A Guerra do Sul, também conhecida como A Guerra das Facas (não confundir com o termo geral "guerra das facas" ou "Guerra das Facas") foi uma guerra civil de junho de 1799 a julho de 1800 entre o revolucionário haitiano Toussaint Louverture, um ex-escravo negro que controlava o norte de Saint-Domingue (atual Haiti ), e seu adversário André Rigaud, um homem livre mestiço que controlava o sul. Durante a guerra, Louverture e Rigaud disputaram o controle de facto da colônia francesa de Saint-Domingue. O conflito surgiu após a retirada das forças britânicas da colônia no início da Revolução Haitiana, e terminou com o controle total da região de Saint-Domingue por Toussaint e na fuga de Rigaud para o exílio.
Antecedentes
O Início da Revolução
A Revolução Haitiana teve início em 1791, quando escravos negros na colônia caribenha de Saint-Domingue se revoltaram contra seus donos franceses em meio à Revolução Francesa. Toussaint ganhou destaque como líder de escravos rebeldes no norte de Saint-Domingue, atuando próximo ao porto de Le Cap-Français. Simultaneamente, Rigaud destacou-se como um líder rebelde entre os "gens de couleur libres" (pessoas livres de cor), que se localizavam ao sul de Saint-Domingue, com uma presença significativa em torno do porto de Les Cayes .
Em maio de 1792, os comissários republicanos franceses de Saint-Domingue formaram uma aliança com Rigaud, permitindo-lhe marchar com suas forças até a capital, Porto Príncipe, e dissolver o governo rebelde formado pelos fazendeiros brancos da cidade. Em agosto de 1793, o novo comissário republicano, Sonthonax, proclamou a liberdade para todos os escravizados em Saint-Domingue, numa tentativa de garantir o controle da colônia diante de uma revolta contrarrevolucionária de plantadores brancos em Le Cap e de invasões de potências europeias rivais devido à formação da Primeira Coligação . Após a abolição da escravatura, Sonthonax e o seu colega, o também comissário Polverel, convenceram com sucesso Toussaint a juntar-se ao lado republicano francês no conflito. Toussaint e Rigaud tornaram-se aliados em 1794, e início de 1795, a Convenção Nacional Francesa promoveu ambos os homens ao posto de general de brigada.
Toussaint consolida o poder Em 1798, Toussaint e Rigaud conteram as ameaças externas e internas à colônia. Em abril de 1798, o comandante britânico Thomas Maitland aproximou-se de Toussaint para negociar uma retirada britânica, que foi concluída em agosto. No início de 1799, Toussaint também negociou independentemente a "Cláusula de Toussaint" com o governo dos Estados Unidos, permitindo que os comerciantes americanos negociassem com Saint-Domingue, mesmo apesar da Quase-Guerra em curso entre os EUA e a França. Esses episódios aumentaram significativamente o poder de Toussaint e demonstram sua emergência como um governante independente de facto. Toussaint e Rigaud controlavam efetivamente todas as tropas e o território dentro de Saint-Domingue, embora a colônia ainda estivesse formalmente sob supervisão francesa. Toussaint governou a região norte da colônia, ao redor de Le Cap, e a região oeste, perto da capital, Porto Príncipe; enquanto Rigaud governou independentemente a região sul em torno de Les Cayes. Tecnicamente, Toussaint era o superior de Rigaud.
Hédouville semeia tensão Em julho de 1798, Toussaint e Rigaud viajaram juntos de carruagem de Porto Príncipe até Le Cap para se encontrarem com o recém-chegado representante Théodore-Joseph d'Hédouville, enviado pelo novo regime do Diretório francês. A tradição oral afirma que, durante a viagem, Toussaint e Rigaud fizeram um pacto para colaborar contra a intromissão de Hédouville. No entanto, o acordo logo se desfez, pois Hédouville intencionalmente favoreceu mais a Rigaud do que Toussaint, numa tentativa de semear tensão entre os dois líderes. Em uma carta a Rigaud, Hédouville o absolveu da autoridade de Toussaint como general-em-chefe e criticou "a perfídia do General Toussaint Louverture", convidando Rigaud para "assumir o comando do Departamento do Sul". Hédouville acabou fugindo de Saint-Domingue, navegando de Le Cap em outubro de 1798 devido às ameaças de Toussaint.
A guerra
O início
O conflito ocorreu principalmente nos domínios de Rigaud, na parte sul de Saint-Domingue. Rigaud atacou primeiro: depois de massacrar muitos brancos na Província do Sul para garantir sua retaguarda, entre 16 e 18 de junho de 1799, Rigaud enviou 4.000 soldados para tomar as cidades fronteiriças ao sul, Petit-Goâve e Grand-Goâve, derrotando as forças menores do comandante de Louverture, Laplume. Laplume escapou por pouco da captura, com seu exército perdido em meio à confusão e às deserções. Sem fazer prisioneiros, os mulatos condenaram negros e brancos à espada. Após este ataque decisivo, Alexandre Pétion, um oficial mestiço livre (e futuro presidente haitiano), desertou para o lado de Rigaud, trazendo consigo um grande contingente de tropas veteranas.
Fora do Sul, Rigaud instigou revoltas menores nas regiões do norte, em torno de Le Cap, Port-de-Paix e Môle-Saint-Nicolas, bem como na planície centro-oeste de Artibonite. Muitas dessas regiões já haviam se revoltado repetidamente contra Toussaint no passado, em resposta às suas rígidas políticas trabalhistas e à sua tentativa de acomodar os fazendeiros brancos remanescentes, com o objetivo de regular o trabalho na produção de cana-de-açúcar e outras mercadorias para exportação.
A Reação Toussaint reagiu rapidamente para esmagar as revoltas no Norte. Sob a liderança de seus oficiais Henri Christophe e Jean-Jacques Dessalines, suas tropas orquestraram execuções em massa de suspeitos de conspiração. Em agosto de 1799, Toussaint escreveu ao presidente dos EUA, John Adams, convencendo a Marinha dos EUA a bloquear os portos controlados por Rigaud. Para os Estados Unidos, os laços de Rigaud com a França representavam uma ameaça ao comércio americano, prejudicado por corsários franceses nos últimos dois anos como parte da Quase-Guerra .
Após consolidar seu domínio no norte, no final de outubro, Toussaint prepara-se para atacar Rigaud ao sul. Possuindo uma clara vantagem numérica (entre 45.000 a 50.000 soldados, contra 15.000 de Rigaud), a ofensiva começa no início de novembro: Christophe ataca Jacmel, enquanto Dessalines inicia a recaptura de Grand e Petit Goâve. Uma frota americana se juntaria à ofensiva, seja destruindo as barcaças saqueadoras de Rigaud, transportando negros para a frente sul ou bombardeando as posições dos mulatos. No cerco de Jacmel por Toussaint, a fragata USS General Greene, comandada pelo Capitão Christopher Perry, acabaria fornecendo apoio de fogo.
Em meados de novembro, a ofensiva dos negros de Toussaint foi interrompida em Jacmel, símbolo da resistência mulata. Liderados por Pétion, os defensores recusaram-se a ceder aos ferozes ataques à cidade, e mesmo no início de 1800, com os estoques de alimentos chegando ao fim, a cidade continuava repelindo os violentos ataques de Dessalines. Por uma vez, durante o cerco, os negros chegaram a invadir a cidade sitiada, apenas para serem cercados e massacrados pelos defensores. Por fim, na noite de 11 de março de 1800, Pétion abriu caminho a golpes de facão para escapar de Jacmel, mas as forças de Toussaint atacaram seu exército em retirada, matando ou capturando centenas de soldados.
Em junho, um emissário da França, enviado pelo recém-empossado Primeiro Cônsul Napoleão Bonaparte (o qual derrubara recentemente o Diretório), reafirmou a posição de Toussaint como general-em-chefe; minando as alegações de Rigaud, de que Hédouville havia anulado a autoridade deste. No final de julho, Rigaud fugiu junto com sua família para a França, e Toussaint entrou em sua base, Les Cayes, consolidando-se como governante de toda Saint-Domingue.
Consequências
Massacres Após a vitória sobre Rigaud, Toussaint declarou uma anistia geral em julho de 1800, mas o general de Toussaint, Jean-Jacques Dessalines, tornou-se infame por realizar represálias brutais e massacres contra os partidários de Rigaud. Alguns historiadores afirmam que o próprio Toussaint ordenou massacres, mas delegou a execução aos seus generais para evitar a culpabilidade. O número de vítimas permanece contestado: o general francês contemporâneo François Joseph Pamphile de Lacroix sugere 10.000 mortes, enquanto CLR James, um historiador do século XX de Trinidad, afirma que apenas algumas centenas de pessoas foram mortas, violando a anistia.
Invasão de Santo Domingo Cinco meses após o fim da guerra, em dezembro de 1800, Toussaint ordenou a invasão da colônia espanhola de Santo Domingo, na metade oriental da ilha de Hispaniola. Embora a Espanha tivesse cedido Santo Domingo à França em 1795, por meio da Paz de Basileia, a colônia ainda era controlada por uma administração espanhola. A invasão não encontrou resistência, e o governador espanhol capitulou um mês depois.
Os motivos de Toussaint para invadir Santo Domingo são diversos e obscuros. Ao longo da guerra, as autoridades espanholas em Santo Domingo apoiaram Rigaud, temendo os planos de Toussaint para toda a Hispaniola. Toussaint, por sua vez, suspeitava que os espanhóis estivessem oferecendo ajuda militar direta ao inimigo. O oficial gens de couleur Antoine Chanlatte, por exemplo, viajou para Santo Domingo em 1800 para adquirir munições para a causa de Rigaud. O cônsul americano Edward Stevens afirmaria que Toussaint lançou a invasão em resposta a um rumor de que a França estaria enviando 15.000 soldados a Santo Domingo em apoio a Riguad. Toussaint também afirmou que "cidadãos franceses" negros estavam sendo sequestrados e vendidos como escravos em Santo Domingo, e poderia ter desejado emancipar a população escravizada restante desta colônia com a invasão, embora não tenha feito menção à escravidão em sua declaração de guerra.
A queda de Toussaint
Com sua vitória sobre Rigaud e a conquista de Santo Domingo, Toussaint controlava toda a ilha de Hispaniola em 1801. No entanto, Rigaud retorna menos de dois anos depois, quando ele e seu companheiro exilado Pétion se juntaram à Expedição de São Domingos, liderada por Charles Leclerc em 1802, para reafirmar o controle francês sobre a colônia. Durante a campanha, Leclerc deportou Rigaud e Toussaint de Saint Domingue, e o último morreria em uma prisão francesa em 1803.
Confusão com o termo "Guerra das Facas" A Guerra do Sul não deve ser confundida com os termos gerais "guerra de facas", "guerra de lâminas" ou "guerra de facas". Estes termos fazem referência à brutalidade extrema dos combates: como faltavam armas de fogo e munições modernas para ambos os lados, em várias ocasiões foi comum o uso de facas, baionetas e facões de cortar cana (machetes), resultando em massacres corpo a corpo muito violentos . Essa matança ainda era vívida na memória dos haitianos da década de 1820.
O historiador Joseph Saint-Rémy relata como o episódio de terror realizado pela liderança Louverturiana no final da Guerra do Sul foi apelidado de "guerra das facas" ("guerre des couteaux") pelos habitantes sulistas. O diplomata francês Gaspard Théodore Mollien, que esteve em representação no Haiti de 1825 a 1831, relatou que a revolta do Norte, em outubro de 1801, na qual centenas de brancos foram assassinados, foi apelidada de "guerra das facas" ("guerre aux couteaux"). Em outro exemplo distinto, os historiadores Thomas Madiou e Beaubrun Ardouin observaram que a repressão da mesma revolta no Norte também foi apelidada de "guerra das facas" ("guerre-couteaux") porque outras centenas de trabalhadores negros foram mortos a baioneta pelas tropas Louverturianas.
Etnicidade e o conflito