Eugênio Gudin Filho (AFI: /gudã/; Rio de Janeiro, – Rio de Janeiro, ) foi um engenheiro civil, economista e professor brasileiro, considerado precursor do ensino universitário de economia no país. De orientação liberal e adepto da ortodoxia monetária, tornou-se uma das vozes mais influentes do debate econômico brasileiro no .A formulação do pensamento liberal na América Latina em perspectiva comparada: o pensamento econômico de Eugênio Gudin (Brasil), Martinez de Hoz (Argentina) e Sergio de Castro (Chile) Chefiou o Ministério da Fazenda entre agosto de 1954 e abril de 1955, na presidência de Café Filho.Fausto Saretta, 2003. "A política econômica no período 1954/1955: algumas notas," Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas, ABPHE.

Ao longo de quase trinta anos comandou a Great Western of Brazil Railway, tendo sido também dirigente da Western Telegraph Co. (1929–1954). Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde atuou desde os anos 1940, liderou a criação do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) e da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) e ocupou a vice-presidência da entidade de 1960 a 1976. Representou o Brasil na Conferência de Bretton Woods em 1944 e serviu como governador brasileiro no FMI e no BIRD entre 1951 e 1955.KELLER, Vilma. Verbete "GUDIN, Eugênio". Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB). Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), Fundação Getulio Vargas.

Origens e formação

Nascido no Rio de Janeiro em , quando a cidade ainda era a capital imperial, Gudin era neto de comerciantes franceses radicados no país desde 1839. Seu pai, Manuel Eugênio Gudin — sócio de uma casa importadora —, casou-se com Carola Fontes Gudin, que morreu precocemente. Órfão de mãe, o menino foi criado inicialmente pela madrinha Ana Machado e, a partir dos seis anos, pela madrasta Elvira de Figueiredo Gudin.

Estudou no Colégio Abílio (1894) e no internato Brasileiro-Alemão, em Petrópolis, completando os preparatórios no Ginásio Fluminense em 1899. Ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde concluiu engenharia civil em 1905 como primeiro da turma, agraciado com a medalha Gomes Jardim.

Carreira de engenheiro

Em 1906 começou a trabalhar para a Light & Power na construção da represa de Ribeirão das Lajes, que abasteceria de eletricidade a capital federal. No ano seguinte passou à firma Dodsworth & Cia., atuando na canalização do rio Carioca durante as reformas urbanas do prefeito Francisco Pereira Passos; logo tornou-se sócio do empreendimento.

Transferido para o Ceará em 1910, chefiou a construção da represa de Aracape (concluída em 1913 e que, em 1959, receberia seu nome). Seguiu então para Pernambuco, onde implantou a malha de bondes elétricos de Recife e ajudou a organizar a Pernambuco Tramways and Power Co., concessionária anglo-brasileira dos serviços de transporte, energia, gás e telefone do estado. Permaneceu à frente dessa empresa até 1922.

Transição para a economia

Primeiros escritos

De volta ao Rio de Janeiro, Gudin passou a dirigir a Great Western of Brazil Railway Co., cargo que manteve por cerca de três décadas. Nesse período, tornou-se um defensor convicto do modal ferroviário e da navegação de cabotagem. Paralelamente, dedicou-se ao estudo autodidata da economia, mergulhando nas obras de Adam Smith, David Ricardo e Alfred Marshall.

A amizade com Assis Chateaubriand, cultivada nos anos em Pernambuco, abriu-lhe espaço no jornal O Jornal, adquirido pelo empresário em 1924. Ali Gudin estreou como articulista econômico, escrevendo sobre política orçamentária, câmbio e estabilidade monetária. Após deixar O Jornal em 1926, colaborou no Correio da Manhã até 1954 e, a partir de 1958, passou a assinar coluna regular em O Globo.

Associações profissionais

Em 1927 foi eleito presidente da Associação das Companhias de Estradas de Ferro do Brasil, função que desempenhou por dez anos. Dois anos depois, assumiu a diretoria da Western Telegraph Co., onde permaneceu até 1954.

Atuação durante a Era Vargas (1930–1945)

Participação em órgãos consultivos

Embora não tenha se envolvido diretamente na Revolução de 1930 — de acordo com seu próprio relato posterior, por desinteresse pela política —, Gudin logo passou a colaborar com os conselhos econômicos do novo regime. Esses colegiados, que elaboravam pareceres e anteprojetos para as esferas decisórias, integravam o esforço de centralização administrativa do primeiro governo de Getúlio Vargas.

Sua primeira atuação nesse âmbito foi na Comissão de Estudos Financeiros e Econômicos dos Estados e Municípios (1931–1933), vinculada ao Ministério da Fazenda, na qual ficou responsável pelo diagnóstico da situação cearense. Simpatizante da Revolução Constitucionalista, colaborou em 1933 com a Caixa de Mobilização Bancária (Camob) do Banco do Brasil, cujo conselho de administração integraria de 1940 a 1944. Fez parte também da Comissão Mista de Reforma Econômica e Financeira (1935), chefiada pelo ministro Artur de Sousa Costa, encarregada de propor uma revisão tributária e um plano de reorganização das finanças públicas; o trabalho desse grupo resultou na Lei do Reajustamento de 1936, vigente até 1960.

Magistério e o Conselho Técnico

Em 1937, Gudin ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Economia Política, precursora de um ensino formal de economia na capital federal. Com a inauguração da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas em dezembro de 1938 — primeira instituição do gênero na então capital do país —, prestou concurso para a cadeira de moeda e crédito e tornou-se catedrático.

Naquele mesmo ano de 1937, ingressou no Conselho Técnico de Economia e Finanças (CTEF), órgão do Ministério da Fazenda instituído com o Estado Novo. O conselho tinha atribuições que iam da supervisão das finanças estaduais e municipais à emissão de pareceres sobre matéria tributária, bancária e monetária. Gudin colaboraria com o CTEF até 1960.

O confronto com Roberto Simonsen

O I Congresso Brasileiro de Economia, ocorrido no Rio de Janeiro em 1943 sob a coordenação de João Daudt d'Oliveira, reuniu 234 participantes do governo e da iniciativa privada, entre eles Gudin, Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi. Enquanto as resoluções do congresso apontavam para uma maior atuação estatal na coordenação da indústria, Gudin encabeçou a minoria que rejeitava o intervencionismo, propugnando a livre-iniciativa.

A divergência se aprofundou em 1944. Simonsen, porta-voz dos industriais no Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial (CNPIC), propôs a Vargas um programa de planejamento econômico voltado à industrialização. Para avaliar a proposta, o governo instalou a Comissão de Planejamento Econômico (CPE), vinculada ao Conselho de Segurança Nacional; Gudin foi designado relator.

O parecer, divulgado em março de 1945 e editado como livro sob o título Rumos de política econômica, opôs-se frontalmente ao projeto do CNPIC. Gudin nele propunha a retração gradual da intervenção estatal, a abertura irrestrita ao capital estrangeiro — com equiparação de tratamento em relação ao capital nacional — e a eliminação de barreiras à remessa de lucros ao exterior. No diagnóstico macroeconômico, apontava a inflação e o crescimento descontrolado dos meios de pagamento como as ameaças centrais, receituando austeridade fiscal e contenção do crédito. O embate entre Gudin e Simonsen tornou-se referência obrigatória na história do pensamento econômico brasileiro e teve ampla repercussão parlamentar e empresarial; a proposta industrialista acabou arquivada.

Conferência de Bretton Woods

Em julho de 1944, Gudin integrou a delegação brasileira na Conferência Monetária Internacional de Bretton Woods, nos Estados Unidos, que deliberou a fundação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Entre 1951 e 1955, ocupou o posto de governador brasileiro junto às duas instituições.

Formalização do ensino de economia

Por convite do ministro da Educação Gustavo Capanema, Gudin redigiu o projeto de decreto-lei que organizou os cursos superiores de economia no Brasil, sancionado em setembro de 1945. Um segundo decreto-lei, de janeiro de 1946, incorporou a Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas do Rio de Janeiro à Universidade do Brasil, criando a Faculdade Nacional de Ciências Econômicas, onde Gudin lecionou teoria monetária até aposentar-se em 1957. Seu manual Princípios de economia monetária (1943) conheceu sucessivas reedições e continuou a ser adotado em universidades do país por décadas.

Atuação na Fundação Getulio Vargas

A partir de 1946, Gudin organizou na Fundação Getúlio Vargas (FGV), fundada dois anos antes por Luís Simões Lopes, um núcleo de pesquisa econômica que se converteu, em 1947, no Núcleo de Economia. Composto por um grupo dedicado ao cálculo da renda nacional e outro à análise conjuntural, o núcleo realizou trabalhos inéditos no país: a montagem do sistema de contas nacionais, a produção de indicadores econômicos e a investigação do balanço de pagamentos brasileiro. Nesse ano começaram a circular a revista Conjuntura Econômica e a Revista Brasileira de Economia.

O crescimento das atividades levou, em 1951, à transformação do núcleo no Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), presidido por Gudin. Dentro do IBRE, funcionava um programa de capacitação de economistas que, em 1966, se tornou a Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE). Gudin chefiou o instituto até 1969 e ocupou a vice-presidência da própria FGV de 1960 a 1976, atraindo para seus quadros acadêmicos estrangeiros de prestígio.

Debate sobre o petróleo

Em 1947, o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) encarregou uma comissão presidida por Odilon Braga de rever a legislação nacionalista de 1938 sobre exploração petrolífera. O presidente Dutra nomeou uma Comissão de Investimentos para acompanhar os trabalhos, da qual faziam parte, além de Gudin, Oscar Weinschenck e o general Juarez Távora.

O anteprojeto resultante admitia capitais estrangeiros nas concessões de transporte e refino, desde que ao menos 60 % das ações com voto coubessem a brasileiros. Gudin considerou excessivas tais restrições, alertando que poderiam afastar investidores privados. Remetido ao Congresso em fevereiro de 1948, o texto — conhecido como Estatuto do Petróleo — acirrou o debate com os setores nacionalistas e impulsionou a Campanha do Petróleo, até ser retirado de tramitação por ordem de Dutra.

A polêmica reacendeu-se no segundo governo Vargas. Em outubro de 1953, foi sancionada a Lei nº 2.004, que criou a Petrobras e instituiu o monopólio estatal do petróleo — decisão duramente contestada por Gudin.

Ministro da Fazenda (1954–1955)

Contexto político

O segundo governo de Getúlio Vargas enfrentou crescente oposição, especialmente após o reajuste de 100 % do salário mínimo em maio de 1954. O conflito político agravou-se com o Atentado da Rua Tonelero, que vitimou o major-aviador Rubens Vaz e cujas investigações implicaram membros da guarda presidencial. Pressionado, Vargas tirou a própria vida na madrugada de 24 de agosto, gerando comoção nacional.

Nomeação e equipe

Empossado naquele mesmo dia, o vice-presidente João Café Filho montou um gabinete de perfil anti-getulista. Gudin recebeu a pasta da Fazenda e indicou, para postos-chave, dois aliados de orientação ortodoxa: Clemente Mariani na presidência do Banco do Brasil e Otávio Gouveia de Bulhões à frente da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc).

Programa de estabilização

O cenário herdado era de grave desequilíbrio: a tentativa de estabilização conduzida por Osvaldo Aranha fracassara, a inflação se acelerava e o balanço de pagamentos deteriorara-se desde meados de 1954, quando compradores norte-americanos passaram a boicotar o café brasileiro em resposta ao alto preço mínimo fixado pelo governo.