Miss Bartira, nome artístico de Maria Joaquina Camargo (São Luiz do Paraitinga, c. 1912 – Colchester, 18 de junho de 1981), também anunciada como Bartira Guarany e, posteriormente, Zaza Bartira, foi uma cantora, dançarina e vedete brasileira que desenvolveu carreira internacional entre as décadas de 1930 e 1950.
Artista negra, deixou o Brasil no início da década de 1930 com a Companhia Mulata Brasileira e, depois de permanecer na Europa, alcançou projeção no circuito parisiense de music hall. Apresentou-se em casas como o Casino de Paris, o Alcazar e o Moulin Rouge, atuou ao lado de Maurice Chevalier e foi comparada pela imprensa da época a Josephine Baker.
Durante a Segunda Guerra Mundial, permaneceu na França ocupada e, segundo relatos posteriormente publicados, colaborou com a Resistência Francesa. Após a guerra, retomou a carreira, casou-se com o britânico Dudley Bradshaw e estabeleceu-se posteriormente na Inglaterra. Afastou-se dos palcos no início da década de 1950 e viveu longe da vida artística até sua morte, em 1981.
Biografia
Origem e juventude
Maria Joaquina Camargo nasceu em São Luiz do Paraitinga, no interior do estado de São Paulo. Seu ano de nascimento é incerto. Uma entrevista publicada em 1950, na qual Bartira declarou ter 31 anos, apontaria para 1919; a reconstrução de sua trajetória, porém, situa seu nascimento provavelmente por volta de 1912.
Sua mãe tinha ascendência negra e indígena, enquanto o pai descendia de portugueses e italianos. Desde pequena, Maria Joaquina demonstrava interesse pela carreira artística. Em reportagem publicada por O Globo em 1939, sua mãe, Maria da Conceição Camargo, contou que a filha desejava ser artista e se inspirava nas atrizes que via no cinema.
A família deixou São Luiz do Paraitinga e mudou-se para Taubaté. Em 1930, Maria Joaquina ingressou na Companhia Mulata Brasileira e iniciou sua carreira profissional.
Companhia Mulata Brasileira
A Companhia Mulata Brasileira foi criada em São Paulo em 1930 pelos empresários J. Boscarino e Raul Barreto. Maria Joaquina soube que o grupo procurava “artistas morenos” e incorporou-se ao elenco.
A companhia apresentou a revista musical Batuque, cateretê e maxixe, musicada por Vadico, que posteriormente se tornaria parceiro de Noel Rosa. Entre as principais artistas do elenco estavam Índia do Brasil, Rosa Negra, Jacy Aimoré e Mascotte Anib. Os pseudônimos de inspiração indígena acompanhavam a proposta regionalista do espetáculo. Quando a companhia chegou ao Rio de Janeiro, Maria Joaquina já utilizava o nome artístico Bartira Guarany.
No Rio, Batuque, cateretê e maxixe foi apresentado no Theatro Republica, na Avenida Gomes Freire. A revista era composta de 24 quadros, alternando números musicais e esquetes, entre eles Amor cinematographico, Alcool-motor e Não posso comer sem molho. Segundo a reconstrução publicada por O Globo, o teatro, com capacidade para cerca de 2.500 espectadores, chegava a lotar nas apresentações dominicais.
O sucesso levou os empresários a organizar uma excursão a Portugal, apresentada como a primeira viagem de um grupo teatral brasileiro ao país.
Excursão a Portugal
A Companhia Mulata Brasileira chegou a Portugal em junho de 1931. A excursão, porém, foi marcada por uma controvérsia antes mesmo das apresentações. A Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) enviou um telegrama de protesto à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses e a jornais de Lisboa, posicionando-se contra a apresentação da companhia.
Em nome das “tradições do teatro brasileiro”, a SBAT declarou que seu protesto não se devia ao fato de se tratar de um elenco negro, mas ao que classificava como razões de natureza artística.
O empresário que havia contratado a companhia desfez os compromissos e os artistas ficaram sem trabalho e sem passagens de retorno ao Brasil.
Bartira decidiu permanecer na Europa. Juntou-se a um bailarino português, com quem aprendeu dança acrobática, e seguiu em turnê pela Espanha.
Espanha e primeiros anos na Europa
Bartira apresentou-se inicialmente em estabelecimentos modestos de Barcelona e Madrid. Sem recursos para pagar o hotel, recebeu auxílio do consulado brasileiro, que providenciou sua ida para Santander, no norte da Espanha. Ali alcançou maior repercussão apresentando sambas e tangos.
A partir da Espanha, prosseguiu pela Europa e pelo Norte da África. Apresentou-se no Marrocos e no Egito e passou também pela Grécia. Uma reportagem publicada pela revista Carioca em 1937 registrou ainda passagens pela Hungria, Tchecoslováquia e Iugoslávia.
Segundo a reconstrução de sua trajetória publicada em 2018, foi na Iugoslávia que Bartira chamou a atenção de Henri Varna, diretor do Casino de Paris, que a levou para a capital francesa.
Sucesso em Paris
Em Paris, Bartira passou a ser empresariada por Marcel Travers, que havia trabalhado como secretário particular de Josephine Baker. Travers substituiu Bartira Guarany por Miss Bartira como principal nome artístico da brasileira.
Em junho de 1935, Bartira já integrava o elenco do Casino de Paris ao lado de Maurice Chevalier, na revista Parade du monde.
Também se apresentou no Moulin Rouge e no chamado Royal Orphéon. Posteriormente, tornou-se primeira vedete do Alcazar, outra casa dirigida por Henri Varna.
Sua atuação chamou a atenção da imprensa francesa. O crítico Serge, do jornal cultural Comœdia, destacou suas qualidades para a comédia, a dança e o canto e chegou a considerá-la mais talentosa que Josephine Baker.
A revista francesa Mon Paris também destacou sua presença de palco e seu apelo sensual.
No Brasil, a revista Carioca publicou em 1937 a reportagem Uma artista negra do Brasil em Paris, assinada por Suzette Dargonne. O título apresentava Bartira Guarany como “rival de Josephine Baker” e destacava seu sucesso ao lado de Maurice Chevalier.
A reportagem reproduziu ainda uma apreciação atribuída a R. Charroux, segundo a qual Bartira reuniria o dinamismo de Josephine Baker, características vocais de Raquel Meller e o charme da cantora francesa Damia.
Televisão, repertório e gravações
Em 1935, Bartira foi convidada a participar de uma das primeiras transmissões oficiais da televisão francesa.
Em 1936, gravou um disco de 78 rotações no qual interpretava o tango Un violon dans la nuit. Também compôs a canção Ne viens pas!.
Seu repertório incluía sambas e tangos. A revista Carioca informou que Bartira realizou gravações para a Polydor, acompanhada pela orquestra de Wal-Berg.
Pouco conhecida no Brasil
Apesar da grande projeção alcançada na Europa, a carreira de Bartira recebeu pouca atenção da imprensa brasileira. Em 1939, porém, a artista ganhou espaço nos jornais quando processou um empresário que mantinha o nome Miss Bartira no letreiro de um teatro fechado em Paris.
Segundo notícia reproduzida por O Globo, Bartira, apresentada como vedete do Casino de Paris, pediu um milhão de francos de indenização, alegando que a utilização de seu nome prejudicava sua reputação profissional.
O episódio levou O Globo a procurar sua família em São Paulo. O jornal havia recebido a informação de que o sobrenome da artista seria Azevedo, mas seus parentes esclareceram que a família se chamava Camargo. Sua mãe, Maria da Conceição, identificou a artista como sua filha Maria Joaquina, natural de São Luiz do Paraitinga.
A família afirmou ainda que Bartira mantinha contato por correspondência e enviava fotografias de sua vida na Europa.
Segunda Guerra Mundial e Resistência Francesa
A ocupação alemã da França, iniciada em 1940, interrompeu a fase de maior projeção de Bartira em Paris. Ela deixou a capital e seguiu para Grenoble.
Segundo a reconstrução biográfica publicada por O Globo em 2018, Bartira tornou-se agente do 2e Bureau Français, serviço de inteligência ligado à Resistência Francesa. Sua atuação teria incluído o recrutamento de artistas para a luta contra a ocupação e a identificação de integrantes da Gestapo.
Em Lyon, teria permanecido durante dois dias escondida em um armário de cozinha para escapar dos alemães. O episódio ocorreu no período da libertação da cidade, em setembro de 1944.
Há também relatos de que Bartira teria sido descoberta e torturada pelos alemães, embora as circunstâncias desse episódio não estejam claramente estabelecidas.
Casamento com Dudley Bradshaw
Com o fim da guerra, Bartira retomou as turnês. Em 1945, durante uma apresentação em Orã, na Argélia, conheceu o tenente britânico Dudley Bradshaw, ligado ao comando da Marinha Real Britânica no Mediterrâneo.
Os dois se casaram pouco tempo depois. A família de Bradshaw, ligada à aristocracia britânica, se opôs ao casamento e, segundo a imprensa francesa da época, seu pai o deserdou.
Dudley deixou a Marinha e passou a acompanhar a carreira da esposa, que utilizava também o nome de casada Maria Bradshaw.
Em 1947, um cinejornal da Gaumont registrou Bartira cantando e dançando uma versão de Bambo do bambu, de Almirante.
No mesmo ano nasceu a filha do casal, Eve Dawn Bradshaw. Jornais da época destacaram, com certo exagero e sensacionalismo, o parentesco de Dudley com a família real britânica e apresentaram a menina como "prima das filhas do rei Jorge VI".
Inglaterra e desaparecimento de 1950
Nos anos seguintes, Bartira passou a viver na Inglaterra. Relatos da época registraram que a artista temia possíveis represálias de antigos nazistas e que chegou a ser internada para observação.
Em 18 de outubro de 1950, saiu de casa levando a filha e desapareceu. O caso ganhou repercussão na imprensa britânica e mobilizou a Scotland Yard. Bartira e Eve foram encontradas dois dias depois na casa de amigos.
O episódio foi noticiado também no Brasil e fez com que seu nome voltasse temporariamente às páginas dos jornais brasileiros.
Zaza Bartira e fim da carreira
No início da década de 1950, Bartira retomou a carreira artística em Londres utilizando o nome Zaza Bartira. Em 1952, voltou a receber críticas favoráveis e fez apresentações transmitidas pela televisão e pelo rádio da BBC.
A retomada foi breve. Em novembro de 1953, um empresário recorreu à Justiça para cobrar uma comissão que considerava devida pela artista. Bartira alegou que estava sem trabalho desde dezembro do ano anterior e que não dispunha de recursos para manter determinado padrão de vida.
Esse episódio constitui um dos últimos registros conhecidos de sua atividade profissional na imprensa da época.
Últimos anos e morte
Depois de deixar definitivamente o mundo do espetáculo, Bartira passou a levar uma vida de dona de casa, distante da fama alcançada na Europa. Separou-se de Dudley Bradshaw, viveu em bairros modestos e exerceu diferentes atividades, trabalhando como varredora de rua, fazendo serviços de limpeza em apartamentos e, mais tarde, como auxiliar de enfermagem, sobretudo no cuidado de idosos e pessoas com transtornos mentais.
Em 1972, o jornalista e pesquisador Jota Efegê publicou em O Globo um texto recordando a época em que Bartira havia sido vedete do Casino de Paris, mas não informou seu paradeiro.
Miss Bartira morreu em 18 de junho de 1981, em Colchester, na Inglaterra, depois de permanecer por quase três décadas afastada dos palcos.
Identidade e data de nascimento
A documentação disponível apresenta divergências quanto à identidade civil e à idade de Miss Bartira. Reportagens publicadas no fim da década de 1930, inclusive no jornal francês Paris-Soir, identificavam seu nome verdadeiro como Maria de Azevedo. Em 1939, porém, O Globo localizou sua família em São Paulo. Na ocasião, sua mãe, Maria da Conceição Camargo, afirmou que a artista se chamava Maria Joaquina, era natural de São Luiz do Paraitinga e pertencia à família Camargo, e não Azevedo.