Huceine ibne Maomé (; c. – Gidá, ) foi um xarife dos Du Aune e emir de Meca de 1877 até sua morte. Filho de Maomé ibne Abede Almuine, sucedeu seu irmão Abedalá Camil Paxá e governou o Hejaz num período de fortalecimento da administração do Império Otomano na região. Antes de assumir o emirado, Huceine exerceu funções na administração otomana em Constantinopla. Como emir, colaborou inicialmente com as autoridades provinciais na segurança das rotas do haje e nas relações com as tribos do interior.
A partir de 1879, porém, estabeleceu contatos secretos com representantes britânicos e propôs o envio de uma delegação ao Afeganistão com o objetivo de favorecer uma conciliação entre os afegãos e a Grã-Bretanha. Em março de 1880, Huceine dirigiu-se a Gidá para concluir com o cônsul britânico James Zohrab os preparativos da missão. Em 14 de março, foi esfaqueado por um afegão enquanto atravessava a cidade e morreu na manhã seguinte em consequência dos ferimentos. As circunstâncias do assassinato suscitaram suspeitas de motivação política e da existência de possíveis mandantes, mas as evidências disponíveis não permitem estabelecer de forma segura uma ligação entre o atentado e a missão afegã.
Vida
Huceine era filho do emir Maomé ibne Abede Almuine e pertencia aos aúnidas (Du Aune), ramo dos catádidas da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Era irmão dos emires Abedalá Camil Paxá, Aune Arrafique e Abede Alilá. Nasceu provavelmente por volta de 1841. Ainda jovem estabeleceu vínculos com a administração otomana: em 1859, quando tinha cerca de dezoito anos, recebeu a de segunda classe e, em 1868, a . Também participou das atividades relacionadas ao haje e às caravanas da . Em 1288 A.H. (1871–1872), Abedalá solicitou que o irmão recebesse um cargo em Constantinopla, argumentando que assim adquiriria experiência nos assuntos do Estado e poderia fornecer informações sobre a situação do Hejaz. Huceine foi nomeado membro do Conselho de Estado em abril de 1872. Depois da morte de seu irmão mais velho Ali, em maio de 1874, Abedalá solicitou que Huceine ocupasse também a função que este exercia no Meclis-i Hass-ı Vükelâ, nomeação efetivada em janeiro de 1875.
Após a morte de Abedalá, em 26 de junho de 1877, Huceine foi escolhido para sucedê-lo. Sua experiência na administração imperial, o conhecimento que possuía dos assuntos da capital e a boa relação estabelecida por seu irmão com o governo central favoreceram sua escolha, e Huceine foi formalmente nomeado emir de Meca em 27 de Jumada Alarrira de 1294 A.H. (9 de julho de 1877). Pouco depois de assumir o emirado, recebeu a Ordem de Mejide de primeira classe cravejada de pedras preciosas. Nos primeiros meses de governo, interveio na crise que envolvia o governador do Hejaz, , cuja administração vinha sendo alvo de reclamações. Huceine manifestou-se favoravelmente à sua destituição, alegando a forte insatisfação dos habitantes dos Lugares Santos, e o governo otomano acabou substituindo-o por em outubro de 1877.
Nos primeiros anos de seu governo, Huceine colaborou estreitamente com as autoridades otomanas do Hejaz. Em conjunto com Calide Paxá e o comandante de Medina, , procurou enfrentar problemas relacionados às tribos das proximidades de Medina, à arrecadação de impostos e à segurança das rotas do haje. Em 1878, Huceine e o governador propuseram inclusive uma operação militar contra , emir de Jabal Xamar, a quem atribuíam influência sobre tribos que se recusavam a pagar impostos. Naquele mesmo ano, uma caravana do haje foi atacada entre Medina e Meca por cerca de seiscentos ou setecentos beduínos, sendo necessário o emprego conjunto de forças de Damasco, Meca e Medina para permitir que prosseguisse viagem. O sultão rejeitou, contudo, uma ampla campanha militar, considerando insuficientes as forças disponíveis e excessivos os riscos e custos de uma expedição contra as tribos do interior.
A partir de 1879, Huceine começou a estabelecer contatos secretos com representantes britânicos. A aproximação ocorreu num período de grave enfraquecimento do Império Otomano após a Guerra Russo-Turca de 1877–1878 e coincidiu com a crise entre o Emirado do Afeganistão e o governo britânico da Índia. Em março daquele ano, por intermédio do intérprete do consulado britânico em Gidá, , Huceine entrou em contato com o cônsul James Zohrab. Segundo as informações transmitidas por este às autoridades britânicas, o emir afirmava ter recusado anteriormente um pedido do emir afegão Xer Ali Cã para apoiar uma mobilização dos muçulmanos contra os britânicos e procurava apresentar-se como uma autoridade religiosa capaz de influenciar os muçulmanos em favor de uma política de conciliação.
Os contatos tornaram-se progressivamente mais estreitos durante 1879. Nos relatos enviados pelo consulado de Gidá, Huceine questionava a extensão da autoridade religiosa do sultão otomano e atribuía maior peso à sua própria condição de descendente de Maomé e emir de Meca. As afirmações são conhecidas principalmente por intermédio da documentação diplomática britânica e devem ser entendidas no contexto das negociações secretas mantidas pelo emir com seus interlocutores. Em dezembro de 1879, Huceine escreveu que estava disposto a empregar sua influência em favor dos interesses britânicos quando as circunstâncias permitissem. Ao mesmo tempo, os diplomatas britânicos divergiam sobre a conveniência da aproximação. Enquanto Zohrab considerava a influência religiosa do emir potencialmente útil, o embaixador britânico em Constantinopla, Austen Henry Layard, advertia que uma aproximação excessiva poderia prejudicar as relações da Grã-Bretanha com o sultão Abdulamide.
Em janeiro de 1880, Huceine apresentou formalmente, embora em caráter secreto, a proposta de enviar uma delegação ao Afeganistão. Os enviados deveriam procurar convencer os muçulmanos afegãos a abandonar a guerra contra a Grã-Bretanha e estabelecer relações amistosas com os britânicos. A proposta foi examinada pelo Ministério das Relações Exteriores britânico, pelo Ministério da Índia e pelo governo da Índia e, apesar de algumas reservas, acabou aceita. Huceine iniciou então os preparativos da missão e reuniu-se com estudiosos e dignitários de Meca para discutir sua composição. O governo britânico insistia, contudo, que a delegação não apresentasse qualquer vínculo ostensivo com a Grã-Bretanha. As negociações não permaneceram inteiramente ocultas das autoridades otomanas. Em fevereiro de 1880, Abdulamide recebeu informações sobre contatos secretos entre Huceine e representantes britânicos e chegou a considerar sua substituição por Abede Almotalibe ibne Galibe ou por Aune Arrafique.
Depois de concluir os preparativos da missão, Huceine deixou Meca em 13 de março de 1880 para encontrar-se pessoalmente com Zohrab em Gidá e acertar os últimos detalhes. Na manhã de 14 de março, entrou na cidade acompanhado por seu séquito e foi recebido cerimonialmente pelo governador do Hejaz, , autoridades e habitantes locais. Enquanto se dirigia à residência de seu representante, Omar Nacife Efendi, um homem idoso vestido como dervixe aproximou-se sob o pretexto de beijar-lhe a mão e atingiu-o com uma pequena faca próximo ao coração. Huceine foi imediatamente levado à residência e atendido por médicos, que inicialmente não consideraram o ferimento fatal. Seu estado, contudo, agravou-se, e morreu de hemorragia interna na manhã de 15 de março de 1880. Seu corpo foi levado a Meca e sepultado no Cemitério de Almuala.
O assassino foi detido no local. Inicialmente identificado como Facradim do Coração, declarou durante os interrogatórios chamar-se Ceifadim e ser um afegão oriundo de uma aldeia próxima de Cabul. A investigação revelou que vivia havia alguns anos em Meca e que anteriormente tentara aproximar-se de Huceine. Embora tenha mencionado outras pessoas durante os interrogatórios, acabou sustentando que cometera o assassinato por iniciativa própria. Foi condenado à retaliação e executado em 21 de março de 1880. A identidade afegã do assassino e a coincidência entre o atentado e a missão que Huceine preparava para o Afeganistão deram origem a diversas suspeitas entre diplomatas britânicos e franceses, incluindo hipóteses de envolvimento de adversários xarifianos ou de autoridades otomanas. Buzpınar, contudo, conclui que as evidências disponíveis não permitem determinar de forma segura a existência de mandantes nem relacionar o assassinato à missão afegã.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século XIX Categoria:Xarifes de Meca Categoria:Aúnidas Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Almuala Categoria:Monarcas assassinados Categoria:Árabes do Império Otomano