O Tesouro de Vilhena é um conjunto de ourivesaria pré-histórica descoberto em 1963 nas imediações de Vilhena, na província de Alicante, Espanha. É formado por 66 peças de ouro, prata, ferro e âmbar, que se agrupam em 59 objetos identificáveis e totalizam 9754 gramas, dos quais mais de nove quilogramas são de ouro. Trata-se do mais importante achado de ouro pré-histórico da Península Ibérica e, no que respeita a baixela áurea, do segundo conjunto mais relevante da Idade do Bronze europeia, apenas ultrapassado pelo das tumbas reais de Micenas, na Grécia.

O depósito foi encontrado pelo arqueólogo villenense José María Soler García no leito de uma rambla — curso de água temporário — a cerca de cinco quilómetros do centro urbano, guardado no interior de uma vasilha de tradição argárica. Duas das peças, um bracelete e uma semiesfera oca revestida a ouro, foram fabricadas com ferro meteorítico, o que faz delas os objetos de ferro mais antigos conhecidos na Península Ibérica e testemunho de uma fase em que o metal era ainda considerado precioso.

Exposto durante seis décadas no museu municipal de Vilhena, o conjunto foi declarado Bem de Interesse Cultural em 2005. Na madrugada de 27 de agosto de 2026, a maior parte das peças de ouro foi furtada do museu num assalto que durou cerca de quatro minutos; a Guarda Civil mantém a investigação em curso.

Descoberta

Os primeiros braceletes alt=Fotografia do tesouro no vaso em que foi encontrado|miniaturadaimagem|Fotografia do tesouro no vaso em que foi encontrado A expansão urbanística de Vilhena na década de 1960 obrigou a procurar novos locais de extração de cascalho para fabrico de betão. Em outubro de 1963, o pedreiro Francisco García Arnedo encontrou uma peça metálica entre o cascalho de uma obra na cidade e entregou-a ao encarregado, convencido de que seria um componente de um camião. Depois de passar por várias mãos, a peça chegou em 22 de outubro à ourivesaria de Carlos Miguel Esquembre Alonso, que reconheceu tratar-se de um bracelete de ouro e avisou José María Soler. Receando que o objeto tivesse sido mutilado ou que a origem declarada fosse falsa, Soler comunicou o caso ao juiz de instrução local, sem que as diligências esclarecessem a proveniência.

Em 25 de novembro apareceu na mesma ourivesaria um segundo bracelete, de características semelhantes e com idênticas aderências terrosas, apresentado como herança familiar. Confrontado com as diligências judiciais, o portador acabou por indicar que o tinha encontrado numa rambla próxima da serra do Morrón. Uma inspeção ao local, a 30 de novembro, levou à decisão de escavar.

Escavação A rambla do Panadero, troço inferior do barranco Roch, situa-se no vale de Benejama, a sul da serra do Morrón e a cerca de cinco quilómetros de Vilhena. Soler deslocou-se ao local a 1 de dezembro de 1963 com uma pequena equipa e delimitou uma área de cerca de 30 m² junto às ruínas de umas construções de época islâmica. A escavação por camadas de um metro quadrado com vestígios de incineração nada produziu; ao fim da tarde, já com a equipa prestes a regressar, um dos participantes descobriu com a enxada dois braceletes e o bordo de uma vasilha.

Sem meios para levantar o achado em segurança e com a noite a cair, Soler considerou temerário voltar a cobri-lo e mandou chamar um fotógrafo com equipamento de iluminação. As imagens então obtidas são as únicas do depósito in situ. A vasilha foi transportada inteira para o gabinete do arqueólogo, onde se procedeu ao seu esvaziamento.

Apresentação pública alt=O tesouro, tal como estava exposto no antigo museu|miniaturadaimagem|O tesouro, tal como estava exposto no antigo museu O conjunto foi exposto pela primeira vez no Natal de 1963, nas instalações do museu arqueológico de Vilhena. A 27 de dezembro, um ferroviário entregou voluntariamente um terceiro bracelete que guardava em casa sem saber a sua origem e que a filha identificara ao visitar a exposição. O achado teve eco na imprensa espanhola e em meios de França, Alemanha e Estados Unidos, e o original viria a ser exposto em Madrid, Alicante, Tóquio e Quioto. Para as exposições itinerantes produziram-se duas réplicas integrais, mantendo-se o original numa vitrina blindada do museu de Vilhena.

Composição Das 66 peças recuperadas, 56 combinam-se em 49 objetos completos; as dez restantes, arrancadas de objetos compostos difíceis de reconstituir, contam-se individualmente, perfazendo 59 objetos. +Objetos por tipo e pesoObjetoQuantidadePeso (g)Braceletes de ouro285170,35Bracelete de ferro131,85Taças de ouro113508,14Frascos de ouro2380,97Frascos de prata3556,83Remate de ferro e ouro150,49Botão de ouro e âmbar15,84Peças diversas1249,81Total599754,31 Os braceletes representam quase metade dos objetos e 54 % do peso; as taças, 36 %. Por materiais, o ouro domina de forma esmagadora: 60 das 66 peças e cerca de 93 % da massa total. +Distribuição por materialOuroPrataFerroFerro e ouroÂmbarTotalNúmero de peças60311166Peso (g)9112,13556,8431,8650,5039754,32

Tipologia

Braceletes Salvo uma exceção, todos os braceletes têm as extremidades separadas. O diâmetro médio ronda os 58 mm e o peso médio os 184 g, embora a dispersão seja grande — entre 56 e 384 g. Soler reconstituiu o processo de fabrico em quatro operações sucessivas: fundição de tiras plano-convexas; obtenção dos sulcos das molduras por batimento sobre molde cortante; perfuração da faixa central a cinzel ou punção; e transformação das molduras em aros de pontas. Nem todas as peças passaram pelas quatro fases, o que sugere que algumas ficaram inacabadas e permite ordenar tipologicamente a série.

Distinguem-se quatro grupos:

Lisos (peças 2 a 5): face interior plana ou ligeiramente côncava e superfície exterior convexa, de perfil quase ogival. Moldurados sem vazamento: um exemplar sem pontas, provavelmente inacabado, e dois com pontas obtidas com boquilha aplicada a intervalos regulares. Moldurados e vazados com vazamento simples: a série mais numerosa, com 17 peças de perfil ameado em secção transversal e faixa central perfurada a cinzel. Moldurados com vazamento duplo: quatro peças com duas fiadas de perfurações.

O bracelete n.º 29 é considerado a peça de maior qualidade do conjunto e uma das mais notáveis da pré-história peninsular: combina molduras salientes, 522 pontas e 124 orifícios numa grelha central, num jogo rítmico de alturas diferentes. O n.º 28, de composição semelhante mas mais simples, foi aproximado por Soler dos braceletes de Portalegre e de Estremoz, em Portugal.

Taças As onze taças formam uma baixela sem paralelo na Idade do Bronze peninsular. Todas foram obtidas por batimento de chapa de ouro, com forma de calote semiesférica e colo curto, correspondendo tipologicamente aos recipientes argáricos. A decoração é exclusivamente geométrica, obtida por pontos em relevo levantados a punção rombo a partir do interior. Uma das peças, de forma ovoide, e outra, carenada, escapam ao padrão dominante; as restantes organizam-se em séries com faixas concêntricas, grinaldas ou motivos radiais.

Frascos Os cinco frascos — dois de ouro e três de prata — partilham forma, técnica e decoração, variando apenas na dimensão. Têm corpo esferoide achatado na base, colo côncavo e bordo liso, e foram fabricados numa só peça, sem vestígios de soldadura. A decoração consiste em duas molduras horizontais unidas por seis verticais.

Botões e peças diversas Duas peças compostas funcionam como botões ou broches, atravessados por um passador que se abre em duas ramas no reverso. A maior consiste numa semiesfera oca de aspeto ferroso revestida por uma fina lâmina de ouro decorada com oito bandas radiais; a outra alojava um disco de âmbar, recuperado fragmentado, numa moldura de ouro. As restantes peças — conteras, virolas troncocónicas, lâminas alongadas com apêndices rebitados e uma pequena taça semiesférica — são habitualmente interpretadas como revestimentos de um objeto compósito em material perecível, possivelmente um bastão de comando, conhecido localmente como Bastón del Reyezuelo.

Estudos arqueométricos

O ouro Cinquenta e quatro peças de ouro foram analisadas em setembro de 1968 por Axel Hartmann, do Landesmuseum Württemberg de Estugarda. Os resultados indicam teores de prata entre cerca de 4 % e 13 % e proporções de cobre e estanho muito baixas, compatíveis com ouro nativo de origem fluvial e sem indícios de ligas intencionais. A proveniência da matéria-prima permanece em aberto: nem o Segura nem o Vinalopó são considerados auríferos, embora existam referências históricas e geológicas a ocorrências de ouro no sudeste peninsular.

O ferro meteorítico Os dois objetos de ferro levantaram desde o início dúvidas cronológicas, por serem muito anteriores à produção corrente de ferro na Península Ibérica. Análises por espectrometria e fluorescência de raios X realizadas em laboratórios do Museu Arqueológico Nacional de Espanha e do Curt-Engelhorn-Zentrum Archäometrie de Mannheim, publicadas em 2023 por Salvador Rovira-Llorens, Martina Renzi e Ignacio Montero-Ruiz, detetaram teores de níquel compatíveis com ferro meteorítico. A conclusão resolve a contradição cronológica: as peças podem situar-se no Bronze Tardio, antes do início da metalurgia do ferro terrestre na região, e constituem os mais antigos objetos de origem meteorítica conhecidos na Península Ibérica.

Interpretação e cronologia O caráter fechado do depósito, guardado numa única vasilha enterrada longe de qualquer povoado conhecido, aponta para uma ocultação deliberada. As hipóteses avançadas incluem o escondimento de um tesouro em situação de perigo, uma oferenda votiva ou um conjunto associado à circulação de bens de elite entre comunidades. A vasilha é argárica na forma, pasta, cozedura e cor, e os anéis do chamado Tesourinho do Cabezo Redondo apresentam semelhanças técnicas com os braceletes, o que levou Soler a atribuir a ocultação à população daquele povoado, situado no mesmo termo municipal e onde está documentada atividade de ourivesaria.

Soler enquadrou o conjunto por volta de 1000 a.C., com base no grau de evolução das formas e da decoração, sem necessidade de recorrer a influências hallstáticas. A investigação posterior tende a associá-lo à fase final do Cabezo Redondo e a cronologias do Bronze Tardio, e parte da bibliografia de divulgação aponta datações em torno de 1250 a.C.

Os paralelos formais mais próximos fora do sudeste peninsular encontram-se na fachada atlântica, designadamente nos braceletes de Portalegre e de Estremoz e em achados da região de Peniche, em Portugal, aproximações estabelecidas por Soler a partir dos trabalhos de Mário Cardozo e Afonso do Paço. Fora da Península, foram assinaladas semelhanças técnicas com o depósito de Eberswalde, na Alemanha.

Conservação As peças de ouro apareceram em excelente estado. As de prata, pelo contrário, sofreram corrosão prolongada pelo contacto com o solo alcalino e pela pressão do terreno, agravada pelo peso dos braceletes que sobre elas assentavam. Uma primeira intervenção, em 1963, reintegrou as partes em falta e estabilizou os dois frascos maiores. Trinta e cinco anos depois, com fragmentos a ameaçar desprender-se, as peças foram enviadas para o Instituto do Património Histórico Espanhol, onde permaneceram entre abril e agosto de 1998; a reintegração volumétrica foi feita com resina de carga totalmente reversível, seguida da aplicação de uma camada de proteção específica para prata.

Estatuto patrimonial O procedimento de classificação foi iniciado por resolução de 7 de janeiro de 2003 da Direção-Geral do Património Artístico da Generalitat Valenciana, publicada no Boletín Oficial del Estado. A coleção arqueológica do Tesouro de Vilhena foi declarada Bem de Interesse Cultural em 1 de abril de 2005.

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