O Incidente de Bir Mauna () foi o massacre de um grupo de muçulmanos enviado por Maomé a Négede em 4 A.H. (625). Segundo a tradição predominante nas fontes islâmicas, , chefe dos amiritas, solicitou que Maomé enviasse homens para ensinar o islã e o Alcorão e garantiu-lhes sua proteção. O grupo, comandado por , seria constituído principalmente por ançares e integrantes da Sufa, embora as fontes divirjam quanto ao seu número.

Ao chegar a Bir Mauna, um poço situado entre os territórios dos amiritas e dos soleimitas, foi enviado com uma carta de Maomé e acabou morto por ordem de Amir ibne Atufail. Este tentou mobilizar os amiritas contra os demais integrantes do grupo, mas eles se recusaram a violar a proteção concedida por Abu Bará. Amir obteve então o apoio dos clãs soleimitas rilita, dacuanita e uçaiaíta, que atacaram o grupo e mataram a maior parte de seus integrantes. Entre os sobreviventes esteve Anre ibne Omaia Adameri, posteriormente libertado por Amir.

A natureza da missão é objeto de interpretações divergentes. A tradição adotada pela Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi apresenta os enviados como cerca de setenta encarregados de instrução religiosa, enquanto outras fontes fornecem números menores. C. E. Bosworth considera possível que o episódio tenha correspondido originalmente a uma campanha posteriormente descrita como missão religiosa e observa que seu caráter exato não pode ser determinado. Ahmet Önkal rejeita essa interpretação e sustenta que o grupo tinha finalidade de instrução religiosa, e não de combate.

Antecedentes

No início de 4 A.H. (625), , chefe dos amiritas, visitou Maomé em Medina e recebeu dele informações sobre o islã. Embora não tenha se convertido, pediu que Maomé enviasse alguns homens para apresentar a religião à sua tribo. Maomé manifestou receio pela segurança dos enviados, mas Abu Bará garantiu-lhes sua proteção. Segundo Ahmet Önkal, Maomé encarregou então cerca de setenta , em sua maioria ançares e integrantes da Sufa, de ensinar o islã e o Alcorão aos membros da tribo. O grupo foi colocado sob o comando de , e Maomé entregou-lhe também uma carta destinada aos chefes tribais. Önkal registra ainda uma tradição segundo a qual o grupo teria sido enviado após os clãs soleimitas dos , , , além dos liianitas hudailitas, solicitarem auxílio de Maomé contra seus inimigos.

As fontes apresentam números divergentes para os integrantes do grupo. Önkal considera que as tradições consideradas autênticas indicam cerca de setenta homens, enquanto o verbete de Anre ibne Omaia Adameri na Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi menciona uma missão composta por quarenta homens. C. E. Bosworth observa que as fontes fornecem os números de setenta, quarenta e vinte e nove, enquanto Aluaquidi menciona apenas seis. Para Bosworth, a presença de um grupo numeroso numa missão religiosa seria desnecessária e, por isso, o episódio pode ter correspondido originalmente a uma campanha posteriormente descrita como uma incursão de caráter religioso. O autor menciona ainda uma tradição segundo a qual o chefe do grupo teria sido enviado como espião para descobrir uma estrada em Négede.

Ataque em Bir Mauna

O grupo deixou Medina no início de Sáfar, quatro meses depois da Batalha de Uude, e chegou a Bir Mauna em julho de 625. Bir Mauna era um poço situado na estrada entre Meca e Medina, entre os territórios dos amiritas e dos soleimitas, mais próximo destes últimos. Os muçulmanos instalaram-se numa caverna junto ao poço, e foi encarregado de levar a carta de Maomé ao chefe dos amiritas. Segundo o verbete biográfico de Harame, Almondir ibne Anre enviou-o acompanhado por e . Durante o caminho, os três encontraram homens sob o comando de Amir ibne Atufail. Harame aproximou-se deles após instruir seus companheiros a permanecerem afastados e pediu proteção, identificando-os como emissários de Maomé. Amir ordenou então que um de seus homens o atingisse pelas costas com uma lança.

Outra tradição relaciona a morte de Harame a um rumor de que Abu Bará havia morrido. Nessa versão, Harame entregou a carta de Maomé ao sobrinho de Abu Bará, Amir ibne Atufail, e convidou os presentes a aceitar o islã. Amir não abriu a carta e mandou matar Harame com uma lança enquanto este falava; segundo outra versão, o próprio Amir o matou. Após ser ferido, Harame teria passado as mãos no sangue que jorrava da ferida e o espalhado sobre o rosto e a cabeça, exclamando que havia triunfado pelo Senhor da Caaba. Amir ibne Atufail procurou em seguida mobilizar os amiritas contra os demais integrantes do grupo. Eles recusaram-se a participar do ataque porque Abu Bará havia anunciado previamente que garantia a segurança dos enviados. Amir recorreu então aos clãs rilita, dacuanita e uçaiaíta dos soleimitas, com os quais mantinha relações de amizade. Segundo Önkal, , chefe dos rilitas, mobilizou seu próprio clã, além dos dacuanitas e uçaiaítas. Anas era tio materno de , que havia sido capturado pelos muçulmanos na Batalha de Badre e morto por ordem de Maomé, e pretendia vingar a morte do sobrinho. O verbete biográfico de Amir ibne Atufail também o identifica como responsável pela emboscada e pelo massacre do grupo, realizado com o apoio dos soleimitas.

Os grupos armados reunidos entre os soleimitas atacaram os muçulmanos que permaneciam em Bir Mauna. Entre os integrantes mortos estava , que foi atingido pelas costas por uma lança arremessada por , atravessando-lhe o peito. Segundo a tradição registrada por Sandıkçı, Amir exclamou no momento em que foi atingido que havia triunfado, episódio que teria impressionado Jabar e contribuído para sua posterior conversão ao islã. Jabar e Amir ibne Atufail teriam ainda relatado que viram o corpo de Amir ibne Fuaira elevar-se em direção ao céu e depois retornar ao solo. Segundo Önkal, foram mortos todos os integrantes do grupo, com exceção de Caabe ibne Zaíde, que, gravemente ferido, foi deixado no local por ser considerado morto, e de Almondir ibne Maomé e Anre ibne Omaia Adameri, que se encontravam apascentando os camelos. Ao saber do massacre, Almondir atacou os adversários e também foi morto. Anre foi capturado, mas, após declarar que pertencia a Modar, Amir ibne Atufail o libertou para cumprir um voto de sua mãe de alforriar um escravo. O relato biográfico de Anre confirma que ele escapou do massacre porque estava apascentando os animais do grupo, sendo posteriormente capturado e libertado por Amir em cumprimento ao voto materno. No caminho de volta a Medina, Anre encontrou dois homens dos amiritas e os matou enquanto dormiam, pretendendo vingar os mortos de Bir Mauna. Ele desconhecia, porém, que ambos haviam se tornado muçulmanos e estavam sob a proteção de Maomé. Ao ser informado do ocorrido, Maomé lamentou a morte dos dois homens e enviou o preço de sangue devido às suas famílias.

Consequências e interpretações

Segundo Önkal, Maomé foi informado do massacre por revelação e ficou profundamente abalado. Durante trinta ou quarenta dias, nas orações da manhã, amaldiçoou as tribos responsabilizadas pelo episódio. Bosworth igualmente afirma que Maomé aparentemente amaldiçoou diariamente os soleimitas até a revelação de um versículo do Alcorão, que o autor identifica como 3:160/163. Önkal registra que algumas tradições associam a interrupção dessas imprecações ao versículo 3:128, mas considera preferível a interpretação segundo a qual esse versículo foi revelado em relação à Batalha de Uude, na qual Maomé havia sido ferido, e não ao Incidente de Bir Mauna.

A natureza da missão e as circunstâncias que levaram ao massacre receberam interpretações diferentes. Bosworth observa que a narrativa tradicional conferiu ao episódio uma aura de martírio religioso, mas considera problemática a grande variação no número dos curras e questiona a necessidade de um contingente numeroso para uma missão religiosa. Segundo ele, o episódio pode ter sido uma campanha descrita posteriormente como uma incursão, e Maomé aparentemente havia sido convidado a intervir numa disputa interna entre os soleimitas. O incidente teria também se relacionado à rivalidade entre Abu Bará e Amir ibne Atufail. Bosworth considera que não é possível determinar com precisão o caráter do ataque, embora sugira que os soleimitas da região possam tê-lo incentivado.

Önkal, por sua vez, rejeita a interpretação de que a narrativa de uma missão religiosa tenha sido elaborada posteriormente para encobrir uma derrota militar. Segundo ele, as fontes islâmicas registraram detalhadamente tanto vitórias quanto derrotas dos muçulmanos, e não haveria fundamento para atribuir aos tradicionalistas a invenção do relato com essa finalidade. O autor também rejeita a objeção de que não pudesse haver em Medina, naquele período, número tão elevado de curras e sustenta que o grupo enviado a Bir Mauna tinha finalidade de instrução religiosa, e não de combate.

Bibliografia

Categoria:Batalhas envolvendo o Primeiro Estado Islâmico Categoria:625