Caice () é o nome de uma possível divindade árabe pré-islâmica, conhecida sobretudo por sua associação com os nomes teofóricos Inru Alcaice (Imruʾ al-Qays) e Abede Alcaice (ʿAbd al-Qays). A tradição filológica árabe medieval registra Caice como o nome de um ídolo, mas sua identificação como divindade é problemática, uma vez que as evidências utilizadas para sustentá-la são principalmente onomásticas e o nome não figura entre os ídolos relacionados por Ibne Alcalbi no Livro dos Ídolos.
Desde o , Caice tem sido relacionado a Caus (Qaws, Qôs), divindade nacional de Edom, cuja semelhança nominal originou diferentes interpretações. Julius Wellhausen aproximou os dois nomes e Gonzague Ryckmans chegou a apresentar a divindade como "Caice ou Caus", enquanto Toufic Fahd discutiu inicialmente a possibilidade de serem variantes de um mesmo nome, mas posteriormente sustentou que a divindade era Caus, e não Caice. A distinção entre o antigo Qws edomita e o qyš encontrado posteriormente na onomástica árabe também foi defendida por Edward Lipiński.
Atestação e nome
O nome Caice () é antigo na onomástica árabe. Toufic Fahd assinalou que o nome teofórico Inru Alcaice, composto de imruʾ ("homem") e al-Qays, já aparece no final do em inscrições gregas de Mênfis e da província da Arábia sob a forma Amorcesos (). Fahd menciona ainda os caicitas nos anais do rei assírio . No índice das inscrições árabes pré-islâmicas compilado por Gerald Lankester Harding, a forma QYS ocorre três vezes e é explicada lexicalmente pelo árabe qays, "medida"; o mesmo repertório registra separadamente a forma composta QYSMNWT. Ao discutir se Caice teria sido um nome divino, Fahd afirmou que, além dos nomes teofóricos Inru Alcaice (Imruʾ al-Qays) e Abede Alcaice (ʿAbd al-Qays), nenhum outro indício o confirmava. Julius Wellhausen incluiu a forma grega Ἀμορκεσος entre os nomes teofóricos árabes e, ao tratar especificamente de Qays, afirmou que o nome, embora completamente desaparecido enquanto nome de um deus, permanecia muito frequente em nomes de pessoas e povos. Na mesma linha, Gonzague Ryckmans incluiu "Caice ou Caus" entre as divindades do panteão árabe conhecidas através de nomes teofóricos. Edward Lipiński, embora distinguindo Qays do teônimo edomita Qaws, considerou que Qays aparece posteriormente como elemento teofórico em nomes próprios árabes, citando expressamente Abede Alcaice e Inru Alcaice.
A interpretação religiosa desses nomes também é registrada pela tradição filológica árabe medieval. Ao explicar o antropônimo Qays em seu comentário à Hamasa, Alcátibe Atabrizi apresenta inicialmente os usos do verbo qāsa, "medir" ou "comparar", e acrescenta que "afirmavam que Caice era o nome de um ídolo" e que por isso chamaram um homem Abede Alcaice. Albataliauci, em seu comentário ao divã de Inru Alcaice, registra que se dizia que Caice era um ídolo adorado pelos árabes. Ele apresenta também uma explicação lexical para o nome do poeta, segundo a qual qays significaria "dureza" ou "adversidade" e Imruʾ al-Qays, "homem da adversidade". Albataliauci relata ainda que Alasmai evitava recitar a expressão yā Imraʾ al-Qays em um verso, preferindo substituí-la por yā Imraʾ Allāh, por se dizer que Caice era o nome de um ídolo. Em seu verbete sobre Caus Cuza na Encyclopaedia of Islam, Fahd observou que Caice não figura entre os ídolos relacionados por Ibne Alcalbi no Livro dos Ídolos e que nomes teofóricos compostos com Caice não são atestados nas inscrições reunidas por Harding; menciona, por outro lado, as explicações de Abede Alcaice e Inru Alcaice preservadas na Hamasa e por Albataliauci.
Relação com Caus
Desde o , Caice foi comparado a Caus (Qaws, Qôs), divindade nacional de Edom. Caus é atestado como elemento de nomes reais edomitas, entre eles Qaus-malaku e Qaus-gabri, e posteriormente em inscrições e nomes teofóricos provenientes de Edom, da Idumeia e de outros contextos do sul do Levante. Wellhausen considerou natural aproximar Qays do Caus edomita, embora já registrasse a oposição de Theodor Nöldeke à comparação. Ryckmans, por sua vez, incluiu entre as divindades do panteão árabe "Caice ou Caus". Fahd comparou Caice com nomes semíticos e com os nomes edomitas compostos com Caus, mas concluiu que essas aproximações não resolviam o "enigma de Qays". Observou ainda a intercambialidade de wāw e yāʾ, mas ressaltou a diferença entre os significados lexicais atribuídos em árabe a qays e o sentido de "arco" de qaws. Ao discutir a expressão qaws Quzaḥ, Fahd aventou a possibilidade de qaws ter sido originalmente um nome divino, do qual Quzaḥ seria um qualificativo; nessa hipótese, a aproximação entre Qays e Qaws permitiria considerá-los variantes de um mesmo nome.
No verbete posterior da Encyclopaedia of Islam, Fahd afirmou que "esse deus é Caus e não Caice". Entre os argumentos apresentados estavam a ausência de Caice no Livro dos Ídolos, a ausência de nomes teofóricos compostos com Caice nas inscrições árabes reunidas por Harding, a existência de dois nomes teofóricos compostos com Caus registrados por Ryckmans e o nome mineu QYSMNWT, no qual qays ocuparia a posição desempenhada por imruʾ e ʿabd, e não a do elemento divino. Harding registra três ocorrências de QYS, que explica pelo árabe qays, "medida", e uma ocorrência de QYSMNWT. Lipiński rejeitou a derivação do teônimo edomita Qaws do árabe qaws, "arco", e distinguiu cronologicamente o antigo Qws edomita de qyš. Assinalou que este último, comparável também ao acádio qīšu, aparece posteriormente como elemento teofórico nos nomes árabes Abede Alcaice e Inru Alcaice. Ernst Axel Knauf também considerou problemática a derivação de Caus do árabe qaws, "arco", e apresentou como incertos tanto o significado do nome quanto a natureza da divindade. Juan Manuel Tebes registra que Wellhausen associou Caus a Cuza e à expressão árabe qaws Quzaḥ, "arco-íris", e que Nöldeke rejeitou essa identificação em 1887.
Bibliografia
Categoria:Deuses árabes