A Igreja de Santa Cruz do Castelo é uma igreja situada no Largo de Santa Cruz do Castelo, em Lisboa. De planta longitudinal, o edifício, erguido num outeiro adossado internamente à muralha da alcáçova do Castelo de São Jorge, resulta essencialmente da reconstrução pombalina levada a cabo após o Terramoto de 1755, sob risco do arquitecto João Paulo.

O templo encontra-se abrangido pela Zona de Protecção do Castelo de São Jorge e dos restos das cercas de Lisboa, estando parcialmente incluída também na Zona de Protecção da Igreja do Menino Deus, situada nas proximidades juntamente com o Palácio Belmonte.

História

Origens: da ocupação islâmica à reconquista A origem da igreja liga-se à fundação da freguesia de Santa Cruz da Alcáçova — mais tarde designada "do Castelo" —, instituída em 1147, aquando da conquista cristã de Lisboa aos mouros, e que constituiu, juntamente com Santa Maria Maior e Santa Justa e Rufina, uma das três primeiras freguesias da cidade. Segundo tradição verosímil recolhida por diversos autores, o templo terá sido fundado por D. Afonso Henriques logo após a tomada da cidade, mediante a reconversão de uma mesquita moura que ocupava o local, situada no bairro residencial contíguo à alcáçova, correspondente à actual Praça Nova. Esse bairro, erguido no século XI durante uma reorganização urbanística que incluiu a edificação do Castelo, era composto por casas de grandes dimensões e ricamente decoradas, com pavimentos de argamassa e estuques pintados. A primeira referência documental à igreja é uma escritura do bispo D. Álvaro, de 1168, sem que tal implique que o templo não existisse anteriormente; segue-se a menção no Sínodo de 1191, na Relação de 1209 ou 1229 e na Inquirição Particular de 1211 a 1230, onde surge como "ecclesia sancte Crucis de Alcazova". A designação de Santa Cruz da Alcáçova persistiu em documentos de 1248 e 1279, coexistindo desde o início com a de Santa Cruz do Castelo.

Coincidindo com a reconversão religiosa do templo, D. Afonso Henriques doou propriedades da área residencial contígua ao cruzado inglês Gilberto de Hastings, sagrado bispo de Lisboa, para aí se erigir o paço episcopal. O historiador Júlio de Castilho atribuiu a este templo, em 1936, o estatuto de primeira e efémera catedral de Lisboa, situando nele a sagração episcopal de Hastings por D. João Peculiar; segundo um relato de um cruzado anónimo, identificado apenas pela letra "R.", a procissão de entrada na cidade recém-conquistada, a 25 de Outubro de 1147, terá seguido pelo lado nascente, junto ao acampamento militar de D. Afonso Henriques, dirigindo-se depois à alcáçova, situando-se a escolha de Gilberto como bispo entre essa data e a suposta sagração da mesquita maior, a 1 de Novembro. A carta desse cruzado inglês descreve a entrada solene na cidade, indicando que, "tomada Lisboa, o vitorioso e santo Rei se foi aposentar nos paços del-rei mouro, que são hoje os d'alcáçova (...) e a mesquita dos mouros, que estava dentro nesta alcáçova, a mandou santificar e a limpar, e chamou-lhe Santa Cruz, por amor do dia da tomada desta cidade".

Quanto à função exacta do templo na Alta Idade Média, os investigadores divergem: Cláudio Torres, em 2001, situou no bairro o principal núcleo populacional ligado à administração islâmica e ao seu exército, conferindo alguma credibilidade à tradição da mesquita, ao passo que Augusto Vieira da Silva, num texto de 1942, alertara já para as fragilidades dessa tese, embora os seus argumentos mereçam hoje revisão. José Luís de Matos, em 1999, defendeu antes a existência de culto moçárabe no local, sem que seja possível assegurar o seu funcionamento no momento da conquista, em 1147, e Carlos Guardado da Silva, em 2008, sugeriu — sem apresentar documentação de suporte — que o nome da freguesia estaria associado aos cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra. Peças escultóricas ainda por publicar, provenientes de Santa Cruz, foram relacionadas por Manuel Luís Real, em 2000, com outros vestígios da Lisboa moçárabe, nomeadamente com espécimes do antigo mosteiro de Chelas, datáveis do século X.

A igreja na Baixa Idade Média Na Baixa Idade Média, o adro do templo foi parcialmente ocupado por celas de mulheres eremitas, prática documentada entre 1308 e 1385 segundo João Luís Inglês Fontes. É possível que aí tenha sido sepultado D. João Afonso, bispo de Évora, embora a inscrição com a data de 1318, recolhida no século XVII por Coelho Gasco, não tenha sido aceite por Mário Jorge Barroca no seu levantamento de epigrafia medieval, de 2000. Entre 1359 e 1360, logo no início do seu episcopado, D. Lourenço Rodrigues mandou realizar obras de reparação no templo, segundo Anísio Saraiva.

No baptistério conserva-se ainda hoje uma imagem gótica da Santíssima Trindade que a tradição faz proceder da destruída capela do Espírito Santo, subsistindo também a versão de que teria sido a própria igreja a possuir capela dedicada a essa invocação.

Ao longo dos séculos, o templo acompanhou o quotidiano da freguesia do Castelo, servindo de palco a baptizados, casamentos e óbitos de moradores de diferentes estratos sociais, de fidalgos e oficiais régios a soldados, presos e população civil, actos que constituem hoje fonte de conhecimento histórico sobre a comunidade local. É disso exemplo o casamento, em 1643, do sargento-mor da armada real Diogo Sanches do Poço com D. Antónia Henriques, falecida esta um ano depois. A igreja recebeu também, por vezes, sepulturas de presos oriundos da cadeia civil do Castelo, instituição que funcionou entre 1642 e 1771. Foi tradicionalmente neste templo que se baptizaram os filhos dos monarcas que habitavam o antigo paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge. miniaturadaimagem|342x342px|Santa Cruz e a igreja de São Vicente de Fora, em segundo plano Nos finais do século XV e princípios do século XVI, a igreja foi ricamente restaurada por D. Isabel de Sousa, aia e camareira-mor da rainha D. Leonor, tendo-lhe ornado as paredes "com mui grandes e custosos retábulos", nos quais figuravam as suas armas, e azulejando-as de modo vistoso, segundo relata Coelho Gasco. Ficou assim na capela-mor, do lado do Evangelho, sob um arco e separada do público por um gradeamento de ferro, uma tumba de pedra branca sobre a qual jazia uma figura feminina, hoje desaparecida, tendo sido colocada no local uma lápide com a inscrição que regista o falecimento de D. Isabel de Sousa, em 1516.

Antes do sismo de 1755, o templo possuía três naves, porta principal voltada a sul, outra a nascente e outra a poente, e sobre o arco da entrada principal erguia-se, num caixilho de madeira, uma antiquíssima imagem de Nossa Senhora da Graça. Contava com uma tribuna dourada e quatro capelas: do lado da Epístola, as de São Francisco e de Nossa Senhora da Graça, esta última jazigo dos Condes de Sant'Iago, e do lado do Evangelho, a capela das Almas (com o Arcanjo São Miguel, Santo António e Nossa Senhora da Conceição) e a capela de São Sebastião. Segundo os tombos da reedificação da cidade, em 1755 a igreja media cerca de 11×33 metros. O pavimento estava coberto de antigas lápides de "muy nobres linhagens e famílias", entre as quais as armas dos Castros, dos Pereiras e dos Soares de Melo, brasões das famílias Fonseca, Paiva, Machado e Brandão, a sepultura de um Lourenço Fernandes e a campa de D. João Afonso, bispo de Évora, e de seus pais. Numa capela dedicada ao Espírito Santo, pertencente à família Abreu e situada à direita de quem entrava pela porta principal, viam-se dois cofres de pedra com respectivos escudos, contendo as ossadas de Pedro de Abreu e de sua mulher, D. Mécia Botelha de Andrade.

Em 1551, a igreja dispunha de um vigário e cinco beneficiados, com um rendimento total de 260 cruzados, cabendo a cada benefício cem cruzados, e um deles auferindo ainda um préstimo de sessenta cruzados; possuía também uma capela com missa quotidiana celebrada pelos beneficiados, dotada de tesoureiro, e outras capelas administradas por leigos, que rendiam cinquenta e cinco cruzados, além de uma capela servida por capelães externos, remunerados em quarenta cruzados pelo administrador. No templo tinham sede as confrarias do Santíssimo, de Santa Cruz, de São Sebastião e de Nossa Senhora da Conceição, com esmolas no valor de sessenta e cinco cruzados. Ao longo dos séculos XIV a XVI a igreja sofreu diversos danos sísmicos, registados em 1344, 1356 e 1531, bem como sucessivas transformações, ampliações e restauros, sendo sujeita a novas obras seis anos antes do grande cataclismo de 1755. No segundo quartel do século XVII, o templo possuía uma porta principal e outra travessa, esta última sobre um adro de grandes dimensões; já nos finais desse século, existiam três portas — a principal voltada a sul e as restantes a poente e a nascente —, dispondo o corpo da igreja de três naves. Nesta época realizou-se também a pintura de telas por Bento Coelho da Silveira.

O Terramoto de 1755 e a ermida provisória O terramoto de 1 de Novembro de 1755 teve efeito devastador sobre a freguesia e sobre o próprio templo, que ficou consideravelmente destruído, tendo o incêndio subsequente consumido o que dele restava. Os prejuízos na freguesia foram vastos: dos 322 fogos existentes, restaram apenas 251, e morreram 50 fregueses, além dos que ficaram "falecidos debaixo dos edifícios que se não puderam tirar", como se lê no Livro IV de Óbitos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Perante a destruição do templo, foi erguida no adro uma ermida provisória de madeira, que se tornou o único local de culto reconstruído dentro do recinto do Castelo.

A reconstrução pombalina de 1776 e o contexto urbano O templo definitivo reabriu portas em 1776, reconstruído sob risco do arquitecto João Paulo e a expensas da Irmandade do Santíssimo, tendo as obras tido início nesse mesmo ano — data ainda hoje inscrita na porta principal —, sem que estivessem concluídas em 1783, ano em que as paredes se encontravam levantadas apenas até à cimalha, estando coberta unicamente a capela-mor. Na nova estrutura, a capela-mor ficou encostada à muralha da antiga cerca moura, servindo uma das suas torres de base à nova torre sineira, tendo sido igualmente reaproveitados azulejos hispano-árabes, o que estabeleceu uma ligação material entre o edifício reconstruído e as fases anteriores da ocupação islâmica e medieval da colina. A fachada principal passou então a orientar-se a poente, e o corpo da igreja ficou reduzido a uma única nave.

A reconstrução do templo inseriu-se num processo mais amplo de reedificação da freguesia, realizado sem planeamento urbanístico formal e seguindo, em larga medida, a antiga configuração de ruas, travessas e becos. Em 1776, a freguesia do Castelo compunha-se de onze artérias estreitas, dispostas irregularmente dentro do recinto muralhado, sendo a Rua de Santa Cruz do Castelo o eixo estruturante que ligava a única porta de entrada e saída da freguesia — junto ao Chão da Feira — ao restante da cidade. Já no século XIX foram construídos dois corpos laterais, possivelmente destinados a torres que nunca chegaram a concretizar-se. Em Março de 1889, a Irmandade do Santíssimo recebeu, por concessão, castiçais de metal e jarras provenientes do extinto Mosteiro da Esperança, e em 1817 o templo foi ainda dotado de um órgão, hoje instalado no coro. O sismo ocorrido em Fevereiro de 1969 provocou apenas danos ligeiros ao edifício.

O culto de São Jorge miniaturadaimagem|319x319px|A torre sineira é actualmente visitável a turistas, podendo estes subi-la e obter uma vista sobre a cidade