Estadual do Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e depois em Filosofia pela mesma instituição, trabalhando como professora da rede pública de ensino. Como professora de Ensino Médio no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (Cap-UERJ), nos anos finais da década de 1960, fez de suas aulas de Filosofia espaço de resistência e crítica político-social, marcando definitivamente o pensamento e a ação de seus alunos.

Fez seu mestrado em comunicação social. No doutorado se especializou em antropologia política/social dedicando suas pesquisas em gênero e etnia. Com os diplomas universitários, tornou-se professora de importantes estabelecimentos de ensino superior cariocas, públicos e privados, lecionando, por exemplo, Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Seu último cargo na instituição foi de chefia do departamento de Sociologia e Política. Lélia Gonzalez também chegou a estudar psicanálise é notável o crescente interesse nas última décadas em sua vida e obra, sobretudo, neste campo psicanalítico aprofundando-se nas obras do psicanalista francês Jacques Lacan.

Em 1976, tornou-se professora na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, convidada pelo diretor Rubens Gerchman, e lecionou o Curso de Cultura Negra.

Lélia foi pioneira em tudo que fez: ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Olodum. Ademais, atuou na mobilização de negros e negras rumo ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), na resistência à ditadura, na luta de negros brasileiros contra o Apartheid na África do Sul, na formulação de mulheres negras nas políticas públicas, a partir do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989, e na formulação de um pensamento que articulava gênero e raça, sobretudo no contexto latino-americano. Foi candidata a deputada federal pelo PT, não se elegendo, mas ficando como primeira suplente. Nas eleições seguintes, em 1986, candidatou-se a deputada estadual pelo PDT, novamente não se elegendo e ficando como suplente.

Em sua trajetória são fartas as experiências e colaborações com grupos culturais, artísticos e intelectuais. Em meados dos anos setenta, ela colaborou com o Grêmio Recreativo de Arte Negra e com a Escola de Samba Quilombo ao lado do mestre Candeia. Gonzalez participou também da formação do Colégio Freudiano no Rio de Janeiro, criado em 1975 por Magno Machado Dias e Betty Milan. Mais tarde, ela assessorou o cineasta Cacá Diegues em seu filme Quilombo (1984). Ela pertenceu a um terreiro de Candomblé no Rio de Janeiro e festejou o fortalecimento dos blocos afros e afoxés em Salvador, na Bahia.

Seus escritos, simultaneamente permeados pelos cenários da ditadura militar e da emergência dos movimentos sociais, são reveladores das suas múltiplas inserções e identificam sua constante preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros e, em especial das mulheres negras. Em seus textos, além de combinar saberes, Gonzalez adota um estilo peculiar, com uso de uma linguagem informal e irreverente para abordar esses conceitos. Sua voz ecoou pelo mundo, tornando-a uma referência internacional em diversas universidades e nas Nações Unidas.

Lélia de Almeida Gonzalez morreu no dia 11 de julho de 1994 aos 59 anos, vítima de um infarto, em sua casa no Cosme Velho, na cidade do Rio de Janeiro.

Atuação na Ditadura Militar A trajetória de Lélia Gonzalez durante o regime militar brasileiro (1964–1985) insere-se nas margens dos conflitos intelectual e ativista que questionava, por diferentes meios, os pilares ideológicos do autoritarismo. Formada em História e Filosofia, com pós-graduação em Antropologia, Lélia articulou sua produção acadêmica a partir de uma crítica contundente à ideologia da democracia racial e à neutralidade científica das ciências humanas, muito em voga nas universidades sob vigilância do governo. Sua atuação como professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) se destacou por transformar a sala de aula em espaço de resistência e formação crítica, mesmo diante da vigilância exercida por órgãos como o DOPS. Como mulher negra, sua prática docente tensionava os limites impostos pela censura e pelas estruturas raciais e de gênero silenciadas pelo Estado autoritário.

No final da década de 1970, Lélia Gonzalez foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), marco fundamental na reorganização das lutas negras no Brasil durante a abertura política. O MNU contestava a lógica estatal que desconsiderava o racismo como componente estrutural das desigualdades sociais brasileiras, justamente em um momento em que o regime militar tentava reconfigurar sua imagem diante da crise política e econômica. Ao lado dessa militância, Lélia colaborou com grupos culturais e agremiações populares como a Escola de Samba Quilombo, projetando um ativismo que articulava raça, cultura e política. Sua prática política ia além da denúncia: ela construiu uma epistemologia afro-brasileira própria, que se manifestava tanto em sua função quanto em sua produção teórica. Em Racismo e sexismo na cultura brasileira (1983), Gonzalez sistematiza sua crítica ao patriarcado e ao racismo como dimensões entrelaçadas da dominação. Através do conceito de “amefricanidade”, propôs uma identidade latino-americana centrada nas experiências e saberes das mulheres negras, subvertendo os paradigmas eurocêntricos do pensamento acadêmico e político. Sua atuação durante a ditadura e o processo de transição democrática consolidou um legado teórico e militante inescapável para os estudos sobre raça, gênero e poder no Brasil.

Nos anos 1980, com o avanço da redemocratização, Lélia Gonzalez passou a atuar em espaços institucionais como o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), levando à esfera do Estado a discussão sobre as especificidades da mulher negra, historicamente invisibilizada pelas agendas feministas hegemônicas. Em obras como Lugar de Negro (1982), em coautoria com Carlos Hasenbalg, e Racismo e sexismo na cultura brasileira (1983), Gonzalez sistematiza sua crítica ao patriarcado e ao racismo como dimensões entrelaçadas da dominação. Através do conceito de “amefricanidade”, propôs uma identidade latino-americana centrada nas experiências e saberes das mulheres negras, subvertendo os paradigmas eurocêntricos do pensamento acadêmico e político. Sua atuação durante a ditadura e o processo de transição democrática consolidou um legado teórico e militante inescapável para os estudos sobre raça, gênero e poder no Brasil.

Vida pessoal

Casamento: a Lélia Gonzalez Durante a década de 60, dentro do mundo universitário, Lélia de Almeida conheceu e se casou com Luiz Carlos Gonzalez, em 1964, de quem recebeu o sobrenome, o qual, por escolha, carregaria para toda a vida. Assim, passou a se chamar Lélia de Almeida Gonzalez.

Não obstante marcada por amor e cumplicidade, a relação também gerou grande trauma em sua vida: a rejeição da família de seu marido, de origem espanhola, que não admitia aquele laço conjugal. De acordo com a própria Lélia Gonzalez, quando a família soube da oficialização do casamento, a situação piorou. Luiz então rompeu as relações com seus parentes, mantendo-se com Lélia até tirar a própria vida, menos de um ano após o casamento. Sua morte abalou profundamente Lélia, que buscou apoio e autoconhecimento na psicanálise e no candomblé. Manter o sobrenome de seu marido serviu como uma forma de honra-lo e resistir ao racismo que ela sofreu.

Anos mais tarde ao ser entrevistada por uma agência de notícias nos Estados Unidos, Lélia Gonzalez falaria sobre: “No Brasil é aceitável que um homem branco tenha um caso com uma mulher negra, mas casamento é outro assunto. Quando eles descobriram que nos casamos, ficaram furiosos. Me chamaram de preta suja. Era isso que eu tinha me tornado aos olhos deles, apesar da minha educação, apesar da minha posição.” (Gonzalez, 2020 a, p. 283-4).

Maternidade Dentre suas irmãs Lélia tinha particular afinidade com uma, Dora. Esta casou-se e teve três filhos. Mesmo após a separação do marido ela ainda engravidou de um quarto filho. Neste momento, sendo uma mulher negra separada nos anos 60, cogitou desistir da gravidez, mas Lélia ajudou e apoiou sua irmã. Consequentemente a criança acabou se tornando seu único filho, Rubens Rufino, ao lado de Luiz Gonzalez.Rubens foi o responsável por datilografar a obra de Lélia: manifestos, cartas, artigos, palestras e panfletos. Também foi idealizador do Projeto “Lélia Gonzalez Vive”, que busca preservar e manter vivo o legado de sua mãe. Em entrevista, disse: "eu sou o filho que biologicamente ela não teve, mas sou o filho que tinha que nascer para ela. Eu tenho o privilégio de ter duas mães".

Recepção e influência