As batalhas de Madar e Harura foram dois confrontos sucessivos travados em 686, durante a Segunda Guerra Civil Islâmica, entre as forças zobaíridas comandadas por Muçabe ibne Azobair, governador de Baçorá, e as forças de Almoquetar Atacafi, que controlava Cufa e grande parte do Iraque. Os confrontos fizeram parte da campanha de Muçabe para eliminar o domínio de Almoquetar no Iraque e restabelecer a autoridade de seu irmão, o califa Abedalá ibne Azobair, sobre Cufa. O exército zobaírida reunia os contingentes tribais de Baçorá e numerosos nobres cufanos que haviam fugido da cidade após uma revolta malsucedida contra Almoquetar, enquanto uma parcela importante das forças deste era constituída por maulas, convertidos não árabes favorecidos por suas políticas.
O primeiro confronto ocorreu em , na rota entre Cufa e Baçorá. O exército de Almoquetar, comandado por , foi derrotado pelas forças de Muçabe, nas quais Almoalabe ibne Abi Sufra desempenhou papel destacado. Ibne Xumaite foi morto e a infantaria cufana sofreu pesadas perdas, particularmente entre os maulas, enquanto os sobreviventes recuaram para Cufa. Muçabe perseguiu o exército derrotado e avançou sobre a cidade, levando Almoquetar a estabelecer uma nova posição defensiva em Harura, nas proximidades de Cufa.
Na subsequente Batalha de Harura, as forças de Almoquetar inicialmente obtiveram vantagem sobre alguns dos contingentes baçoranos, mas um contra-ataque comandado por Almoalabe reverteu a situação e praticamente destruiu seu exército. Almoquetar retirou-se com os sobreviventes de sua guarda para seu palácio em Cufa, onde foi sitiado pelas forças de Muçabe. Após quatro meses de cerco, saiu do palácio com um pequeno grupo de partidários e foi morto em 3 de abril de 687. A vitória zobaírida em Madar e Harura e a subsequente eliminação de Almoquetar permitiram a Muçabe assumir o controle completo do Iraque.
Localização
era uma cidade situada na rota militar entre Cufa e Baçorá, às margens de um afluente do rio Tigre. Localizava-se 320 quilômetros a sudeste de Cufa e 65 quilômetros ao norte de Baçorá. Harura era uma aldeia ou distrito nas proximidades de Cufa. Com base na descrição do geógrafo do Iacute Alhamaui, o historiador Michael Fishbein situa-a aproximadamente três quilômetros ao sul de Cufa. Segundo as fontes medievais, durante o período pré-islâmico e ao longo do , Harura localizava-se às margens do rio Eufrates ou de um de seus canais. No , porém, é descrita como situada no deserto. A historiadora Laura Veccia Vaglieri concluiu que isso significava que "o sistema hidrográfico da região provavelmente havia sofrido uma transformação".
Antecedentes
Durante a Segunda Guerra Civil Islâmica (680–692), a principal oposição ao Califado Omíada, centrado na Síria, partiu do califa Abedalá ibne Azobair, sediado em Meca. O irmão mais novo de ibne Azobair, Muçabe ibne Azobair, governava em seu nome Baçorá, uma das principais cidades-guarnição do Iraque. Em 685, o revolucionário pró-álida Almoquetar Atacafi, apoiado por simpatizantes árabes e maulas (convertidos locais não árabes), expulsou o governador zobaírida de Cufa, a outra grande cidade-guarnição do Iraque, e tornou-se senhor de grande parte da região. O domínio zobaírida ficou, consequentemente, restrito à Arábia e a Baçorá. Os maulas da revolta de Almoquetar eram não árabes de origem armênia e persa. Eram prisioneiros de guerra capturados durante as primeiras conquistas muçulmanas, que posteriormente se converteram ao Islã e foram libertados, ou camponeses e artesãos. Segundo os costumes árabes da época, os convertidos não árabes eram incorporados às tribos árabes, mas com o estatuto inferior de clientes (maula). Na prática, encontravam-se numa condição próxima à de escravos da nobreza tribal (axerafe).
As políticas favoráveis de Almoquetar em relação aos maulas, que incluíam conceder-lhes liberdade e igualdade de estatuto social e militar com os árabes, provocaram uma revolta armada da nobreza árabe de Cufa. A revolta foi esmagada, e os maulas perseguiram seus antigos senhores. Cerca de dez mil árabes fugiram para Baçorá, enquanto suas casas em Cufa foram destruídas. Os mais proeminentes entre os refugiados, e Maomé ibne Alaxate Alquindi, solicitaram auxílio a Muçabe e convenceram-no a enfrentar Almoquetar. Muçabe convocou seu comandante mais experiente, Almoalabe ibne Abi Sufra, que estava empenhado em combates contra os , e iniciou a ofensiva contra Cufa. Na época, as relações entre Almoquetar e seu principal comandante, Ibraim ibne Alastar, estacionado em Moçul, na porção oriental da Jazira (Alta Mesopotâmia), estavam tensas. Muçabe pode ter procurado tirar proveito desse afastamento.
Batalha de Madar
Muçabe enviou seus agentes a Cufa para recrutar partidários e enfraquecer Almoquetar em seu reduto. O exército de Muçabe foi dividido nos cinco contingentes de Baçorá, cada um representando uma facção tribal árabe. Eram os becritas, comandados por ; os abedalcaicitas, comandados por ; os , comandados por ; os azeditas, comandados por ; e os tamimitas, comandados por . A ala esquerda era comandada por Almoalabe ibne Abi Sufra, enquanto a direita estava sob o comando de . Sua infantaria era comandada por . Além das tropas baçoranas, os refugiados cufanos também integravam seu exército.
Ao tomar conhecimento do avanço de Muçabe, Almoquetar reuniu os cufanos prometendo-lhes a vitória em Madar. Seu exército era comandado por . Algumas das tropas de Almoquetar que se encontravam com Ibraim ibne Alastar em Moçul regressaram para junto dele depois que Ibraim se mostrou indiferente às cartas de Almoquetar. A ala direita de ibne Xumaite era comandada por , a esquerda por , a infantaria por e a cavalaria por um certo . A facção dos maulas era comandada pelo chefe da guarda pessoal de Almoquetar, . Ibne Xumaite avançou em direção a Baçorá e acampou em Madar, onde Muçabe chegou pouco depois. Embora os maulas estivessem montados, o comandante da ala esquerda de Ibne Xumaite, Abedalá ibne Uaabe, um árabe que provavelmente os desprezava, sustentou que eram fracos e propensos a fugir caso fossem atacados e, por isso, deveriam combater a pé. Ibne Xumaite aceitou o conselho e ordenou que os maulas desmontassem.
Antes da batalha, ambos os lados intimaram o adversário a render-se e reconhecer a autoridade de seus respectivos líderes, Ibne Azobair e Almoquetar. O ataque da cavalaria de Abade foi repelido. Em seguida, Almoalabe atacou e derrotou a ala direita dos cufanos, comandada por Ibne Camil. A ala direita dos baçoranos atacou e derrotou a ala esquerda cufana. Pouco depois, o comandante das forças cufanas, Ibne Xumaite, foi cercado e morto. Almoalabe ordenou então que sua cavalaria investisse contra a infantaria cufana, que fugiu. Muçabe enviou Maomé ibne Alaxate com sua cavalaria para dizimar os cufanos em fuga, ordenando-lhe: "Vingue-se [dos maulas]!" Muitos dos cavaleiros cufanos conseguiram escapar, enquanto a maioria dos soldados de infantaria foi morta ou capturada. Todos os prisioneiros foram executados pelos refugiados cufanos que integravam o exército de Muçabe. Apesar das suspeitas de Ibne Uaabe, os maulas ofereceram forte resistência e muitos deles morreram. Seu líder, Abu Anre Caiçane, provavelmente morreu, pois as fontes não voltam a mencioná-lo após a batalha. Os sobreviventes do exército de Almoquetar retiraram-se para Cufa e comunicaram-lhe a derrota. A notícia abalou o prestígio de Almoquetar. A respeito de sua promessa de vitória, seus maulas observaram: "Desta vez ele mentiu". O próprio Almoquetar declarou: "Por Deus, os escravos [maulas] foram mortos numa escala sem precedentes". A data exata da batalha não é indicada nos relatos históricos, mas, segundo os historiadores modernos, teria ocorrido em meados de 686.
Batalha de Harura
Muçabe perseguiu os cufanos em fuga. Para chegar rapidamente a Cufa, enviou sua infantaria e provisões em embarcações, enquanto a cavalaria seguiu por terra. Ao tomar conhecimento disso, Almoquetar fortificou o palácio, armazenou provisões e deixou Cufa sob o comando de um certo Abedalá ibne Xadade. Em seguida, dirigiu-se a , local situado entre Hira e Cadésia, e represou o Eufrates, de modo que suas águas fossem desviadas para encher os canais que conduziam a Hira e Cadésia, deixando as embarcações fluviais de Muçabe presas na lama. Essas tropas desembarcaram e seguiram a pé, enquanto Muçabe e seus cavaleiros destruíram a barragem e prosseguiram em direção a Cufa. Almoquetar transferiu seu acampamento para Harura a fim de bloquear a entrada de Muçabe em Cufa. Muçabe logo chegou a Harura. As tropas cufanas de seu exército eram comandadas por Maomé ibne Alaxate Alquindi. Almoalabe comandava a ala direita e Ibne Mamar, a esquerda. A infantaria estava sob o comando de . Almoquetar colocou à frente de sua xurta. As alas direita e esquerda de suas forças eram comandadas, respectivamente, por e , enquanto a cavalaria e a infantaria eram comandadas por e , este último veterano da Batalha de Sifim, em 657.
Quando os exércitos se aproximaram, Almoquetar enviou destacamentos para enfrentar cada um dos cinco contingentes baçoranos e os cufanos leais aos zobaíridas, enquanto permaneceu estacionado entre suas próprias tropas. As forças de Almoquetar obtiveram inicialmente vantagem contra os contingentes becrita e abedalcaicita de Baçorá e avançaram. Em seguida, fizeram recuar o contingente de Aljibal e aproximaram-se de Muçabe, que se entrincheirou numa posição elevada com seus homens e disparou flechas contra as tropas de Almoquetar. A pedido de Muçabe, Almoalabe, que permanecera estacionado com os contingentes azedita e tamimita, conduziu um ataque contra as forças de Almoquetar e infligiu-lhes uma pesada derrota, embora os combates intensos tenham prosseguido até o anoitecer. Entre os mortos estavam Omar ibne Abedalá, Maleque ibne Anre, Saíde ibne Munquide e 70 de seus cavaleiros, Soleime ibne Iázide e 90 de seus cavaleiros, além de Maomé ibne Alaxate e a maior parte de seus cavaleiros. Almoquetar combateu com sua xurta, pelo menos três de cujos integrantes foram mortos, ao longo da , na entrada meridional de Cufa, até ser obrigado a retirar-se com os guardas sobreviventes para seu palácio na cidade. Em síntese, segundo o historiador G. R. Hawting, a "vantagem obtida" pelos zobaíridas em Madar "foi levada adiante, e as forças de Almoquetar foram posteriormente praticamente destruídas em Harura".
Consequências
As forças de Muçabe entraram em Cufa e sitiaram Almoquetar em seu palácio. Inicialmente, os defensores ofereceram pouca resistência. O cerco durou quatro meses. Em determinado momento, Almoquetar e 200 defensores realizaram uma surtida e dispersaram cem atacantes. Regressaram ao palácio, e o cerco foi intensificado até que Almoquetar saiu acompanhado por cerca de 19 de seus homens e travou um último combate, no qual foi morto. Isso ocorreu em 3 de abril de 687. Pressionado pelos vingativos membros do axerafe cufano presentes em seu acampamento, entre eles Abederramão, filho de Maomé ibne Alaxate, Muçabe autorizou execuções em larga escala dos partidários de Almoquetar na cidade. Segundo o orientalista Henri Lammens, Muçabe "executou um número considerável de seus [de Almoquetar] partidários, o que lhe rendeu tantos inimigos quantos parentes tinham suas vítimas". Segundo um relato de , Abedalá ibne Omar acusou Muçabe de massacrar sete mil cufanos, enquanto, segundo o relato de Aluaquidi, dos partidários de Almoquetar que se renderam no palácio, Muçabe executou 700 árabes e todos os persas e, posteriormente, massacrou seis mil simpatizantes cufanos. Com a eliminação de Almoquetar e a subsequente deserção de Ibraim ibne Alastar para os zobaíridas, Muçabe obteve o controle completo do Iraque e nomeou coletores de impostos para o Sauade e Jibal, ambos distritos dependentes de Cufa.
Bibliografia
Categoria:686 Categoria:687 Categoria:Batalhas da Segunda Guerra Civil Islâmica