Rodrigues de Abreu, nome literário de Benedito Luís de Abreu (Capivari, 27 de setembro de 1897 – Bauru, 24 de novembro de 1927), foi um poeta, orador e ator brasileiro. Publicou em vida Noturnos (1919), A sala dos passos perdidos (1924) e Casa destelhada e outras poesias (1927), livro em que sua poesia se aproxima do modernismo. Sua trajetória esteve ligada às cidades de Capivari, Piracicaba, Bauru, São José dos Campos e Atibaia.
Biografia Origem e formação Benedito Luís de Abreu nasceu em 27 de setembro de 1897, numa fazenda do município de Capivari, no estado de São Paulo. Era filho de Narciso Rodrigues de Abreu e de Leonor Ribeiro da Silva, casados na capital paulista em 1895 e pertencentes a uma família originária de Silveiras. Os pais haviam se transferido para o interior para o trabalho agrícola e, na época do nascimento do poeta, eram assalariados de uma plantação de café.
A infância transcorreu em propriedades rurais dos municípios de Capivari e Piracicaba, onde iniciou os estudos primários. No final de 1909, a família mudou-se para São Paulo, e o menino empregou-se numa farmácia, lavando frascos e fazendo entregas. Retomados os estudos na capital, seguiu como aluno interno para o colégio dos padres salesianos de Lorena e, em seguida, como aspirante, para Cachoeira do Campo, em Minas Gerais. No segundo ano do seminário, uma doença o obrigou a interromper a formação e a retornar a São Paulo para tratamento. Voltou depois aos estudos em Lavrinhas, mas abandonou definitivamente a carreira eclesiástica ao concluir o quarto ano ginasial.
Em São Paulo, passou a lecionar, tendo trabalhado em 1917 e no início de 1918 no Liceu Coração de Jesus. Ainda em 1918, a família transferiu-se para Capivari, onde ele se reapresentou à cidade natal pronunciando uma conferência em teatro, em benefício da Santa Casa local, o que lhe valeu a alcunha de "o poeta". Pouco depois, foi admitido como guarda-livros na Caixa de Crédito Agrícola de Capivari.
Estreia literária e período de Capivari Em meados de 1919, pouco depois da morte da mãe, publicou Noturnos, folheto de 44 páginas impresso nas oficinas da Gazeta de Piracicaba e assinado como Benedito Abreu. A repercussão do livro foi pequena e, anos mais tarde, o próprio autor procuraria recolher e inutilizar os exemplares distribuídos, insatisfeito com a filiação parnasiana da obra.
Em Capivari, aproximou-se do amigo Celso de Almeida e iniciou-se no teatro amador, atuando como autor e ator. Os dois escreveram em parceria a revista Capivari em Camisola, encenada na cidade, cuja parte cantada e os versos destinados à declamação eram de autoria de Abreu.
Também em 1919 começou a conviver com o escritor Amadeu Amaral, igualmente natural de Capivari, que lhe abriu as colunas de jornais e revistas literárias da capital. Foi por conselho de Amadeu Amaral que o poeta abandonou, em literatura, a assinatura Benedito Abreu e passou a assinar Rodrigues de Abreu, forma tomada do nome de família. Entre 1919 e 1922, seus versos circularam em periódicos de Campinas, Piracicaba e São Paulo, sobretudo na revista A Cigarra e no Estadinho.
Residiu em Capivari até o fim de 1922. Nesse período escreveu integralmente A sala dos passos perdidos e o primeiro capítulo de Casa destelhada. Em 1921 tentou fixar residência na capital, mas retornou à cidade natal três meses depois. Em 1922, envolveu-se na campanha de Amadeu Amaral a uma cadeira de deputado estadual, o que lhe criou desafetos locais e motivou sua saída de Capivari.
Bauru Desempregado em São Paulo no fim de 1922, foi encontrado por Celso de Almeida, então residente em Bauru, que lhe conseguiu um lugar de escrevente em um cartório de hipotecas. Rodrigues de Abreu chegou a Bauru em janeiro de 1923.
Durante mais de um ano, viveu na cidade a fase mais intensa de sua vida pública. No Centro Católico, lia versos e proferia discursos em sessões concorridas; organizava e interpretava espetáculos de teatro amador. A revista Capivari em Camisola foi readaptada como Bauru em Foco, com novos poemas seus, e encenaram-se A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, e sua paródia A Ceia dos Coronéis.
Em meados de 1924, submeteu a Celso de Almeida os originais de A sala dos passos perdidos. O amigo entregou-os à casa editora de Monteiro Lobato, em São Paulo, e custeou a edição, que se tornou o primeiro dos principais livros do poeta.
Doença e últimos anos A tuberculose manifestou-se no início de 1924 e progrediu rapidamente. Em julho ou agosto daquele ano, os amigos do Centro Bauruense — antigo Centro Católico — organizaram um festival beneficente para custear seu tratamento, e em setembro o poeta seguiu para Campos do Jordão, onde permaneceu cerca de quatro meses. Pouco antes, seu noivado com Aracy Prado havia sido rompido por pressão da família dela.
Como a permanência na Mantiqueira agravou seu estado, transferiu-se no início de 1925 para São José dos Campos, onde viveu, com interrupções, até abril de 1927. Ali escreveu, ainda em 1925, o capítulo "Cadeira de Lona", de Casa destelhada. Em setembro e outubro do mesmo ano realizaram-se dois novos festivais em seu benefício: um no Conservatório de São Paulo, com conferência de Amadeu Amaral, e outro em Bauru, promovido pelo Diário da Noroeste. Abreu compareceu ao segundo e, logo depois, escreveu em agradecimento o poema Bauru.
Em fevereiro de 1926, endereçou a Hildebrando Siqueira, de Campinas, uma carta autobiográfica que se tornou um dos documentos mais conhecidos sobre sua vida. O texto contém, porém, informações contestadas: nele o poeta afirma ter nascido em 1899 e ter sido atacado pela tuberculose em fins de 1919, datas que não se sustentam diante dos testemunhos de seu cunhado, Gabriel Cara Ruiz, e de Celso de Almeida.
Em novembro de 1926, já em Bauru, escreveu no sítio de São Gilberto "Macega Florida", último capítulo de Casa destelhada. Acertada a publicação, partiu pela última vez para São José dos Campos, e no início de 1927 a Editora Hélios, de Cassiano Ricardo, lançou Casa destelhada e outras poesias.
Deixou São José dos Campos em abril de 1927 e, em maio, seguiu para Atibaia, sua última estação de tratamento; em julho e agosto publicou crônicas no jornal O Atibaiense. Antes de setembro, retornou definitivamente a Bauru, onde escreveu seu último poema, A Balada da Nave de Nuvem. Morreu em 24 de novembro de 1927, aos 30 anos.
Obra Noturnos (1919); A Sala dos Passos Perdidos (1924); Casa Destelhada e outras poesias (1927).
Sua produção foi reunida postumamente em Poesias completas de Rodrigues de Abreu, volume precedido pelo ensaio introdutório de Domingos Carvalho da Silva, concluído em março de 1949.
Características da obra A poesia de Rodrigues de Abreu costuma ser dividida em duas fases. Na primeira, o poeta trabalha com rima e metrificação dentro da prática corrente entre os autores brasileiros anteriores ao modernismo. Na segunda, adota o verso livre, sem obedecer a regra rítmica fixa — prática que, segundo Domingos Carvalho da Silva, pode ter recebido influência de Walt Whitman, lido em tradução, e de Rabindranath Tagore. A Sala dos Passos Perdidos marca a transição do neoparnasianismo e do simbolismo para o modernismo, presente em alguns poemas finais do volume, enquanto Casa Destelhada o situa já dentro da escola modernista.
A tuberculose alterou o sentido de sua obra. Nos primeiros livros predominam o tom boêmio, a sensualidade e uma acentuada vaidade literária; a partir de 1924, as aspirações materiais cedem lugar aos temas da vida e da morte e, sobretudo em 1926, a uma poesia declaradamente mística, em que o Cântico do Sol de Francisco de Assis funciona como modelo. Também é recorrente em seus versos a evocação da figura materna.
Entre as restrições apontadas à sua obra está o hábito de converter trechos de prosa em poemas, prática que afeta a unidade de Casa destelhada e que foi observada por críticos como Carlos Burlamaqui Kopke e Serralvo Sobrinho.
Rodrigues de Abreu e Bauru A permanência em Bauru teve importância decisiva em sua trajetória. Além da produção poética, o escritor participou da vida cultural da cidade como orador e ator de teatro amador, e foi ali que escreveu parte de Casa Destelhada. Em agradecimento ao festival beneficente promovido em seu favor em 1925, escreveu o poema Bauru.
A relação entre o poeta e a cidade permaneceu presente na memória cultural local. A Biblioteca Municipal de Bauru leva seu nome, assim como instituições de ensino e espaços públicos.
Bibliografia SILVA, Domingos Carvalho da. Introdução às Poesias Completas de Rodrigues de Abreu. São Paulo, 1949. RODRIGUES DE ABREU, Benedito Luís. Poesias completas. São Paulo: Companhia Editora Panorama, 1952.
Ligações externas Cultura realiza homenagem ao poeta Rodrigues de Abreu — Prefeitura Municipal de Bauru
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