Hamade ibne Zaíde (), cujo nome completo era Abu Ismail Hamade ibne Zaíde ibne Dirrame Alazraque Alazedi (; c. –), foi um tradicionalista, jurista e estudioso das leituras do Alcorão muçulmano, ativo sobretudo em Baçorá. De uma família de origem servil ligada por wala aos azeditas, estudou com numerosos tabis, entre os quais Tábite Albunani, Aiube Açaquetiani e Anre ibne Dinar, e tornou-se uma das principais autoridades religiosas de Baçorá em sua geração.

Hamade alcançou particular reputação no hádice, sendo considerado um transmissor confiável e conhecedor de milhares de tradições, que foram incorporadas às seis principais coleções canônicas. Entre os estudiosos que transmitiram por sua autoridade estiveram Sufiane Atauri, Xuba ibne Alhajaje, Sufiane ibne Uiaina, Abedalá ibne Almubaraque, Uaqui ibne Aljarrá, Abederramão ibne Mádi e Ali ibne Almadini. Era frequentemente associado a Hamade ibne Salama, sendo ambos conhecidos como al-Ḥammādayn ("os dois Hamades"), embora algumas autoridades considerassem Hamade ibne Zaíde mais sólido na transmissão do hádice.

Além de tradicionalista, foi reconhecido como autoridade jurídica, e seu prestígio em Baçorá foi comparado ao de Sufiane Atauri em Cufa, Maleque ibne Anas no Hejaz e Alauzai na Síria, sem que, contudo, tenha surgido em torno de seus ensinamentos uma escola jurídica duradoura. Também se dedicou às leituras corânicas e participou das controvérsias político-religiosas de seu tempo, sendo associado aos otomânidas. Cego durante parte de sua vida, morreu em Baçorá, segundo a data mais aceita, em 179 A.H. (795).

Vida e formação

Hamade ibne Zaíde nasceu em Baçorá, segundo a tradição predominante, em 98 A.H. (717), embora também sejam registrados os anos de 97 (716) e 99 A.H. (718). Sua família era de origem servil e estava ligada por wala aos azeditas, circunstância da qual deriva sua nisba Alazedi. As fontes apresentam versões divergentes sobre essa relação: segundo a tradição recolhida pela TDV, seu avô Dirrame procedia dos cativos do Sijistão, enquanto seu pai, Zaíde, era escravo de Abu Jarir Hazime ibne Hazime e foi alforriado pelos filhos de seu senhor após a morte deste; a Encyclopaedia of Islam, por sua vez, apresenta o próprio Hamade como escravo de Hazime ibne Zaíde Aljadami, que o teria libertado. Hamade também aparece com a nisba Aljadami, explicada por sua residência num bairro de Baçorá associado aos jadamitas ou pela vinculação destes aos azeditas. Era ainda conhecido pelo lacabe Alazraque, relacionado à aparência esbranquiçada de seus olhos após a perda da visão.

Hamade dedicou-se desde jovem ao hádice e recebeu tradições de numerosos estudiosos da geração dos tabis. Entre seus principais mestres estiveram Tábite Albunani, Aiube Açaquetiani, e Anre ibne Dinar. Manteve uma relação particularmente longa com Aiube Açaquetiani, cujo círculo frequentou durante cerca de vinte anos. Dedicou-se também às leituras do Alcorão, recebendo variantes de , e Abu Anre ibne Alalá, autoridades associadas às sete leituras canônicas. Não se conhece com precisão o momento em que Hamade perdeu a visão. Iáia ibne Maine afirmou que, entre os transmissores de Aiube Açaquetiani, Hamade era o único que registrava por escrito os hádices que dele recebia, informação a partir da qual Ibne Hajar Alascalani concluiu que não poderia ter sido cego de nascença. Adaabi situou a perda da visão perto do fim de sua vida, enquanto Ibne Hibane, ao afirmar que Hamade transmitia de memória todos os seus hádices em razão da cegueira, parece pressupor que ela tivesse ocorrido anteriormente.

Hádice e leituras corânicas

Hamade alcançou grande reputação como tradicionalista. Ibne Sade e Alboácem Alijeli consideraram-no um transmissor confiável e atribuíram-lhe o conhecimento de memória de aproximadamente quatro mil hádices, observando também que não praticava tadlis. Abederramão ibne Mádi afirmou não conhecer ninguém que dominasse melhor do que Hamade a suna e o fiqh, enquanto Iáia ibne Maine considerava suas transmissões provenientes de Aiube Açaquetiani particularmente sólidas. Segundo outra tradição, ao receber a notícia da morte de Xuba ibne Alhajaje, Sufiane Atauri teria declarado que apenas Hamade ibne Zaíde poderia ocupar o lugar deixado por ele. Entre aqueles que transmitiram por autoridade de Hamade estiveram alguns estudiosos mais velhos ou que haviam sido seus próprios mestres, como , Sufiane Atauri e Xuba ibne Alhajaje. Também receberam tradições dele Sufiane ibne Uiaina, Abedalá ibne Almubaraque, Uaqui ibne Aljarrá, Abederramão ibne Mádi e Ali ibne Almadini, entre outros. Bixer Alhafi também é mencionado entre seus transmissores. Seus hádices foram incorporados às seis principais coleções canônicas, consolidando sua posição entre as grandes autoridades da tradição de Baçorá. Hamade era frequentemente associado a Hamade ibne Salama, sendo ambos conhecidos conjuntamente como al-Ḥammādayn ("os dois Hamades"). Como compartilharam numerosos mestres e discípulos, a ocorrência isolada do nome "Hamade" nas cadeias de transmissão podia provocar dúvidas sobre qual dos dois tradicionalistas era mencionado, levando os estudiosos do hádice a recorrer aos respectivos mestres e transmissores para distingui-los. Algumas autoridades consideravam Hamade ibne Zaíde mais sólido e rigoroso na transmissão do hádice, enquanto atribuíam a Hamade ibne Salama maior destaque por sua religiosidade.

Posições e reputação

Além de sua autoridade no hádice, Hamade era reconhecido por seus conhecimentos jurídicos. Seu prestígio em Baçorá foi comparado ao de Sufiane Atauri em Cufa, Maleque ibne Anas no Hejaz e Alauzai na Síria, sendo os quatro apresentados como importantes imames regionais de seu período. A Encyclopaedia of Islam observa que Hamade chegou a receber o estatuto de autoridade jurídica independente comparável ao dessas figuras, mas não parece ter constituído uma escola jurídica própria que sobrevivesse após sua morte. No plano político-religioso, Hamade era contado entre a otomânidas e rejeitava a ideia de considerar Ali superior a Otomão. Argumentava que fazê-lo poderia equivaler a acusar de traição os companheiros de Maomé que haviam prestado baia a Otomão. As fontes também lhe atribuem uma posição fortemente crítica em relação a Abu Hanifa, a quem teria acusado de colocar hádices em confronto uns com os outros com o propósito de destruir a suna. Hamade morreu, segundo a data mais aceita, em 19 de Ramadã de 179 A.H. (6 de dezembro de 795). Outra tradição situa sua morte em 17 de Ramadã de 177 A.H. (26 de dezembro de 793). Sua oração fúnebre foi conduzida por , então governador de Baçorá.

Bibliografia

Categoria:Naturais de Baçorá Categoria:Azeditas Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida