O acidente do K-152 Nerpa ocorreu a bordo do submarino russo K-152 Nerpa em 8 de novembro de 2008, resultando na morte de 20 pessoas e em ferimentos em outras 41. O acidente foi atribuído a um membro da tripulação que estaria supostamente mexendo no sistema de supressão de incêndio por acreditar que este não se encontrava operacional.

Gás halon foi descarregado no interior de dois compartimentos do submarino submerso durante as provas de mar da embarcação no Mar do Japão, asfixiando as vítimas ou causando congelamento em seus tecidos pulmonares. O elevado número de vítimas decorreu, em parte, da grande quantidade de civis a bordo que prestavam suporte aos testes antes do comissionamento. Três dos mortos eram militares da Marinha da Rússia e os demais eram funcionários civis dos estaleiros Vostok, Zvezda, Era e Amur.Ren TV, Moscou, 20h30min GMT, 10 de novembro de 2008. O incidente foi o mais letal desastre com submarino russo desde o naufrágio do Kursk em 2000.

Sequência de eventos No momento do acidente, o Nerpa realizava provas de mar no campo de testes da Frota do Pacífico russa no Golfo de Pedro, o Grande, uma enseada do Mar do Japão contígua à costa da província russa do Krai de Primorie. A embarcação ainda não havia sido comissionada pela Marinha Russa e passava por testes de fábrica sob a supervisão de uma equipe do estaleiro Amur. Por essa razão, contava com uma tripulação muito maior do que a habitual a bordo, totalizando 208 pessoas: 81 militares e 127 engenheiros civis dos estaleiros responsáveis pela construção e equipagem do submarino.

O acidente ocorreu às 20h30min (horário local) de 8 de novembro de 2008, durante a primeira navegação submersa de testes do submarino. O sistema de extinção de incêndio do submarino foi acionado, selando dois compartimentos de proa e enchendo-os com gás R-114B2 (dibromotetrafluoroetano, conhecido como khladon em russo). O gás, um fluido refrigerante do tipo haloalcano, é utilizado no sistema de supressão de incêndio LOKh (lodochnaya obyemnaya khimicheskaya – "químico volumétrico para submarinos") da Marinha Russa. Cada compartimento de um submarino russo contém uma estação LOKh a partir da qual o gás pode ser descarregado naquele mesmo compartimento ou nos compartimentos adjacentes.D. A. Romanov, Kenneth J. Moore; trad. Jonathan E. Acus. Fire at Sea: The Tragedy of the Soviet Submarine Komsomolets, p. 250. Brassey's, 2006. . O gás desloca o oxigênio e interfere quimicamente na combustão, permitindo extinguir incêndios com rapidez em espaços fechados. Em concentrações elevadas, pode provocar narcose, que progride em estágios de excitação, confusão mental, letargia e, em última instância, asfixia.

Vinte pessoas morreram por asfixia no acidente. O número de feridos foi inicialmente estimado em 21, mas foi posteriormente revisado para 41 pela Empresa de Construção Naval de Amur, cujos funcionários constavam entre os lesionados. Relatou-se que muitos dos feridos sofreram geladuras (queimaduras por frio) causadas pelo efeito refrigerante da descompressão do gás.

Após o incidente, o contratorpedeiro da classe Udaloy e a embarcação de resgate Sayany foram despachados de Vladivostok para prestar assistência ao submarino avariado. Os sobreviventes feridos foram transferidos para o contratorpedeiro e encaminhados a hospitais militares para tratamento, enquanto o submarino retornou por meios próprios ao Krai de Primorie. Segundo o porta-voz da Marinha, Igor Digaylo, o navio não sofreu danos materiais e os níveis de radiação permaneceram normais."Primorye flags at half-mast mourning over killed in sub accident". ITAR-TASS, 11 de novembro de 2008.

Causas Duas explicações principais para o desastre foram apresentadas por especialistas navais e pela imprensa: falha de equipamento ou erro humano.

Falha de equipamento O sistema de combate a incêndio LOKh a bordo do Nerpa era supostamente de um modelo novo que não havia sido utilizado anteriormente em nenhum submarino russo. Versões anteriores do sistema LOKh operavam unicamente sob controle manual a partir do console do oficial de serviço. O novo sistema instalado no Nerpa também podia operar em modo automático, reagindo à presença de fumaça e elevações de temperatura nos compartimentos e ativando-se individualmente em cada seção. De acordo com o depoimento de um engenheiro do estaleiro Zvezda, o sistema já havia apresentado mau funcionamento antes, enquanto o submarino era preparado para os testes de mar. Alguns analistas especularam que o sistema poderia ter sido acionado de maneira acidental por falha técnica.

Erro humano Em 10 de novembro de 2008, uma declaração da Marinha Russa atribuiu o desastre a uma "operação não autorizada" do sistema de supressão de incêndio a bordo do Nerpa. Três dias depois, investigadores navais anunciaram que um marinheiro, identificado extraoficialmente como Dmitry Grobov, havia ligado o sistema "sem permissão ou qualquer justificativa plausível". Segundo relatos da imprensa russa, Grobov acreditava que a unidade de controle local estivesse desconectada. Por tédio, começou a mexer nos comandos. As unidades de controle local do submarino são protegidas por senhas de acesso de cinco dígitos, mas durante os testes de mar os códigos de acesso haviam sido anotados a lápis diretamente nos painéis. O marinheiro aumentou as leituras térmicas do valor original de 30 °C para 78 °C, fazendo o sistema de controle interpretar que havia um incêndio a bordo. A unidade de controle solicitou permissão para deflagrar o sistema de extinção de incêndio, e Grobov concedeu a confirmação, possivelmente sem perceber as consequências de seu ato.Матрос запустил смертельный газ на глазах у своего командира? Komsomolskaya Pravda, 15 de novembro de 2008.Матрос включил систему пожаротушения на "Нерпе" от скуки Lenta.ru, 15 de novembro de 2008. Ele foi indiciado e enfrentaria até sete anos de prisão caso fosse condenado.

Em abril de 2013, Grobov foi absolvido por um júri popular. Esse julgamento seguiu-se a um veredito anterior de inocência emitido em 14 de setembro de 2011. O veredito de 2011 fora anulado pela câmara militar da Suprema Corte em maio de 2012, resultando no novo julgamento em abril.

Colegas de farda manifestaram ceticismo em relação a essa acusação, descrevendo o marinheiro acusado como um especialista experiente e capacitado. Diversos oficiais navais da reserva declararam ao diário econômico Kommersant que duvidavam que Grobov fosse o único responsável, sustentando que uma única pessoa não teria como ativar o sistema sozinha, visto que ele exige múltiplos níveis de confirmação antes de disparar o gás.

Fatores agravantes De acordo com os sobreviventes, as pessoas atingidas pela liberação do gás foram pegas totalmente de surpresa e podem não ter sido alertadas a tempo, uma vez que as sirenes de alarme soaram apenas após o gás já ter começado a inundar o compartimento. Relatou-se que algumas das vítimas foram incapazes de colocar as máscaras respiratórias de emergência antes de desmaiarem por asfixia.

Igor Kurdin, ex-comandante de submarinos da classe Typhoon e presidente do Clube de Submarinistas de São Petersburgo, atribuiu o elevado número de vítimas à presença de uma grande quantidade de especialistas civis a bordo no momento do acidente. Dezessete das vinte pessoas que pereceram eram civis. Ele observou que observadores civis não possuíam treinamento adequado sobre como reagir à liberação do gás extintor de bordo, procedimento que deve ser precedido por sinais sonoros e visuais específicos, após os quais todos a bordo devem vestir máscaras de respiração autônoma para sobreviver durante o período de 30 minutos necessário para a ventilação dos compartimentos antes de sua reabertura. Além disso, como o acidente ocorreu às 20h30min, muitos dos engenheiros civis e tripulantes estariam dormindo em seus beliches, incapazes de alcançar suas máscaras de oxigênio a tempo. O desastre foi o mais letal no país desde o trágico naufrágio do submarino nuclear Kursk, em 12 de agosto de 2000.

Mikhail Barabanov, editor-chefe do periódico especializado Moscow Defense Brief, afirmou que o risco de acionamento acidental do sistema de extinção de incêndio em submarinos russos não é inédito, mas que esse tipo de incidente não costuma resultar em mortes. Contudo, o Nerpa transportava o que ele descreveu como uma "multidão de civis" a bordo. A presença conjunta dos prestadores de serviço civis e da guarnição militar provocou a superlotação da embarcação. Em sua análise sobre os fatores que agravaram a perda de vidas: "o alarme de incêndio não funcionou, de modo que os ocupantes não perceberam que o gás começara a deslocar o oxigênio nos compartimentos atingidos". Alguns analistas sugeriram que não havia equipamentos respiratórios individuais em número suficiente para o contingente incomum a bordo, ou que os civis não haviam sido devidamente instruídos em seu uso. Sobreviventes afirmaram que alguns aparelhos de respiração falharam ou pararam de funcionar após poucos minutos; alguns dos corpos foram supostamente encontrados ainda usando as máscaras.

Reações oficiais

Rússia O presidente russo Dmitri Medvedev ordenou que o ministro da Defesa Anatoli Serdiukov instaurasse uma investigação imediata sobre as causas do acidente. O coronel-general Aleksandr Kolmakov, primeiro vice-ministro da Defesa, e o almirante Vladimir Vysotsky, comandante-em-chefe da Marinha, foram enviados ao Extremo Oriente para supervisionar os trabalhos periciais. O presidente determinou também ao Procurador-Geral Yury Chaika a abertura de um inquérito penal sobre o incidente, e uma equipe de procuradores da Procuradoria Militar Principal foi despachada para o local. A Marinha Russa e os governos regionais do Krai de Primorie e do Krai de Khabarovsk anunciaram pacotes de indenização para amparar os familiares das vítimas fatais.Centre TV, Moscou, 11h30min GMT, 10 de novembro de 2008.

Índia Inicialmente, surgiram notícias na imprensa russa e indiana sobre o envio de uma tripulação da Marinha Indiana para Vladivostok em novembro de 2008 para dar início a "treinamentos e preparativos" a bordo do Nerpa. Essas notícias ocorreram em meio a especulações de que a Rússia estaria prestes a arrendar um submarino nuclear recém-construído para a Índia. Relatórios posteriores confirmaram que o submarino acidentado era de fato o que estava previsto para ser arrendado a Nova Déli.

Oficiais da Marinha Indiana declararam: "Nossos representantes já estão na Rússia monitorando o projeto do submarino, tanto durante sua fase de construção quanto agora durante a fase de provas de mar. Estamos acompanhando de perto os desdobramentos".

As opiniões de analistas dividiram-se sobre o impacto que o acidente teria nas relações militares com a Índia. Um analista de defesa russo comentou que era improvável que o incidente "afastasse a Índia". Por outro lado, Golts afirmou: "Acredito que este será outro golpe sério na cooperação com a Índia. A Índia ficará ainda mais preocupada com a qualidade das armas russas". Ele acrescentou que a Índia desejava sigilo para evitar pressões dos Estados Unidos contra o acordo, mas que, diante da falta de outros fornecedores dispostos a arrendar submarinos nucleares, a Índia provavelmente manteria a negociação. Em 2008, chegou-se a noticiar que o arrendamento do submarino havia sido cancelado após a tragédia. No entanto, o submarino foi oficialmente incorporado à Marinha Indiana em 4 de abril de 2012 sob o nome INS Chakra.

Referências

Categoria:Navios de 2008 Categoria:Marinha da Rússia Categoria:Submarinos