A Guerra contra o cangaço é uma denominação utilizada para designar o conjunto de campanhas policiais, militares, políticas e administrativas realizadas principalmente pelos governos dos estados do Nordeste brasileiro contra os grupos de cangaço, sobretudo entre as décadas de 1900 a 1940. O período de maior intensidade da repressão coincidiu com o chamado cangaço lampiônico, entre a ascensão de Lampião e sua morte, em 1938.

Apesar da expressão "guerra", não se tratou de uma guerra formal entre Estados ou de um conflito convencional. Tratou-se de um prolongado processo de repressão ao banditismo rural, marcado por perseguições, combates, emboscadas, prisões, confrontos entre forças policiais e cangaceiros e pela mobilização de redes locais de informação. Em algumas situações, autoridades recorreram a medidas extraordinárias e alianças políticas e militares para enfrentar os grupos armados.

O principal adversário das forças públicas durante o período foi o bando de Lampião, que atuou em diferentes estados nordestinos e desenvolveu elevada mobilidade territorial. A criação e o aperfeiçoamento das chamadas forças volantes constituíram uma das principais respostas dos governos estaduais ao fenômeno.

A repressão atingiu seu principal objetivo em julho de 1938, quando Lampião, Maria Bonita e vários integrantes do grupo foram mortos na Grota do Angico, em Sergipe. O cangaço, entretanto, não desapareceu imediatamente: Corisco, um dos principais subordinados de Lampião, continuou atuando até sua morte, em 1940.

Antecedentes

O cangaço possuía raízes anteriores ao período de Lampião. Durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, diferentes grupos armados atuaram nos sertões nordestinos, frequentemente relacionados a conflitos familiares, disputas políticas, vinganças, relações de dependência e formas de banditismo rural.

O crescimento dos grupos cangaceiros ocorreu em um contexto marcado por estruturas sociais fortemente hierarquizadas, concentração fundiária, conflitos entre famílias e chefes políticos locais, precariedade da presença estatal e dificuldades de comunicação e transporte.

A repressão ao cangaço, portanto, não começou com Lampião. Entretanto, durante a década de 1920, o crescimento de seu bando levou os governos estaduais a organizar campanhas mais sistemáticas e móveis.

Cangaço Pré-Lampiônico

Antes da ascensão de Lampião na década de 1920, o cangaço já era uma realidade consolidada no sertão nordestino, dividindo-se principalmente em duas vertentes: o cangaço de vingança (ou de honra) e o cangaço de mercenários a serviço de coronéis.

Diferente do bando de Lampião, que profissionalizou o crime com táticas de guerrilha ultra-organizadas, marketing pessoal e longas caminhadas interestaduais, o cangaço primitivo era mais fragmentado e regionalizado.

A ascensão de Lampião

Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, ingressou no cangaço em 1921 ou 1922, após conflitos familiares e políticos que envolveram sua família. Rapidamente tornou-se um dos principais chefes cangaceiros do Nordeste.

A expansão de seu grupo aumentou a pressão sobre os governos estaduais. Lampião possuía grande mobilidade e transitava entre diferentes estados, dificultando a atuação das forças policiais quando estas permaneciam restritas às fronteiras administrativas.

A perseguição ao grupo passou, portanto, a exigir maior articulação entre as polícias estaduais.

As forças volantes

As forças volantes constituíram o principal instrumento policial empregado pelos governos estaduais para perseguir os cangaceiros.

Em Pernambuco, sua organização esteve vinculada à estrutura da Força Pública, mas possuía características próprias. Eram unidades militarizadas destinadas especificamente à perseguição e ao combate aos grupos cangaceiros no interior do estado.

A estrutura das volantes apresentava uma vantagem importante: a mobilidade. Em vez de permanecerem em quartéis ou delegacias, os grupos percorriam o sertão em busca de informações sobre a localização dos cangaceiros.

A pesquisa de André Carneiro de Albuquerque demonstra que as volantes pernambucanas desenvolveram uma identidade própria e mantiveram relações complexas tanto com a Força Pública quanto com a população sertaneja e os próprios cangaceiros.

Formação das campanhas de repressão

Durante a década de 1920, os governos nordestinos começaram a adotar medidas mais coordenadas contra o cangaço.

Essas medidas incluíam:

criação e expansão das forças volantes; aumento da mobilidade das tropas; utilização de informações fornecidas por moradores; perseguição de coiteiros; articulação entre diferentes comandos policiais; utilização de destacamentos em regiões consideradas estratégicas; intensificação das operações após ataques de grande repercussão; cooperação entre diferentes governos estaduais.

O processo foi analisado pelo historiador Marcos Edilson de Araújo Clemente como parte da consolidação das formas de poder republicano nos sertões.

O combate em vários estados

A natureza interestadual do cangaço tornou a repressão particularmente complexa.

Lampião transitava principalmente por Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Bahia. Quando as forças de um estado intensificavam a perseguição, o grupo podia atravessar a fronteira estadual e dificultar a continuidade da operação.

A partir da década de 1920, os governos passaram a buscar maior cooperação entre as forças públicas. Essa articulação, porém, nem sempre funcionava de maneira eficiente, pois havia diferenças administrativas, políticas e operacionais entre os estados.

A incursão de Lampião ao Ceará e os Batalhões Patrióticos

Um dos episódios mais singulares da relação entre o cangaço e o Estado ocorreu em 1926.

Naquele ano, a passagem da Coluna Prestes pelo Nordeste provocou preocupação entre setores das elites políticas e autoridades regionais. Em março de 1926, Lampião entrou em Juazeiro do Norte, no Ceará, onde teve contato com autoridades locais e foi incorporado, juntamente com seus homens, aos chamados Batalhões Patrióticos.

A situação demonstra a complexidade da relação entre o cangaço e o poder público durante a Primeira República. Um grupo que era perseguido pelas autoridades de determinados estados pôde, em circunstâncias excepcionais, receber reconhecimento temporário de autoridades para atuar contra um adversário político-militar.

Lampião concedeu uma entrevista ao médico Otacílio Macêdo, publicada posteriormente pelo jornal O Ceará. Na entrevista, procurou apresentar uma versão de sua própria trajetória e justificar sua entrada no cangaço como consequência de conflitos familiares e injustiças.

A participação de Lampião nos Batalhões Patrióticos foi, entretanto, temporária e não representou uma integração permanente às forças regulares do Estado.

Retomada da repressão

Após o episódio de Juazeiro, Lampião voltou a atuar como chefe de um grupo cangaceiro independente. A repressão contra seu bando continuou, especialmente em Pernambuco e nos estados vizinhos. Durante esse período, ocorreram alguns dos maiores confrontos do cangaço lampiônico.

Batalhas da década de 1920

Ataque a Sousa

Em 27 de julho de 1924, um grupo ligado a Lampião atacou Sousa, na Paraíba. O episódio envolveu um contingente de cangaceiros associado a Lampião e contou com a participação de Chico Pereira, então em processo de aproximação com o cangaço.

O ataque provocou reação das autoridades paraibanas e teve grande repercussão regional.

A participação de Chico Pereira no episódio tornou-se posteriormente um dos pontos importantes de sua trajetória como cangaceiro.

Batalha de Serra Grande

Em 26 de novembro de 1926, ocorreu a Batalha de Serra Grande, no sertão pernambucano.

O confronto colocou o grupo de Lampião contra uma força policial numericamente superior. A posição geográfica ocupada pelos cangaceiros favoreceu a resistência e a retirada das forças policiais.

A batalha tornou-se um dos principais símbolos da capacidade de Lampião de utilizar o território sertanejo em seu benefício.

Ataque a Mossoró

Em junho de 1927, Lampião realizou sua tentativa mais famosa de tomar uma cidade de grande porte. O alvo foi Mossoró, no Rio Grande do Norte.

A cidade organizou uma resistência armada e conseguiu repelir o ataque. O episódio representou uma importante derrota para Lampião e demonstrou os limites da estratégia de tomada direta de centros urbanos. Depois de Mossoró, Lampião abandonou o Rio Grande do Norte e voltou a circular por outras áreas do Nordeste.

A derrota também contribuiu para reforçar a necessidade de evitar confrontos prolongados em cidades fortemente defendidas.

Os Nazarenos

Entre os principais adversários de Lampião estavam os chamados Nazarenos, moradores da região de Floresta, em Pernambuco, que desenvolveram uma relação de conflito particularmente intensa com o cangaceiro.

A família e os aliados dos Nazarenos passaram a perseguir Lampião e seus homens em diferentes ocasiões.

A luta entre Lampião e os Nazarenos adquiriu características próprias e tornou-se uma das mais conhecidas rivalidades do cangaço.

A historiadora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros dedicou estudo específico ao conflito entre Lampião e os Nazarenos, demonstrando que as relações familiares e políticas eram fundamentais para compreender a dinâmica da violência no sertão.

Intensificação na década de 1930

A década de 1930 marcou uma transformação gradual nas campanhas contra o cangaço.

O Estado passou a ampliar a documentação das operações, a comunicação entre unidades e a coordenação entre diferentes forças estaduais.

Na Bahia, por exemplo, a documentação preservada pela Polícia Militar inclui boletins gerais, boletins internos e documentos das chamadas Forças de Operações do Nordeste.

Essa documentação permite acompanhar operações contra Lampião desde o primeiro grande confronto dele com a polícia baiana, em Queimadas, em 1929, até a perseguição aos remanescentes do grupo de Corisco, em 1940.

O combate na Bahia

A entrada de Lampião na Bahia em 1928 alterou significativamente o equilíbrio da repressão.

O grupo encontrou no estado novas áreas de circulação e redes de apoio. Ao mesmo tempo, a Polícia Militar da Bahia passou a desenvolver estruturas específicas para enfrentar o cangaço.

Os arquivos da corporação constituem hoje uma importante fonte para reconstruir as operações realizadas entre 1929 e 1940.

Combates e principais confrontos

Entre os confrontos mais importantes associados à guerra contra o cangaço estão:

Ataque a Sousa (1924); Batalha de Serra Grande (1926); Ataque a Mossoró (1927); Combate de Queimadas (1929); Batalha de Maranduba (1932); Combates entre Lampião e as forças volantes em Pernambuco, Bahia, Sergipe e Alagoas; Combate de Angico (1938); confrontos contra os remanescentes do bando de Corisco entre 1938 e 1940.

Esses episódios apresentaram características diferentes. Alguns foram ataques a localidades, outros foram encontros entre forças policiais e grupos cangaceiros em áreas rurais, enquanto outros resultaram de perseguições prolongadas.

Táticas das forças volantes

As forças volantes precisaram adaptar sua atuação às características do sertão.

A mobilidade era fundamental. Os policiais percorriam longas distâncias em áreas de difícil acesso, muitas vezes dependendo de informações fornecidas por moradores.

O sistema de volantes mostrou-se particularmente adequado à mobilidade dos cangaceiros porque permitia que pequenos contingentes fossem deslocados rapidamente para diferentes regiões.

A pesquisa sobre as volantes baianas mostra que as dificuldades não eram apenas militares. O terreno, o clima e as doenças também afetavam a capacidade operacional das tropas.

Táticas dos cangaceiros

Os grupos cangaceiros também desenvolveram formas próprias de movimentação e combate.