direita|thumb|290x290px|O presidente russo Vladimir Putin (à esquerda) e o líder norte-coreano Kim Jong-un (à direita) no Complexo Governamental n.º 1 em Pyongyang, durante a cúpula bilateral realizada em junho de 2024. A Coreia do Norte apoia a Rússia na Guerra Russo-Ucraniana desde 2017, quando reconheceu a anexação russa da Crimeia ocorrida em 2014. Em julho de 2022, o governo norte-coreano reconheceu a independência das autoproclamadas e pró-russas República Popular de Donetsk e República Popular de Lugansk, o que levou a Ucrânia a romper formalmente relações diplomáticas com Pyongyang.

A partir de 2023, a Coreia do Norte passou a fornecer à Rússia grandes volumes de material bélico, constituídos primordialmente por munições de artilharia e mísseis balísticos. Esse fornecimento é estimado em milhões de projéteis de artilharia avaliados em vários bilhões de dólares, mais de uma centena de mísseis balísticos de curto alcance Hwasong-11A e Hwasong-11B, além de dezenas de obuseiros autopropulsados M-1989 Koksan e lançadores múltiplos de foguetes. Estima-se que, entre o verão de 2023 e o final de 2025, o comércio de armas com a Federação Russa tenha gerado mais de 10 bilhões de dólares para a Coreia do Norte, impulsionando significativamente a fragilizada economia da Coreia do Norte.

A partir de outubro de 2024, a Coreia do Norte enviou contingentes do Exército Popular da Coreia para atuar em território russo contra as Forças Armadas da Ucrânia na campanha de Kursk, integrados com uniformes russos e subordinados à cadeia de comando militar de Moscou. As forças norte-coreanas destacadas, estimadas entre 16.000 e 22.000 soldados, eram formadas primordialmente por tropas de elite das Forças de Operações Especiais do Exército Popular da Coreia. Os primeiros combates diretos contra soldados ucranianos ocorreram no início de novembro de 2024; em meados de janeiro de 2025, estimativas de inteligência ocidental calculavam as baixas norte-coreanas em cerca de 4.000 combatentes, com cerca de 1.000 mortos em ação. Entre as motivações atribuídas à Coreia do Norte para seu envolvimento figuram o recebimento de remessas russas de arroz, assistência tecnológica para o programa espacial norte-coreano, suporte para a evasão de sanções internacionais da ONU e a aquisição de experiência prática de combate em guerra convencional moderna. Por sua vez, as motivações de Moscou envolveram suprir a grave escassez de mão de obra em fábricas e na construção civil, repor perdas nas linhas de frente e evitar a necessidade política de decretar uma mobilização geral compulsória na sociedade russa.

Apoio diplomático à Rússia A Coreia do Norte alinhou-se reiteradamente com a diplomacia russa ao longo de todo o desenvolvimento da Guerra Russo-Ucraniana. O país reconheceu formalmente a soberania de Moscou sobre a Crimeia em 2017, chancelando a posição russa no cenário internacional. Com o agravamento do conflito e a deflagração da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, Pyongyang manteve seu endosso irrestrito ao Kremlin. Em julho de 2022, formalizou o reconhecimento diplomático das separatistas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. Tal medida desencadeou a ruptura imediata das relações entre Coreia do Norte e Ucrânia.Declaração do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia referente ao rompimento de relações diplomáticas com a República Popular Democrática da Coreia Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia O governo em Kiev condenou o ato como uma violação frontal do direito internacional e um ataque direto à integridade territorial ucraniana, advertindo em comunicado que a decisão norte-coreana era desprovida de qualquer validade jurídica.

As relações bilaterais entre Kiev e Pyongyang já eram praticamente inexistentes antes de tais episódios, visto que o regime de sanções internacionais impostas pela ONU inviabilizava qualquer modalidade de cooperação substantiva. O rompimento formal ocorrido em 2022 teve, portanto, impacto sobretudo simbólico.

Fornecimento de armas à Rússia thumb|O obuseiro norte-coreano M-1989 Koksan, peça de artilharia de longo alcance transferida para apoiar a ofensiva russa na Ucrânia. A Coreia do Norte abasteceu as forças de Moscou com volumosos estoques de munição de artilharia, recorrendo inicialmente a arsenais estocados há décadas. O emprego desses lotes antigos explicou a elevada taxa de falhas operacionais constatada pelas autoridades ucranianas em combate, que chegou a atingir até 50% em determinadas amostras. Paralelamente, o complexo militar-industrial norte-coreano passou a operar em capacidade máxima contínua, atingindo uma capacidade estimada de produção anual de até dois milhões de projéteis de artilharia (em 2024), fator decisivo para a sustentação das taxas diárias de fogo do exército russo.

Em meados de novembro de 2024, cerca de 50 obuseiros autopropulsados pesados M-1989 Koksan (calibre 170 mm) e cerca de 20 lançadores de foguetes M-1991 (calibre 240 mm) foram entregues às forças armadas russas para reforçar as operações bélicas.

Em entrevista ao periódico The Korea Herald, Wi Sung-lac, ex-embaixador sul-coreano na Rússia, ressaltou que a participação ativa no esforço de guerra contra a Ucrânia representava vantagens estratégicas significativas para o regime de Kim Jong-un. De acordo com o diplomata, o pagamento de compensações financeiras e suprimentos alimentares por Moscou atenuou a crônica escassez de divisas e a crise de abastecimento no país asiático. Relatórios do serviço de inteligência sul-coreano indicaram que o envio de contêineres com projéteis permitiu a Pyongyang negociar centenas de milhares de toneladas de arroz, além de assegurar transferência de know-how russo direcionado ao programa espacial norte-coreano. O centro de estudos norte-americano Council on Foreign Relations estimou em novembro de 2025 que a Coreia do Norte já havia transferido à Rússia um montante acumulado de 12 milhões de cartuchos e projéteis de artilharia até julho de 2025. Paralelamente, análises de imagens de satélite coordenadas pelo Open Source Centre apontaram que, entre setembro de 2023 e abril de 2025, foram despachados cerca de 15.000 contêineres marítimos contendo aproximadamente 4 milhões de projéteis, gerando receitas estimadas em bilhões de dólares.

Em abril de 2025, a Direção Principal de Inteligência (HUR) de Kiev reportou que a Coreia do Norte havia suprido as forças russas com 148 mísseis balísticos de curto alcance dos modelos Hwasong-11A e Hwasong-11B até o início daquele ano. Fontes ucranianas ressaltaram que esses artefatos operavam com ogivas de até uma tonelada de explosivos — carga superior à de sistemas russos análogos da família Iskander —, com fragmentos de fuselagem recolhidos após ataques contra Kiev. A inteligência de defesa ucraniana apurou que, ao término de 2025, até 50% de todas as munições de 122 mm e 152 mm consumidas pela artilharia russa provinham de fábricas norte-coreanas. Em agosto de 2026, novas informações indicavam a entrega de mais 50 mísseis balísticos transferidos a Moscou a partir de julho de 2026, incluindo unidades de uma nova versão designada Hwasong-11C.

O volume financeiro auferido com os contratos de armamento entre o verão de 2023 e o fim de 2025 superou 10 bilhões de dólares norte-americanos, valor expressivo para uma economia com produto interno bruto (PIB) estimado em cerca de 27 bilhões de dólares, impulsionando a arrecadação do Estado norte-coreano. Relatórios da Bloomberg News publicados em 2026 estimaram que o conjunto de acordos comerciais e estratégicos firmados com a Rússia gerou cerca de 14 bilhões de dólares para a Coreia do Norte entre 2022 e 2025, com 90% desse faturamento oriundo estritamente do comércio bélico.

Envio de tropas norte-coreanas para a Rússia direita|thumb|O ministro da Defesa russo Serguei Shoigu em encontro com o ministro da Defesa norte-coreano Kang Sun-nam, em 25 de julho de 2023.

Primeiros relatos Em outubro de 2024, múltiplos órgãos de inteligência constataram que membros do Exército Popular da Coreia estavam realizando exercícios preparatórios em campos militares no extremo leste da Rússia. O Serviço Nacional de Inteligência (NIS) da Coreia do Sul informou inicialmente que cerca de 1.500 soldados de infantaria haviam sido transportados para receber instrução avançada antes de um eventual envio à linha de frente. No final daquele mês, a OTAN confirmou possuir evidências materiais atestando o deslocamento de tropas norte-coreanas em território russo. A inteligência militar ucraniana comunicou que os primeiros destacamentos operacionais norte-coreanos haviam se fixado no Oblast de Kursk em 25 de outubro de 2024. Em 28 de abril de 2025, o governo da Coreia do Norte confirmou oficialmente a mobilização de suas tropas em favor de Moscou, qualificando os combatentes enviados como "heróis".

Efetivo e composição das tropas Estimativas divulgadas ao término de 2024 indicavam que a Coreia do Norte havia mobilizado cerca de 12.000 homens do Exército Popular da Coreia, com contingentes de forças especiais, cerca de 500 oficiais e três oficiais-generais. Em 2026, avaliações da inteligência de Seul e do Center for Strategic and International Studies (CSIS) reviram o montante para uma faixa entre 16.000 e 22.000 combatentes, contratados sob uma remuneração aproximada de 2.000 dólares mensais por soldado. O Council on Foreign Relations apontou que a maior parcela do contingente era formada por quadros das Forças de Operações Especiais do Exército Popular da Coreia; outros relatórios confirmaram a presença de combatentes sob a tutela do Gabinete Geral de Reconhecimento (o serviço de espionagem e ações especiais norte-coreano) em Kursk.

Não obstante a classificação das tropas como unidades de elite, a prontidão militar real desse efetivo foi alvo de ponderações críticas por especialistas. O coronel Ants Kiviselg, chefe do centro de inteligência do Ministério da Defesa da Estônia, advertiu que os recrutas norte-coreanos eram doutrinados especificamente para táticas de combate em terreno montanhoso na Península Coreana, não possuindo vivência prévia no teatro de operações da Europa Oriental, caracterizado por relevo de estepes e vastas planícies abertas, além de enfrentarem dificuldades com as condições climáticas e o curto tempo de adaptação na Rússia. Kateryna Stepanenko, pesquisadora do Institute for the Study of War (ISW), pontuou que o rótulo de "tropa de elite" norte-coreano não correspondia aos padrões ocidentais de forças de operações especiais. Outros analistas militares, todavia, alertaram contra a subestimação da coesão ideológica e disciplina das forças enviadas.

Em pronunciamento perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, a delegação ucraniana informou que Moscou pretendia estruturar pelo menos cinco brigadas mistas compostas por 2.000 a 3.000 soldados norte-coreanos cada. Documentos do Pentágono revelaram que, até o término de outubro de 2024, cerca de 10.000 efetivos norte-coreanos haviam chegado à região fronteiriça de Kursk. Entre os generais em campo encontrava-se o coronel-general Kim Yong-bok, comandante supremo das forças especiais norte-coreanas e conselheiro próximo de Kim Jong-un.

Fontes de inteligência em Seul apontaram que os combatentes enviados recebiam vencimentos mensais fixados em aproximadamente 2.000 dólares. Ahn Chang-il, um ex-oficial do Exército Popular que desertou para o Sul, explicou que a oportunidade de lutar na Rússia era percebida pelos soldados como um meio de ascensão social e de amparo financeiro para seus familiares, além de garantir privilégios como a filiação ao Partido dos Trabalhadores da Coreia, pré-requisito indispensável para qualquer promoção de carreira no regime.