A filosofia do tempo, muitas vezes indissociada do conceito de espaço como filosofia do espaço e do tempo, é o ramo da filosofia preocupada com as questões que envolvem a ontologia, epistemologia e caráter do tempo e do espaço. Embora essas ideias tenham sido centrais para a filosofia desde o seu início, a filosofia do espaço e do tempo foi uma inspiração e um aspecto central da filosofia analítica inicial. O assunto enfoca uma série de questões básicas, incluindo se o tempo e o espaço existem independentemente da mente, se existem independentemente um do outro, o que explica o fluxo aparentemente unidirecional do tempo, se existem outros momentos além do momento atual e perguntas sobre a natureza da identidade (particularmente a natureza da identidade ao longo do tempo).

Registros mais antigos sobre o tempo A filosofia ocidental do tempo registrada mais antiga foi exposta pelo pensador egípcio antigo Ptahotep (c. 2650–2600 a. C.), que disse: Os Vedas, os primeiros textos sobre filosofia indiana e filosofia hindu, datados do final do segundo milênio a. C., descrevem a cosmologia hindu antiga, na qual o universo passa por repetidos ciclos de criação, destruição e renascimento, com cada ciclo durando 4.320.000 anos. Extract of page 225

Os incas consideravam o espaço e o tempo como um conceito único, chamado pacha (, )Atuq Eusebio Manga Qespi, Instituto de lingüística y Cultura Amerindia de la Universidad de Valencia. Pacha: un concepto andino de espacio y tiempo. Revísta española de Antropología Americana, 24, pp. 155–189. Edit. Complutense, Madrid. 1994Stephen Hart, Peruvian Cultural Studies:Work in ProgressPaul Richard Steele, Catherine J. Allen, Handbook of Inca mythology, p. 86, ()

Nas teogonias e cosmovisões dos povos do Oriente Próximo e Médio, a ação do tempo começou a ser personificada em deuses próprios e descrita em narrativas sobre a criação e ordenação do universo, muitas vezes designando-lhes na arqueoastronomia como os responsáveis pelo movimento celeste e ciclos regulares como as estações, além de intervenções providenciais divinas ao longo da temporalidade e eras. No Egito Antigo, Ré era considerado Senhor da Eternidade e representante do movimento do Sol, e, na ogdóade, Thoth era associado às fases lunares e ciclos, portanto ao tempo. Entre os fenícios, Moco de Sídon, cita um deus Oulomos, que é associado ao grego Chronos como tempo primordial e cujo nome participa da raiz proto-semítica do termo hebraico olam, tempo remoto. Na Índia Védica, também havia narrativa associando Kala e Prajapati a respectivamente o Tempo primordial e, o segundo, sua progênie como ordenador do universo, e entre os persas, o conceito pode ser encontrado na entidade Zurvan. As influências semíticas dos canaanitas (Fílon de Biblos equivale El a Kronos), egípcios e possivelmente as dos persas foram transmitidas às teogonias gregas, aparecendo na cosmogonia órfica. Nela, um ovo cósmico primordial, junto a Caos e Éter, foram formados pelo Tempo, que, representado como uma serpente em volta do Ovo, apertou-o até que quebrasse. A noção de ovo cósmico é presente também em outras tradições e repercutiu como nome original da teoria do Big Bang de Georges Lemaître.De fato, o Tempo (Χρόνος), aquele que nunca entra em decadência, de conselho imortal, gerou Aither e um vasto Abismo aberto deste lado e daquele, e um pequeno depois ... Grande Chronos (Tempo) moldou no divino Éter um ovo branco brilhante. —fragmentos órficos 66 e 70Sempre florescente, pai de deuses abençoados e também dos homens, Tu de conselho engenhoso, puro, grande em força, poderoso Titã, Tu que consomes tudo e por ti mesmo fazes crescer novamente, Tu que seguras tuas correntes inquebráveis sobre o infinito cosmo, Kronos, todo-gerador do tempo, Kronos de pensamento engenhoso. —Hino Órfico a KronosNa mitologia grega, desenvolveu-se uma dicotomia entre os deuses Cronos (em grego, com K) e Chronos, conforme aparece por exemplo na cosmogonia de Ferécides de Siro e no orfismo. Ambos representaram também o duplo aspecto do tempo como conservador - Cronos para a não-temporalidade e a eternidade, enquanto protege o Céu e reserva os deuses em seu ventre como "devorador"; e Chronos, como portador dos eventos em seu desenrolar no tempo, tornando-os à destruição na mudança. Chronos era também figurado como uma cobra, animal associado a deuses do rio, porque serpentes podem nadar na correnteza, o que também pode simbolizar o fluxo do tempo, além de serem símbolos da saúde e eternidade.

Os deuses gregos estariam envolvidos em um tempo imperecível. No tempo, pois estão sujeitos à mudança (nascem e crescem); na imperecibilidade, pois estão no tempo desde sempre e para sempre. Essa ideia corresponde à visão grega do tempo que costuma expressar as noções de sucessão e mudança, da corrupção das coisas no tempo. A passagem desse tempo seria cíclica, não em repetições, mas em movimentos de mudança como as estações do ano. As ideias de início e de fim temporal inexistiam para os gregos, para quem o mundo e os deuses existem desde sempre.Vidal-Naquet, Pierre. DIvine and Human Time. Black Hunter, 1986, pp. 39-60.

A Teogonia expressa a noção de que história divina tem uma direção orientada por Zeus. Nesse contexto, os humanos tem de somente viver o tormento que o tempo os impõem - nascer, envelhecer, morrer. Como o homem é efêmero, tem sua condição de existência ligada ao tempo que é cíclico de modo a orientá-lo, trazendo sempre as mesma estações e mudanças. Essa noção é também expressa na Ilíada:Símile as folhas é a geração dos homens, o vento faz cair as folhas sobre a terra. Verdecendo, a selva enfolha outra mais, vinda a primavera. Assim é a linhagem dos homens: nascem e perecem. (Ilíada, canto 6, 128-129)Na Ilíada há a expressão da ideia de que os deuses controlariam o espaço e o tempo humano. Os deuses não saberiam o que significa experienciar o tempo, pois as forças do universo não se aplicariam a eles. Porém, durante a história da Guerra de Tróia, na qual deuses do Olimpo participam, eles estariam sujeitos a uma certa aproximação do tempo humano. Isso aconteceria toda vez que um Deus cai em batalha, ficando preso em um momento de queda que seria semelhante ao momento da morte de um soldado. Ainda assim, como o Deus é imortal, não pode sofrer o mesmo destino humano, mas chega o mais perto possível de ter a experiência da morte: ficar brevemente suspenso no tempo. Ou seja, para um Deus, ter a experiência do tempo humano (que traz mudanças e envelhecimento) seria estar quase em uma situação de mortalidade. Para Zeus, isso seria um sinal positivo, pois como controlador do tempo e espaço humano, ter a possibilidade de levar um Deus para perto da mortalidade seria uma punição possível de impor e, logo, reafirmar seu poder.Purves, Alex. Falling into time in Homer's Iliad. Classical Antiquity

Vol. 25, No. 1 (April 2006), pp. 179-209 (31 pages). Published By: University of California Press

Antiguidade

Filosofia Grega Os conceitos cosmogônicos foram incorporados depois na filosofia dos gregos antigos; Anaximandro considera a ação cósmica do Tempo: "A fonte do vir-a-ser para as coisas existentes é aquela na qual a destruição, também, ocorre de acordo com a Necessidade; pois elas pagam multa e retribuição umas às outras por sua injustiça de acordo com a aferição do Tempo".Anaximandro. Fragmento A9. Parmênides e Heráclito, escreveram ensaios sobre a natureza do tempo.Dagobert Runes, Dictionary of Philosophy, p. 318 Heráclito enfocou em seus fragmentos o fluxo do tempo nos fenômenos mutáveis, do devir ou vir-a-ser, afirmando que nada persiste, salvo o próprio fluxo e o logos que o rege em unidade:É possível fazer uma leitura sobre o tempo nos poucos fragmentos que restam de Parmênides. Não há, até hoje, porém, uma interpretação que de conta de explicar toda a sua cosmogonia. Em seu poema, Parmênides expõem que a Deusa indica dois caminhos: o que é ( caminho da verdade) e o que não é (caminho da mentiras e da opinião dos mortais). Parece propor um Ser eterno imutável, fora da temporalidade, rejeitando que aquilo que verdadeiramente é/existe poderia tornar-se ou sofrer mudança.Palmer. Parmenides. Stanford Encyclopedia od Philosophy, 2016. https://plato.stanford.edu/entries/parmenides/"Aquilo que é nunca foi e nunca será, uma vez que é agora, todo junto, um, contínuo. Pois qual nascimento você buscará dele [do ser]? Como e de onde ele cresceu? Não permitirei que você diga nem pense do não-ser; pois não se pode dizer nem pensar que ele [o ser] não é: e que necessidade o teria acionado mais tarde ao invés de antes, começando a crescer do nada? Portanto, ele deve ser completamente ou não ser absolutamente nada ... E como poderia aquilo que é ser no futuro? Como poderia vir a ser? Pois, se ele veio a ser, ele não é: nem ele é se algum dia será no futuro. Portanto o vir a ser está extinto e não se ouve falar do perecer." —Poema de ParmênidesPlatão, no Timeu, identificou o tempo com o período de movimento dos corpos celestes e o espaço como aquilo em que as coisas acontecem, seguindo a linha mitológica que associava os deuses à astronomia e alegorizava ideias abstratas. Em sua Teoria das Ideias, ele identificou os fenômenos mutáveis da temporalidade no mundo sensível como o tornar-se, imagens transitórias que são manifestações das Ideias eternas, como parte do Ser permanente além do tempo. No seu diálogo Parmênides ele aborda o ser no tempo e os conceitos de kinesis e stasis para descrever seu movimento e permanência. Ele aborda também o conceito de tempo e espaço em relação ao Um, retomando o apeiron (ilimitado) e limite (peras) de Anaximandro e Melisso.