Jazira ou Aljazira () foi uma província e região histórica dos primeiros califados islâmicos, correspondente em grande parte à Alta Mesopotâmia. Situava-se sobretudo entre os cursos superiores dos rios Eufrates e Tigre, abrangendo também territórios adjacentes, e fazia fronteira com a Síria, o Iraque, a Armênia e o Azerbaijão. Administrativamente, dividia-se nos distritos do Diar Modar, Diar Rebia e Diar Becre, cujos nomes refletiam a forte presença das tribos árabes modaritas e rebiaítas na região.

Conquistada pelos muçulmanos durante o califado de Omar, em 638–640, a Jazira esteve inicialmente vinculada aos distritos militares da Síria. A imigração de tribos árabes intensificou-se nas décadas seguintes, sobretudo durante o governo de Moáuia ibne Abi Sufiane, e a região adquiriu crescente importância militar. Durante a Segunda Guerra Civil Islâmica, tornou-se um dos principais redutos dos caicitas, que se opuseram aos omíadas até o acordo entre Zufar ibne Alharite Alquilabi e o califa Abedal Maleque ibne Maruane em 691. No ano seguinte, a Jazira foi separada do Junde de Quinacerim e organizada como província independente.

Sob os últimos omíadas, a Jazira adquiriu importância ainda maior e chegou a formar uma superprovíncia juntamente com a Armênia e o Azerbaijão. Suas tropas constituíram uma das principais bases militares da dinastia, especialmente durante o governo de Maomé ibne Maruane e, posteriormente, de seu filho, o califa , que fez da região sua principal base de poder. A predominância militar jazirana terminou durante a Revolução Abássida, quando as forças de Maruane foram decisivamente derrotadas pelos abássidas na Batalha do Zabe, em 750.

Geografia

A Jazira propriamente dita abrangia a porção setentrional da área situada entre os rios Eufrates e Tigre, correspondente à Alta Mesopotâmia, além das regiões e cidades adjacentes ao norte e a leste do alto Tigre, das áreas em torno dos rios Grande e Pequeno Zabe e de uma faixa territorial ao longo da margem ocidental do Eufrates. A região consistia, em geral, num planalto relativamente baixo, interrompido por diversas cadeias montanhosas, entre elas o Tur Abdim, o Monte Sinjar, o e o . Dessas elevações nasciam os principais cursos d'água tributários do Eufrates: o rio Balique, no extremo oeste da região; o rio Cabur, no centro; e o Hirmas, afluente do Cabur que nasce no Tur Abdim, ao norte. O rio Tartar nascia no Monte Sinjar, a leste, e corria em direção ao deserto da Síria, onde terminava. A oeste da Jazira situava-se a Bilade Xame, correspondente à Síria geográfica. A noroeste ficavam os Tugur Aljaziria, zona fronteiriça da Alta Mesopotâmia com o Império Bizantino. As províncias da Armênia e do Azerbaijão situavam-se, respectivamente, ao norte e nordeste. Ao sul encontrava-se o Iraque, separado da Jazira por uma linha que se estendia de Ambar, no sudoeste, até Ticrite, no nordeste.

Composição tribal e étnica

Antes da conquista muçulmana, em 638–640, tribos árabes nômades e seminômades já estavam estabelecidas havia muito tempo nas margens desérticas dos vales do alto e baixo Eufrates e, em menor grau, nas proximidades dos assentamentos situados junto às margens do rio. Entre elas estavam os tanuquitas, parte dos quais, seminômades ou sedentários, habitava o trecho do Eufrates entre Ambar e Hite e regiões mais ao norte. Próximos deles, mais a oeste no deserto, encontravam-se os taglibitas, os anamiritas da confederação dos rebiaítas e os iaditas, todos integrantes do grupo de Nizar ibne Maade, cujos membros serviam como auxiliares do Império Sassânida. Segundo os relatos preservados na história de Atabari, os iaditas cristãos fugiram para o norte, em direção à Anatólia bizantina, durante a conquista muçulmana, mas o califa Omar obrigou os bizantinos a expulsar a maior parte deles de volta para a Jazira. Os taglibitas permaneceram na região e conservaram em grande medida sua fé cristã, embora outros membros da tribo tenham adotado o Islã. Os taglibitas constituíam grande parte das antigas tribos rebiaítas da Jazira, mas outros rebiaítas ali estabelecidos, sobretudo os membros da confederação dos becritas rebiaítas, também conservaram o cristianismo nos primeiros anos posteriores à conquista.

As guerras bizantino-sassânidas do início do , seguidas pelas conquistas muçulmanas, deixaram extensas áreas de terras cultiváveis abandonadas na Jazira. Essas terras foram ocupadas pelos elementos nômades dos exércitos muçulmanos, sobretudo por membros das tribos caicitas, sobre os quais os comandantes nomeados em Medina exerciam pouco ou nenhum controle e que pagavam apenas um dízimo mínimo aos califas. Segundo o historiador Muhammad Abdulhayy Shaban, esses "poucos milhares de homens trataram uma província inteira como sua propriedade privada e, como tal, estabeleceram ali seu domínio". Os membros das tribos muçulmanas desempenhavam papel militar importante na defesa do flanco oriental da Síria contra incursões bizantinas e beneficiavam-se das lucrativas expedições contra a Armênia. As tribos integrantes dos exércitos conquistadores procuraram restringir novas migrações tribais para a Jazira, mas a extensão e a riqueza da província, juntamente com as pressões decorrentes da imigração proveniente da Arábia para o recém-conquistado Crescente Fértil, tornaram necessária sua abertura a novos colonos.

O califa Otomão decidiu direcionar a imigração para a região e, segundo Shaban, "romper a hegemonia" das tribos conquistadoras. Por determinação do califa, Moáuia ibne Abi Sufiane, então governador da região, instalou membros de tribos árabes em terras não reivindicadas ou desocupadas da Jazira, a certa distância dos assentamentos ao longo do Eufrates, e permitiu que se dedicassem à agricultura. Membros dos tamimitas foram estabelecidos num lugar chamado , enquanto caicitas e açaditas foram instalados em e , este último nas proximidades de Raca. Provavelmente para atenuar as preocupações dos caicitas anteriormente estabelecidos, os recém-chegados foram excluídos do serviço militar na fronteira armênia e assentados em pontos de importância estratégica, como cruzamentos de grandes rotas ou passagens montanhosas estreitas, de modo a constituir uma barreira contra ataques bizantinos. Entre os locais guarnecidos por essas tribos estava Melitene, chamada Malátia pelos árabes. As mudanças foram introduzidas gradualmente ao longo do governo de Moáuia e aparentemente satisfizeram os caicitas o suficiente para que apoiassem Moáuia contra o califa Ali e seu exército iraquiano na Batalha de Sifim, nas proximidades de Raca, em 657.

Durante a Primeira Guerra Civil Islâmica (656–661), ocorreram novas migrações para a Jazira. Os recém-chegados eram membros de tribos que haviam se estabelecido nas cidades-guarnição muçulmanas de Cufa e Baçorá, no Iraque, nas décadas anteriores, mas que se opuseram ao governo de Ali e abandonaram a vida sedentária pelo nomadismo na Jazira. Além dos árabes, a Jazira possuía uma significativa população assíria, particularmente na região do Tur Abdim. A área de Moçul também abrigava curdos, enquanto ao norte do alto Tigre havia comunidades de armênios. Desde que tomou o controle de Nísibis em 363, as principais cidades da região, sobretudo nos arredores de Nísibis, também haviam recebido colonos persas provenientes de Pérsis, cuja presença permaneceu significativa até o período abássida.

Divisões administrativas

A Jazira era dividida em três distritos: o Diar Modar, que compreendia o território ao longo do Eufrates; o Diar Rebia, ao longo do Tigre; e o Diar Becre, que se estendia para o norte até as Terras Altas da Armênia. A divisão seguia linhas tribais e baseava-se no grupo predominante em cada território, isto é, os modaritas e os rebiaítas. O fato de os distritos ostentarem nomes tribais árabes refletia a forte presença de tribos árabes na província, circunstância que provavelmente contribuía para sua força militar, pois a Jazira dispunha de uma reserva de recrutamento tribal maior para os exércitos omíadas que outras províncias. A divisão também pode ter refletido estruturas administrativas pré-islâmicas: o Diar Modar correspondia à província romano-bizantina de Osroena, que antes do domínio romano havia sido um reino governado por uma dinastia árabe e posteriormente se tornou um centro do cristianismo miafisita. O Diar Rebia, mais extenso, possuía fronteiras menos bem definidas e havia constituído uma das principais zonas de conflito entre os impérios Bizantino e Sassânida antes da conquista muçulmana. Nas fontes, Moçul era por vezes considerada parte do Diar Rebia, inclusive como sua capital, mas durante a maior parte do período omíada constituiu uma província própria.

História

Administração inicial

A Jazira foi conquistada pelos muçulmanos durante o califado de Omar, em 638–639 ou 639–640. Os exércitos muçulmanos eram comandados por . Iade frequentemente sitiava assentamentos fortificados ao longo dos rios Eufrates e Cabur antes ou durante a época da colheita, ao mesmo tempo que enviava destacamentos para saquear os campos circundantes em busca de provisões agrícolas e capturar camponeses. Em Raca, então conhecida pelos bizantinos como Calínico, os camponeses que viviam fora das muralhas eram defendidos por nômades árabes cristãos. Ali, as forças muçulmanas obrigaram os dirigentes da cidade, diante da perspectiva de fome, a se renderem em cinco ou seis dias. O objetivo de Iade era conquistar as cidades com o mínimo de destruição possível, assegurando aos conquistadores o fluxo de receitas tributárias e produtos agrícolas. Condições semelhantes de rendição foram acertadas com os dirigentes de Edessa, Harrã e Samósata, sendo instaladas guarnições muçulmanas nas duas últimas.

Após a conquista, a Jazira provavelmente formou uma única unidade administrativa com o Junde de Hómece e o futuro Junde de Quinacerim. Iade foi nomeado por Omar governador de Hómece–Quinacerim–Jazira em 639, após a morte de Abu Ubaida ibne Aljarrá, que exercera o comando geral da Síria. Dois agentes administrativos foram nomeados para a Jazira, um encarregado dos não árabes, presumivelmente a população sedentária, e outro dos membros das tribos árabes nômades, como os taglibitas. Omar nomeou Habibe ibne Maslama Alfiri para administrar os não árabes e Alualide ibne Uqueba para os árabes. Iade morreu em 641 e foi sucedido por . Após a morte deste, em 642, foi nomeado governador. Omeir adoeceu durante o califado de Otomão e deixou o cargo, após o que o califa colocou Hómece–Quinacerim–Jazira sob a jurisdição de Moáuia, que já governava o Junde de Damasco e o Junde da Jordânia.