Tzolk'in, pronunciado e também escrito tzolkin,A grafia tzolk'in segue a adaptação da ortografia das línguas maias adotada pela Academia de Línguas Maias da Guatemala. As convenções de escrita e suas diferenças são discutidas em Kettunen e Helmke, 2020, pp. 7–8. é o calendário mesoamericano de 260 dias usado pela civilização maia na Mesoamérica pré-colombiana.
O tzolk'in é o ciclo básico do calendário maia e orienta cerimônias e decisões das comunidades maias desde o período pré-colombiano. É usado por comunidades dos povos maias nas terras altas da Guatemala.Weeks, Sachse e Prager, 2009, pp. 1–10. A retomada dos calendários integra os esforços de revitalização das comunidades maias na região. Em algumas comunidades, o trabalho dos adivinhos que usam o calendário enfrenta a oposição de convertidos ao cristianismo evangélico.
A palavra tzolk'in é um neologismo criado por pesquisadores ocidentais a partir do maia iucateque, com o sentido de "contagem ordenada dos dias". Os grupos maias que mantêm a contagem há mais de 500 anos usam nomes em suas próprias línguas. Entre os quichés, há o nome Ajilab'al Q'ij, "contagem dos dias". Chol Q'ij, "ordem dos dias", é usado nas línguas quicheanas, entre elas a dos caqchiquéis.Weeks, Sachse e Prager, 2009, pp. 2–3. Os nomes usados pelos maias pré-colombianos não são bem conhecidos. O calendário equivalente dos astecas no período pós-clássico era chamado tonalpohualli em náuatle.
Os vinte nomes dos dias O tzolk'in combina um ciclo de vinte dias com nomes próprios e outro de treze números, a trezena, formando 260 combinações diferentes. Como 20 e 13 são primos entre si, seu mínimo múltiplo comum é 20 × 13, ou 260. Os números avançam de 1 a 13 e recomeçam em 1, enquanto os nomes seguem sua própria sequência de vinte dias.Kettunen e Helmke, 2020, p. 49.
Os vinte dias recebem os nomes a seguir.
+ Nomes dos dias do tzolk'in e seus glifos, em sequênciaKettunen e Helmke, 2020, pp. 56–57. Miller e Taube, 1993, p. 49. Número na sequência1 Nome do dia2 Exemplo de glifo em inscrição3 Exemplo de glifo em códice4 Nome em iucateque no século XVI5 Nome reconstruído em maia clássico6 Fenômenos naturais ou sentidos do dia7 01 Imix 50px|alt=Glifo de Imix em inscrição 50px|alt=Glifo de Imix em códice Imix Ha' ? Naah Kan, a Serpente Primordial, também chamada Serpente do Nenúfar ou Serpente Aquática. Esse deus é a essência da água, e seu corpo é uma faixa ondulante de água. 02 Ik' 50px|alt=Glifo de Ik' em inscrição 50px|alt=Glifo de Ik' em códice Ik Ik' vento, sopro, força vital 03 Ak'b'al 50px|alt=Glifo de Ak'b'al em inscrição 50px|alt=Glifo de Ak'b'al em códice Akbal Ak'ab ? escuridão, noite, alvorada 04 K'an 50px|alt=Glifo de K'an em inscrição 50px|alt=Glifo de K'an em códice Kan Ohl ? rede, sacrifício 05 Chikchan 50px|alt=Glifo de Chikchan em inscrição 50px|alt=Glifo de Chikchan em códice Chicchan desconhecido serpente cosmológica 06 Kimi 50px|alt=Glifo de Kimi em inscrição 50px|alt=Glifo de Kimi em códice Cimi Cham ? morte 07 Manik' 50px|alt=Glifo de Manik' em inscrição 50px|alt=Glifo de Manik' em códice Manik Chij ? veado 08 Lamat 50px|alt=Glifo de Lamat em inscrição 50px|alt=Glifo de Lamat em códice Lamat Ek' / Lamaht ? Vênus, estrela, amadurecimento, sementes de milho 09 Muluk 50px|alt=Glifo de Muluk em inscrição 50px|alt=Glifo de Muluk em códice Muluc desconhecido jade, água, oferenda 10 Ok 50px|alt=Glifo de Ok em inscrição 50px|alt=Glifo de Ok em códice Oc Ook ? cão 11 Chuwen 50px|alt=Glifo de Chuwen em inscrição 50px|alt=Glifo de Chuwen em códice Chuen desconhecido bugio 12 Eb' 50px|alt=Glifo de Eb' em inscrição 50px|alt=Glifo de Eb' em códice Eb desconhecido chuva 13 B'en 50px|alt=Glifo de B'en em inscrição 50px|alt=Glifo de B'en em códice Ben desconhecido milho verde ou jovem, semente 14 Ix 50px|alt=Glifo de Ix em inscrição 50px|alt=Glifo de Ix em códice Ix Hix ? jaguar 15 Men 50px|alt=Glifo de Men em inscrição 50px|alt=Glifo de Men em códice Men Tz'ikin ? águia 16 Kib' 50px|alt=Glifo de Kib' em inscrição 50px|alt=Glifo de Kib' em códice Cib desconhecido cera 17 Kab'an 50px|alt=Glifo de Kab'an em inscrição 50px|alt=Glifo de Kab'an em códice Caban Chab / Kab ? terra 18 Etz'nab' 50px|alt=Glifo de Etz'nab' em inscrição 50px|alt=Glifo de Etz'nab' em códice Etznab desconhecido sílex 19 Kawak 50px|alt=Glifo de Kawak em inscrição 50px|alt=Glifo de Kawak em códice Cauac desconhecido tempestade de chuva 20 Ajaw 50px|alt=Glifo de Ajaw em inscrição 50px|alt=Glifo de Ajaw em códice Ahau Ajaw senhor, governante, SolNotas da tabela Número do dia na sequência do calendário tzolk'in. Nome do dia na ortografia revista e padronizada a partir das convenções da Academia de Línguas Maias da Guatemala. Exemplo de logograma usado para o dia em inscrições monumentais, na forma de cartucho. A maioria dos glifos também tem outras formas. Exemplo de glifo no estilo dos códices maias. Nos desenhos e nas pinturas, costumava-se usar uma forma mais simples, com o mesmo sentido. Também há variantes nesse estilo. Nome do dia nas descrições em iucateque do século XVI, sobretudo na obra de Diego de Landa. Essa grafia foi amplamente usada até a adoção das convenções revistas. Na maioria dos casos, não se conhece o nome pronunciado no período clássico, aproximadamente entre 200 e 900, quando foi feita a maior parte das inscrições. As formas em maia clássico, a principal língua dessas inscrições, são reconstruções baseadas em comparações fonológicas. O ponto de interrogação assinala uma reconstrução incerta. Cada dia tinha um sentido ou uma relação habitual com determinados fenômenos naturais.
Não há consenso sobre um dia inicial ou final do tzolk'in. Os livros de Chilam Balam, porém, mencionam 1 Imix como dia de início.Thompson, 1950, pp. 96–99.
Cada um dos vinte dias tem sentidos próprios relacionados ao seu nome.As interpretações desta lista seguem Wright, 1989.
Imix, "crocodilo", é o corpo reptiliano da Terra ou do mundo. Ik, "vento", é o sopro e a vida, mas também a violência. Akbal, "casa da noite", é a escuridão e o mundo subterrâneo, domínio do Sol noturno em forma de jaguar. Kan, "milho", é o signo do jovem senhor do milho, que traz a abundância e o amadurecimento. Também pode ser lagarto ou rede. Chicchan, "serpente", é a serpente celeste. Cimi significa "morte". Manik, "veado", é o signo do Senhor da Caça. Lamat, "coelho", é o signo de Vênus e do pôr do sol. O glifo pode retratar quatro grãos de milho. Xquic o invoca pelo nome feminino "Ixq'anil". Muluc, "água", tem o jade como símbolo e é um aspecto das divindades aquáticas. Também pode ser peixe. Xquic o invoca pelo nome feminino "Ixtoj". Oc, "cão", guia o Sol noturno pelo mundo subterrâneo. Chuen, "macaco", é o grande artesão, patrono das artes e do conhecimento. Também pode ser fio. Eb, "erva" ou "ponta", tem relação com as chuvas e as tempestades. Ben, "cana", favorece o crescimento do milho, da cana e dos seres humanos. Ix, "jaguar", é o Sol noturno e também o milho. Tem relação com a deusa Ixchel. Men, "águia", é o sábio, a ave e a Lua. Cib, "coruja" ou "abutre", reúne as aves da morte, noturna e diurna. Também pode ser cera, alma ou inseto. Caban, "terremoto", é uma força temível. Também pode ser estação do ano ou pensamento. Etz'nab, "faca", é a lâmina de obsidiana usada nos sacrifícios. Cauac, "chuva" ou "tempestade", reúne as serpentes-dragões celestes e os chacs, deuses do trovão e do relâmpago. Ahau, "senhor", é o deus solar radiante. Também tem relação com os heróis gêmeos maias.
As variantes dos nomes e as interpretações abaixo pertencem a três calendários das terras altas da Guatemala escritos após a conquista espanhola. A lista se baseia sobretudo no manuscrito de 1854 de Vicente Hernández Spina. As classificações de dias como bons ou ruins fazem parte das crenças reunidas nesses calendários.Weeks, Sachse e Prager, 2009, pp. 13–15.
Imox é um dia ruim, relacionado à loucura. Nele, os sacerdotes do Sol pedem que espíritos malignos causem mal a seus inimigos. Iq é um dia ruim, ligado às forças destrutivas da natureza. Essa força reside em ídolos de pedra, aos quais se oferecem incenso, rosas, velas, folhas de pinheiro e aguardente. Atribuem-se a esse dia tumores e inchaços dolorosos. Aqabal é um dia ruim, no qual os sacerdotes do Sol vão aos santuários fazer preces contra seus inimigos. Seu sentido abrange o mal em geral e, em particular, os caluniadores. Kat é um dia ruim pelo mesmo motivo que Aqabal, por seu sentido de mal em geral. Kan é um dia ruim, ao qual se atribuem doenças e a crueldade arbitrária da natureza. Kame é um dia ruim no calendário de Spina, do século XIX, e um dia bom na interpretação publicada por Ruth Leah Bunzel no século XX. A morte dissolve nele tudo o que há de bom e de mau. É um dia propício para confessar as próprias más ações e pedir perdão. Keej é um dia bom para fazer pedidos, solicitar favores e honrar os antepassados. Qanil é um dia bom, consagrado aos deuses da fertilidade. Tem relação com a alimentação humana, o crescimento das plantações, o ciclo de morte e renascimento e a milpa. Depois da colheita, é em Qanil que se fazem os agradecimentos. Toj é um dia ruim, ligado à doença. Acredita-se que quem nasce nele será perverso. É um dia propício para desejar que um inimigo adoeça. Tzi é um dia ruim, ligado à depravação sexual. Não se devem realizar cerimônias nesse dia. Batz é um dia ruim, ligado à paralisia. Há também uma interpretação favorável, na qual o dia remete aos antepassados. E é um dia bom, ligado ao destino, à fortuna e às características essenciais da personalidade. Nele podem ser celebrados casamentos e feitos sacrifícios a divindades benévolas. Aj é um dia bom, consagrado aos deuses da fertilidade, aos pastores e aos animais domésticos. Seu sentido é o destino de cada pessoa, que toma forma em seu nagual. Ix é um dia bom, consagrado aos espíritos das montanhas e das florestas. Nele se pede proteção para os rebanhos e outros animais contra lobos e predadores selvagens. Seu sentido abrange a força criadora e a própria terra. Tzikin é o melhor de todos os dias. Fazem-se oferendas em dobro nos santuários, nas florestas e nas cavernas. É propício para fazer pedidos, buscar perdão e concluir assuntos de maior importância. Ajmaq também é um dia muito bom, consagrado aos espíritos que zelam pela saúde. Noj é um dia favorável para pedir discernimento. Seu sentido abrange as qualidades morais e amorais dos seres humanos. Tijax é um dia bom, de discussões verbais e propício à confissão dos pecados. Kawoq pode ser indiferente ou ruim. Seu sentido é a maldade dos mortos. Junapu ou Ajpu é um dia indiferente, sem presságios bons ou ruins. Nele, o poder dos antepassados toma forma na própria casa.
Usos O tzolk'in foi amplamente usado nas inscrições e nos códices maias. Os almanaques do Códice de Dresden distribuíam prognósticos favoráveis, desfavoráveis ou indiferentes por datas do calendário. Esses prognósticos orientavam atividades agrícolas e cerimônias, além de questões relativas ao tempo, à doença e à cura.Weeks, Sachse e Prager, 2009, p. 4.
O Popol Vuh, escrito nas primeiras décadas após a conquista e provavelmente baseado em textos mais antigos, também contém elementos do tzolk'in. Em um episódio, Xmucane impõe a Xquic a tarefa impossível de encher uma rede de milho a partir de uma única planta. Xquic consegue cumpri-la e deixa a impressão da rede no chão. O dia "rede" abre o ciclo de Vênus que vem depois de "ahau", chamado "ajpu" em quiché, assim como seu filho é herdeiro de Hun Hunajpu.
Embora nem todos os usos antigos sejam conhecidos em detalhe, o calendário orienta as seguintes atividades nas comunidades maias.