Coro Popular O Horizonte é Vermelho foi um grupo coral português formado no início de 1975, no contexto político do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP).
A constituição do Coro Popular O Horizonte é Vermelho ocorreu no contexto da actividade cultural do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP). A formação do grupo resultou de contactos estabelecidos por Vítor Freire Albuquerque, então ligado à actividade cultural do movimento, com elementos do anterior Coro da Juventude Musical Portuguesa que conhecia de relações anteriores. O contacto conduziu à formação de um novo núcleo coral, constituído no início de 1975, a partir de músicos e cantores com experiência anterior no movimento coral da Juventude Musical Portuguesa e, em alguns casos, no Grupo de Recolha e Divulgação de Música Popular da Juventude Musical Portuguesa (GREDIMUP), posteriormente conhecido como Almanaque.
A sua actividade desenvolveu-se entre o início de 1975 e o final de 1977 ou início de 1978, embora as fontes disponíveis apresentem divergências quanto ao momento exacto do seu desaparecimento. miniaturadaimagem|Comício MRPP O coro reuniu inicialmente vários elementos com experiência anterior no Coro da Juventude Musical Portuguesa, entre os quais Carlos Moreira, José Moças, Vítor Reino, José Manuel David, Maria José Campos, Maria João Silva e Olinda Sardinha a que se juntaram, entre outros, João Manuel Ribeiro, Luís Maduro, Glória Saraiva, José Manuel Antunes, Manuela Flávio, Henrique Sanchez. A primeira apresentação pública ocorreu no começo de 1975, em Lisboa. Maria José Campos assumiu a direcção coral.
Actividade A actividade do Coro Popular O Horizonte é Vermelho desenvolveu-se através de numerosas actuações em contextos sociais e políticos diversos. O grupo actuou em fábricas e outros locais de trabalho, cooperativas agrícolas, associações de moradores, minas, comunidades piscatórias, escolas, congressos e iniciativas de organizações sindicais, bem como em comícios, manifestações e outras iniciativas directamente ligadas à actividade partidária.
O coro participou também em iniciativas de carácter popular e comunitário, incluindo festas e manifestações de carácter religioso. Estas actuações colocavam o grupo perante públicos e situações sociais diferentes, ampliando a actividade coral para além dos espaços especificamente políticos.
Uma parte importante dessa actividade não ficou registada em disco. Nas deslocações a locais de trabalho, cooperativas agrícolas ou outros espaços de mobilização, os textos podiam ser adaptados às circunstâncias locais ou escritos para uma determinada ocasião. A canção podia assim ser apresentada como resposta a uma situação concreta, perante as pessoas directamente envolvidas nela. Esta dimensão circunstancial da actividade do coro constitui uma parte significativa da sua prática musical, embora tenha deixado menos documentação do que o repertório gravado.
Entre os contextos referidos na documentação sobre a actividade do grupo encontram-se a Herdade da Margalha, a TAP e a empresa Tomé Feteira.
Repertório e prática musical O repertório do coro combinava canções de intervenção política com melodias provenientes de tradições musicais portuguesas e adaptações de repertório revolucionário. A experiência anterior de vários dos seus elementos na Juventude Musical Portuguesa contribuiu para a manutenção de uma prática coral desenvolvida, ao mesmo tempo que o novo grupo procurava articular essa experiência com uma actividade musical ligada à intervenção política e social.
A utilização de melodias tradicionais portuguesas é particularmente visível em temas como Vamos Lutar pela Terra, baseado numa melodia popular da Beira Baixa, Na Herdade da Margalha, com música popular da Beira Baixa, e Vamos Lá Indo para a Ceifa, baseado numa melodia popular da Beira Alta recolhida em Cambra.
A prática musical do grupo não se limitava, contudo, à adaptação de melodias existentes. Parte do repertório foi apresentada com autoria colectiva do próprio coro, enquanto outras canções resultaram da colaboração de autores individuais ou de outros grupos corais.
A evolução do trabalho musical pode ser observada nos três registos discográficos publicados entre 1975 e 1977. O primeiro single combina uma canção de carácter político construída sobre uma melodia de origem russa com outra baseada em música tradicional portuguesa. O LP de 1976 apresenta um repertório mais diversificado, incluindo temas relacionados com lutas concretas. O último single, de 1977, inclui A Internacional e O Povo em Luta e evidencia um trabalho mais elaborado de arranjo vocal e instrumental.
Discografia. Honra a Ribeiro Santos / Vamos Lutar pela Terra 1975 — Alvorada, N-S-97-95. miniaturadaimagem|Capa disco honra a Ribeiro santos «Honra a Ribeiro Santos» — poema: Leonel Santos; música: Adaptada de um tema popular russo.
«Vamos Lutar pela Terra» — poema: Coro Popular O Horizonte é Vermelho ; música: popular da Beira Baixa.
Viva a Bandeira Vermelha! 1976 — Viva o Povo!, LP 001. miniaturadaimagem|Capa disco viva a Bandeira vermelha
Lado 1
«Canto de Luta» — poema: Alberto; música: Albertina Matos.
«Soldados» — poema: Leonel Santos; música: Coro Popular O Horizonte é Vermelho.
«Na Herdade da Margalha» — poema: Coro Popular O Horizonte é Vermelho; música: Popular da Beira Baixa.
«Colher o Pão» — poema: José da Conceição Vitória; música: Coro Popular O Horizonte é Vermelho.
«A Luta é Dura mas Nós Não Vergamos» — poema e música: Coro Popular 11 de Abril, Sesimbra.
Lado 2
«Contra a Fome e a Miséria» — poema e música: Coro Popular O Horizonte é Vermelho.
«As Mulheres do Povo» — poema: Leonel Santos; música: Albertina Matos.
«Vamos Lá Indo para a Ceifa» — poema: Coro Popular O Horizonte é Vermelho; música: Popular da Beira Alta, recolhida em Cambra.
«Viva a Frente Única» — poema: Leonel Santos; música: Coro Popular O Horizonte é Vermelho.
«No Vermelho de um Vulcão» — poema e música: Fausto.
Os créditos apresentados correspondem às atribuições constantes da edição discográfica.
A Internacional / O Povo em Luta 1977 — Vento de Leste, P/1002. miniaturadaimagem|Capa de disco a internacional «A Internacional» — música: Pierre Degeyter; poema: Eugène Pottier.
«O Povo em Luta» — poema: Leonel Santos; música: Coro Popular O Horizonte é Vermelho. A atribuição de A Internacional a Eugène Pottier e Pierre Degeyter corresponde à autoria da obra original. A versão portuguesa interpretada pelo coro resultou de um trabalho posterior de adaptação e arranjo.
A Internacional A preparação de uma versão portuguesa de A Internacional constituiu um dos trabalhos do período final de actividade do coro. Em Dezembro de 1976, no contexto do congresso nacional do MRPP, foi apresentado um documento intitulado Projecto para a letra de A Internacional, destinado à elaboração de uma versão portuguesa que mantivesse a maior proximidade possível em relação ao texto original.
A versão foi posteriormente gravada pelo Coro Popular O Horizonte é Vermelho e publicada em 1977. Para a gravação foram preparadas diferentes soluções de arranjo vocal. Duas gravações de trabalho actualmente conservadas apresentam a mesma letra, a mesma estrutura musical e a mesma base de acompanhamento, distinguindo-se principalmente pelo tratamento das vozes: uma utiliza um arranjo vocal mais elaborado, enquanto a outra recorre essencialmente ao canto em uníssono. A solução em uníssono corresponde à versão publicada no disco de 1977.
Extinção A data exacta do fim da actividade do Coro Popular O Horizonte é Vermelho não está inteiramente estabelecida na documentação disponível.
Hugo Castro situa o fim da actividade em meados de 1977, relacionando-o com directivas do partido. Outras fontes, nomeadamente a imprensa retrospectiva, indicam 1978. A documentação actualmente reunida permite, por isso, situar o período de actividade do grupo entre o início de 1975 e o final de 1977 ou o início de 1978, sem que seja possível estabelecer com segurança uma data exacta para a sua extinção.
Documentação e recepção posterior A actividade do Coro Popular O Horizonte é Vermelho tem sido objecto de investigação no âmbito dos estudos sobre a música de intervenção e as práticas musicais durante o período revolucionário português. Entre os trabalhos dedicados ao grupo encontram-se os de Hugo Castro, que estudou a actividade musical do coro no contexto da Juventude Musical Portuguesa e do MRPP.
A existência de documentação sonora contemporânea é também confirmada por fundos arquivísticos. A Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, conserva uma cassete de 1976 intitulada Viva a bandeira vermelha! Coro Popular O Horizonte é Vermelho, integrada num conjunto de documentação relacionada com o MRPP e com o congresso de Dezembro desse ano.
A obra do grupo foi posteriormente recuperada em iniciativas de documentação e divulgação da canção de intervenção, incluindo programas da RTP Antena 1 dedicados a temas do seu repertório, como Canto de Luta e No Vermelho de um Vulcão.
Referências
Categoria:Bandas de Portugal