O pancurônio, administrado clinicamente na forma de brometo de pancurônio, é um bloqueador neuromuscular não despolarizante de longa duração pertencente ao grupo dos aminosteroides. Atua na junção neuromuscular, produzindo relaxamento e paralisia da musculatura esquelética.
Na medicina, é utilizado como adjuvante da anestesia geral, para facilitar a intubação traqueal e proporcionar relaxamento muscular durante cirurgias ou ventilação mecânica. O pancurônio não produz perda de consciência nem analgesia, motivo pelo qual sua administração deve ser acompanhada de anestesia ou sedação adequadas.
O uso clínico do pancurônio diminuiu após a introdução de bloqueadores neuromusculares de duração intermediária, como vecurônio, rocurônio, atracúrio e cisatracúrio. Entre os fatores associados a essa substituição estão sua longa duração de ação e sua eliminação predominantemente renal.
Propriedades químicas
O pancurônio é um composto de amônio bisquaternário derivado de uma estrutura esteroidal. Sua fórmula molecular é C35H60N2O4 e sua massa molecular é de aproximadamente 572,86 g/mol. O brometo de pancurônio, utilizado nas formulações farmacêuticas, apresenta dois íons brometo associados ao cátion de pancurônio.
Mecanismo de ação
O pancurônio atua como antagonista competitivo da acetilcolina nos receptores nicotínicos de acetilcolina localizados na placa motora. Sua ligação aos receptores impede a abertura dos canais iónicos e a despolarização da membrana muscular, interrompendo a transmissão neuromuscular e produzindo paralisia flácida.
Como não atravessa de forma significativa a barreira hematoencefálica, não possui efeito conhecido sobre a consciência, a percepção da dor ou outras funções cerebrais. A recuperação do bloqueio pode ocorrer espontaneamente ou ser favorecida por inibidores da acetilcolinesterase, como neostigmina, piridostigmina e edrofônio, geralmente administrados com um agente antimuscarínico.
Usos médicos
O brometo de pancurônio é administrado por via intravenosa como adjuvante da anestesia geral. Suas indicações incluem facilitar a intubação traqueal e manter o relaxamento da musculatura esquelética durante procedimentos cirúrgicos ou ventilação mecânica.
Por causar paralisia dos músculos respiratórios, deve ser administrado por profissionais com experiência no uso de bloqueadores neuromusculares. Equipamentos para intubação, ventilação artificial e oxigenoterapia devem permanecer disponíveis durante sua utilização. O grau do bloqueio e a recuperação podem ser avaliados por meio da estimulação de nervos periféricos.
Farmacocinética
A meia-vida de eliminação do pancurônio situa-se entre 89 e 161 minutos. Aproximadamente 40% da dose administrada é recuperada na urina na forma inalterada ou como metabólitos, enquanto cerca de 11% é eliminada pela bile. O principal metabólito ativo é o 3-hidroxipancurônio, que apresenta aproximadamente metade da atividade bloqueadora do composto original.
Em pessoas com insuficiência renal, a meia-vida de eliminação pode duplicar e a depuração plasmática pode ser reduzida em cerca de 60%, prolongando a recuperação do bloqueio neuromuscular. Alterações hepáticas ou obstruções das vias biliares também podem aumentar a duração do efeito.
Efeitos adversos e precauções
O principal risco associado ao pancurônio é o prolongamento do bloqueio neuromuscular além do período necessário. Esse efeito pode variar de fraqueza muscular residual até paralisia profunda, insuficiência respiratória e apneia. O uso prolongado em unidades de terapia intensiva também foi associado a casos de paralisia e fraqueza muscular persistentes.
Entre seus efeitos cardiovasculares estão elevações moderadas da frequência cardíaca, da pressão arterial média e do débito cardíaco. Também foram relatadas, com menor frequência, erupções cutâneas, broncoespasmo, hipotensão e reações de hipersensibilidade. Reações anafiláticas graves e potencialmente fatais foram registradas após o uso de bloqueadores neuromusculares, incluindo o pancurônio.
Pessoas com miastenia gravis, síndrome miastênica de Lambert–Eaton, doenças renais, hepáticas ou biliares podem apresentar respostas mais intensas ou prolongadas ao medicamento.
Uso em protocolos de execução
O brometo de pancurônio foi utilizado historicamente em protocolos de injeção letal nos Estados Unidos. Entre 2001 e 2003, as execuções realizadas pelo governo federal utilizaram uma sequência composta por tiopental sódico, brometo de pancurônio e cloreto de potássio. O protocolo federal foi posteriormente substituído por um método baseado em um único medicamento.
Nessa sequência, o pancurônio funcionava como agente paralisante, suprimindo os movimentos da musculatura esquelética e interrompendo a respiração pela paralisia do diafragma.
Referências
Categoria:Acetatos (ésteres) Categoria:Relaxantes musculares de ação periférica Categoria:Brometos Categoria:Bloqueadores neuromusculares Categoria:Compostos para injeção letal Categoria:Antagonistas nicotínicos