Taquiadim Alfaci (; Meca, – ) foi um historiador, estudioso de hádice e jurista maliquita de Meca. Pertencente a uma família de origem marroquina que reivindicava descendência de Haçane ibne Ali, recebeu extensa formação em Meca e em outros centros do mundo islâmico, entre eles Medina, Damasco e Cairo, e contou entre seus mestres com alguns dos principais estudiosos de sua época. Durante suas viagens, também estudou com Ibne Caldune, cuja influência foi associada ao desenvolvimento de seu interesse pela história.
Alfaci exerceu o cargo de cádi maliquita de Meca a partir de 1405, com algumas interrupções, e ensinou jurisprudência na Mesquita Sagrada e numa escola fundada na cidade pelo sultão de Bengala . Apesar da perda progressiva da visão, continuou exercendo suas funções durante parte de seus últimos anos, até ficar completamente cego. Desfrutou de elevada reputação entre seus contemporâneos, sendo elogiado por estudiosos como Almacrizi, Ibne Hajar de Ascalão e Axacaui por seus conhecimentos de hádice, história e jurisprudência.
Embora tenha produzido obras sobre diferentes campos, Alfaci tornou-se conhecido sobretudo por seus trabalhos sobre a história de Meca, que constituem uma importante contribuição à historiografia da cidade. Entre eles destacam-se o Šifāʾ al-ġarām bi-aḫbār al-balad al-ḥarām, extensa história de Meca desde o período pré-islâmico até sua própria época, e o al-ʿIqd al-thamīn fī taʾrīḫ al-balad al-amīn, repertório histórico-biográfico dedicado a pessoas associadas à cidade. Suas obras preservam informações sobre a topografia, os lugares sagrados, as instituições, os governantes e a vida religiosa e social de Meca, combinando fontes escritas anteriores com documentos, inscrições, testemunhos e observações do próprio autor.
Vida
Taquiadim Alfaci nasceu em Meca em 10 de Rabi I de 775 (30 de agosto de 1373). Pertencia a uma família com importantes conexões religiosas e intelectuais na cidade. Segundo sua própria genealogia, sua ascendência remontava a Abu Talibe, e sua nisba Alfaci indicava a origem marroquina de sua família, enquanto Alhaçani expressava a alegada descendência de Haçane ibne Ali, filho de Ali ibne Abi Talibe. Seu pai, , recebeu uma educação erudita e casou-se com uma filha de , que exerceu a função de cádi-chefe de Meca. Depois de memorizar o Alcorão, Alfaci iniciou sua formação em Meca e prosseguiu os estudos em diferentes centros do mundo islâmico. Viajou repetidamente a Damasco e ao Cairo, estudou em Medina e no Iêmem e, durante suas viagens, recebeu ensinamentos de estudiosos em Gaza, Ramla, Nablus e Alexandria. Entre seus numerosos mestres figuraram estudiosos de hádice, direito e princípios do direito, como , , e . O próprio Alfaci afirmou ter ouvido hádices ou recebido licenças de transmissão de cerca de quinhentos mestres. Em 799 (1396), encontrou-se no Cairo com Ibne Caldune, encontro ao qual se atribui influência sobre seu interesse pelos estudos históricos. Rosenthal registra que Alfaci também estudou com Ibne Caldune em Damasco e observa que este, em seus escritos históricos, refere-se a ele como "nosso xeique".
Sua vida profissional seguiu inicialmente o padrão de sua formação itinerante. Em sua primeira viagem ao Egito, realizada em 797 (1394–95), seguiu depois para Damasco e para centros de estudos da Palestina. No ano seguinte realizou sua primeira viagem ao sul da Arábia, onde permaneceu por algum tempo. Continuou viajando e ampliando sua formação nos anos seguintes, até ser nomeado cádi maliquita de Meca em Xaual de 807 (abril de 1405) pelo sultão mameluco . Segundo İzgi, essa função não havia sido anteriormente conferida de maneira independente a um maliquita na cidade.Em 814 (1411), Alfaci foi nomeado professor maliquita da escola fundada em Meca pelo sultão de Bengala , além de ensinar jurisprudência segundo as quatro principais escolas sunitas na Mesquita Sagrada. Sua carreira como cádi sofreu duas interrupções, em 817 (1414) e 819 (1416), mas em ambas as ocasiões foi reconduzido ao cargo no mesmo ano.
Rosenthal registra que Alfaci obteve das autoridades maliquitas do Cairo uma fátua que lhe permitiu continuar no ofício apesar da perda progressiva da visão. Acabou, contudo, retirando-se permanentemente depois de ficar completamente cego. İzgi situa a perda total da visão em 828 (1425). Alfaci morreu em 3 de Xaual de 832 (6 de julho de 1429), em Meca. Alfaci desfrutou de considerável reputação entre seus contemporâneos. Almacrizi, que o conheceu em Meca e Medina, descreveu-o como um repositório de conhecimentos sem equivalente no Hejaz. Ibne Hajar de Ascalão, com quem estudou hádice e discutiu questões jurídicas, lamentou sua morte e destacou sua erudição. Axacaui, discípulo de Ibne Hajar, caracterizou-o como destacado conhecedor de hádice, história, jurisprudência e princípios do direito.
Obras
Alfaci escreveu numerosas obras sobre história, biografia, hádice e jurisprudência, além de compor abreviações e continuações de trabalhos anteriores. Sua reputação posterior, contudo, repousa sobretudo em seus estudos sobre a história de Meca. Rosenthal considera que sua fama deriva principalmente dessas obras, que constituem uma importante contribuição à historiografia da cidade.
História de Meca
Sua principal obra é o Šifāʾ al-ġarām bi-aḫbār al-balad al-ḥarām, extensa história de Meca organizada em quarenta capítulos. Alfaci declarou tê-la composto diante da ausência, desde , de uma história da cidade comparável à obra deste. Para sua elaboração, utilizou fontes escritas anteriores, mas também inscrições, documentos de waqf, informações fornecidas por pessoas que considerava dignas de confiança e acontecimentos que havia testemunhado pessoalmente. O Šifāʾ al-ġarām abrange a história de Meca desde a Jailia até o início do e reúne informações religiosas, políticas, econômicas, sociais e culturais. Entre seus assuntos estão a topografia e as características naturais da cidade e de seus arredores, a Caaba, sua cobertura e os presentes que lhe eram enviados, os responsáveis por seu serviço, as escolas e ribats de Meca, as fontes e os poços, os governadores da cidade desde a época de Maomé, enchentes e epidemias, os nomes de Meca, os limites do harame, a história e as reformas da Mesquita Sagrada, outros lugares sagrados da região, o povo de Zenzem, os ritos do haje, os coraixitas na Jailia, a Conquista de Meca de 630 e os mercados da cidade nos períodos pré-islâmico e islâmico.
Rosenthal descreve a obra como dividida em quatro grandes conjuntos temáticos: uma descrição da história física de Meca e de seus arredores, incluindo seus lugares sagrados e os ritos associados a eles; uma história pré-islâmica da cidade; uma lista cronológica de seus governadores; e uma seleção de acontecimentos históricos relacionados a Meca. Observa ainda que Alfaci inicia a narrativa histórica propriamente dita com uma biografia de Maomé e prossegue com a história dos califas, incluindo informações particularmente extensas sobre os califas abássidas Almutadide e Almoctadir. O próprio Alfaci produziu quatro abreviações do Šifāʾ al-ġarām: Tuḥfat al-kirām bi-aḫbār al-balad al-ḥarām, Taḥṣīl al-marām min taʾrīḫ al-balad al-ḥarām, Hādī dhawī al-afhām ilā taʾrīḫ al-balad al-ḥarām e al-Zuhūr al-muqtaṭafa min taʾrīḫ Makka al-musharrafa. Partes da obra foram publicadas em Leida em 1859 e outras foram editadas por Ferdinand Wüstenfeld em sua série sobre as crônicas de Meca; posteriormente apareceram edições no Cairo e em Beirute.
Outra de suas principais obras é al-ʿIqd al-thamīn fī taʾrīḫ al-balad al-amīn, amplo repertório histórico-biográfico dedicado a Meca. A obra começa com uma introdução derivada de seus trabalhos anteriores sobre a cidade, na qual Alfaci aborda temas como os nomes de Meca, a Caaba e suas dependências, os ritos do haje, questões jurídicas relativas à venda e ao aluguel de imóveis na cidade e assuntos relacionados à sira. Em seguida apresenta, em ordem predominantemente alfabética, biografias de pessoas ligadas a Meca, incluindo governantes, estudiosos, juristas, poetas e escritores. Os nomes Maomé e Amade foram colocados antes da sequência alfabética comum, e o próprio Alfaci incluiu uma extensa autobiografia entre os indivíduos chamados Maomé. Alfaci também abreviou essa obra sob o título ʿUjālat al-qirā li-l-rāghib fī taʾrīḫ Umm al-Qurā. Seu discípulo Najemadim ibne Fade escreveu-lhe posteriormente uma continuação intitulada al-Durr al-kamīn bi-dhayl al-ʿIqd al-thamīn.
Outras obras
Entre seus demais trabalhos históricos encontra-se al-Muqniʿ min akhbār al-mulūk wa-l-khulafāʾ wa-wulāt Makka al-shurafāʾ, dedicado a governantes, califas e governadores de Meca, além de al-Riḍā wa-l-qabūl fī faḍāʾil al-Madīna wa-ziyārat al-Rasūl, relativo às virtudes de Medina e à visita ao túmulo de Maomé. Rosenthal menciona ainda uma história dos primeiros califas que não teria sido preservada. Sua produção compreendeu igualmente obras de hádice e literatura biográfica. Entre elas estão Arbaʿūna ḥadīthan mutabāyinat al-isnād wa-l-mutūn, relacionada aos quarenta hádices de , e Dhayl al-Taqyīd fī ruwāt al-sunan wa-l-masānīd, continuação do al-Taqyīd de . Alfaci também produziu continuações e abreviações de obras de outros autores, entre elas trabalhos relacionados a Adaabi, e .
Bibliografia
Categoria:Naturais de Meca Categoria:Árabes do século XIV Categoria:Árabes do século XV Categoria:Maliquismo