Abu Zacaria Iáia ibne Ziade ibne Abedalá Alabeci Alfarra (; Cufa, 144 A.H. (761–762) – 207 A.H. ()), mais conhecido como Alfarra (), foi um gramático, filólogo e estudioso do Alcorão do Califado Abássida, considerado uma das principais autoridades da tradição gramatical de Cufa. De origem dailamita, iniciou sua formação em Cufa e prosseguiu os estudos em Baçorá, recebendo ensinamentos de estudiosos vinculados às duas cidades e adquirindo também conhecimentos linguísticos diretamente entre os beduínos. Sua formação abrangeu a língua e a gramática árabes, o hádice, a exegese e as leituras corânicas, além da poesia e das tradições árabes.
Durante o califado de Almadi, transferiu-se para Baguedade, onde se tornou discípulo de e, por intermédio dele, aproximou-se dos círculos da corte abássida. Após a morte do mestre, em 805, assumiu a posição anteriormente ocupada por ele e desenvolveu intensa atividade docente, alcançando grande reputação nos estudos gramaticais e corânicos. Ligado posteriormente à corte de Almamune, foi encarregado da educação dos filhos do califa e reuniu numerosos discípulos. Embora tenha sido consagrado pela tradição posterior como um dos grandes representantes da gramática cufana, sua formação incorporou também importantes elementos da tradição filológica de Baçorá, num período em que a distinção entre as duas escolas não apresentava necessariamente a rigidez que lhe seria atribuída posteriormente.
Alfarra escreveu sobre gramática, lexicografia, leituras corânicas e interpretação linguística do Alcorão, embora apenas parte de sua produção tenha sobrevivido. Sua principal obra conservada é o Maʿānī al-Qurʾān ("Significados do Alcorão"), trabalho de caráter predominantemente linguístico e filológico no qual examinou vocabulário, etimologia, morfologia, sintaxe, iʿrāb e variantes de leitura do texto corânico, recorrendo também à poesia e aos usos linguísticos dos árabes. A obra tornou-se uma contribuição importante para a tradição posterior dos estudos corânicos e linguísticos e constitui uma das principais expressões conservadas da atividade filológica de Alfarra.
Vida e formação
Alfarra nasceu em Cufa em 144 A.H. (761–762). Seu nome completo era Abu Zacaria Iáia ibne Ziade ibne Abedalá Alabeci Alfarra. Pertencia a uma família de origem dailamita que, pela linha paterna, estava ligada como maula aos ou aos açaditas. Sua infância e os primeiros anos de formação transcorreram em Cufa. Era primo materno do jurista . O epíteto Alfarra (al-Farrāʾ) significa aparentemente "peleiro", embora também tenha sido explicado como "aquele que divide", no sentido de alguém que examina minuciosamente a linguagem. Sua formação abrangeu o hádice, a língua árabe, a exegese do Alcorão e as leituras corânicas. Ainda em Cufa, esteve ligado a estudiosos como , cuja obra gramatical Kitāb al-Fayṣal conhecia profundamente. Posteriormente prosseguiu os estudos em Baçorá, onde recebeu ensinamentos de Alcalil ibne Amade Alfaraídi e , frequentando sobretudo as aulas deste último. Alfarra adquiriu também conhecimentos linguísticos diretamente entre os beduínos e recebeu influência de outros estudiosos associados à tradição filológica de Baçorá, entre eles . Recebeu ainda de Almufadal Adabi conhecimentos relativos à poesia e às tradições árabes. Sua formação reuniu, assim, materiais e ensinamentos provenientes tanto de Cufa quanto de Baçorá. A presença dessas influências é significativa porque, embora Alfarra viesse posteriormente a ser considerado uma das principais autoridades da chamada escola gramatical de Cufa, a divisão rígida entre as escolas de Cufa e Baçorá já pressuposta por estudiosos posteriores não corresponde necessariamente ao ambiente intelectual em que ele se formou.
Durante o califado de Almadi , Alfarra transferiu-se para Baguedade por recomendação de Arruaci. Ali encontrou , então uma das principais autoridades nos estudos da língua e das leituras corânicas. Segundo a tradição biográfica, uma discussão entre ambos levou Alfarra a reconhecer a superioridade gramatical de Alquiçai, de quem se tornou um dos principais discípulos. A relação com o mestre constituiu um ponto decisivo de sua carreira: por intermédio dele, Alfarra passou a frequentar os círculos da corte e de altos funcionários abássidas, ao mesmo tempo que aprofundava seus conhecimentos de gramática e das leituras do Alcorão. Antes de 187 A.H. (803), Alfarra já havia alcançado reputação suficiente para ser chamado à presença do califa. Sua posição tornou-se ainda mais destacada depois da morte de Alquiçai, em 189 A.H. (805), quando, a pedido dos companheiros deste, assumiu seu lugar e iniciou uma intensa atividade docente. Instalado em Baguedade, tornou-se uma das principais autoridades nos estudos gramaticais e foi considerado a maior autoridade da cidade nos estudos corânicos, realizando concorridas sessões de ensino e ditado. Durante o reinado de Almamune , esteve ligado à corte e foi encarregado da educação dos filhos do califa. Uma tradição relativa à composição do Ḥudūd afirma que Almamune lhe proporcionou instalações, auxiliares e escribas para que preparasse uma obra sobre os princípios da gramática e o material de árabe considerado eloquente recolhido entre os beduínos. Entre os numerosos alunos associados a Alfarra encontram-se Abu Ubaide , Ibne Aciquite e , além de outros estudiosos de língua, literatura e leituras corânicas. Embora residisse em Baguedade, manteve vínculos com Cufa e, segundo a tradição biográfica, costumava regressar à cidade no final de cada ano, permanecendo cerca de quarenta dias junto aos parentes e distribuindo entre eles seus ganhos. Em 206 A.H. (822), realizou a peregrinação a Meca e morreu durante a viagem de regresso, no início de 207 A.H. (822).
Atividade gramatical
Alfarra tornou-se uma das principais autoridades da gramática árabe de seu tempo e foi posteriormente considerado um dos grandes representantes da tradição gramatical de Cufa. Sua posição nessa tradição esteve estreitamente relacionada à de seu mestre Alquiçai. Após a morte deste, seus companheiros recorreram a Alfarra, que assumiu o lugar anteriormente ocupado pelo mestre e passou a exercer destacada atividade como gramático. Sua reputação como gramático acabou por superar a que alcançou nos demais campos em que atuou, apesar de seus conhecimentos de hádice, fiqh, astronomia, medicina, história dos árabes e poesia. A associação de Alfarra à chamada escola de Cufa não implica, contudo, que sua formação tenha ocorrido isoladamente da tradição filológica de Baçorá. Além dos ensinamentos recebidos de estudiosos cufanos e especialmente de Alquiçai, estudou em Baçorá com Alcalil ibne Amade Alfaraídi e Iunus ibne Habibe, frequentando sobretudo as aulas deste último, e recebeu influência de outros estudiosos associados à tradição baçorana. Blachère assinala que a oposição entre uma "escola de Cufa" e uma "escola de Baçorá", tal como apresentada pela tradição gramatical posterior, não deve ser projetada de maneira rígida sobre esse período. No caso de Alfarra, a influência baçorana pode ser percebida em sua própria formação e em seu recurso a autoridades associadas a Baçorá.
Apesar dessas relações, a tradição posterior identificou Alfarra de maneira particular com a gramática cufana. Seus discípulos e os estudiosos que transmitiram suas opiniões foram igualmente associados a essa tradição. Entre os gramáticos posteriores que deram continuidade aos ensinamentos de Alfarra destacou-se , que viria a ser reconhecido como uma das principais autoridades gramaticais cufanas no . As análises de Alfarra baseavam-se amplamente no material linguístico transmitido pelos árabes e no exame do Alcorão, das leituras corânicas, da poesia e das diferentes formas de expressão registradas pela tradição filológica. Sua obra preserva opiniões de gramáticos anteriores e contemporâneos e compara diferentes usos linguísticos. As leituras corânicas ocupam lugar particularmente importante em suas discussões: Alfarra examina variantes de leitura e procura explicá-las por meio da gramática e dos usos documentados da língua árabe. Essa associação entre análise gramatical, material filológico e exegese aparece de maneira especialmente desenvolvida no Maʿānī al-Qurʾān, sua principal obra conservada. A autoridade alcançada por Alfarra foi expressa de forma particularmente enfática por estudiosos posteriores. A tradição atribuiu-lhe uma posição excepcional entre os gramáticos, e algumas fontes chegaram a qualificá-lo como amīr al-muʾminīn fī al-naḥw ("comandante dos crentes na gramática"). Sua importância não se limitou à transmissão das opiniões de Alquiçai: suas próprias análises foram preservadas e discutidas por gramáticos posteriores, sobretudo por meio de seus discípulos e de suas obras.
Obras
As fontes atribuem a Alfarra uma produção considerável nos campos da gramática, lexicografia, leituras corânicas e estudos do Alcorão. Ibne Anadim, no Fihrist, registra dezesseis títulos, enquanto outras fontes mencionam obras adicionais. Apenas quatro de suas obras são conhecidas como tendo chegado à atualidade: Maʿānī al-Qurʾān, al-Mudhakkar wa-l-muʾannath, al-Ayyām wa-l-layālī wa-l-shuhūr e al-Maqṣūr wa-l-mamdūd. Entre as demais obras atribuídas a Alfarra encontram-se al-Lughāt, al-Mushkil al-kabīr, Mushkil al-lugha, al-Waqf wa-l-ibtidāʾ, al-Jamʿ wa-l-tathniya, Ikhtilāf ahl al-Kūfa wa-l-Baṣra wa-l-Shām fī l-maṣāḥif, Mā talḥanu fīhi al-ʿāmma e al-Ḥudūd. O al-Ḥudūd foi uma de suas principais obras gramaticais. Segundo uma tradição preservada acerca de sua composição, o califa Almamune encarregou Alfarra de preparar um trabalho sobre os princípios da gramática e o material de árabe eloquente recolhido entre os beduínos, proporcionando-lhe instalações e escribas para a realização da tarefa. A obra continha quarenta e seis ḥadd ("definições"), dedicados a diferentes questões da língua árabe.
Maʿānī al-Qurʾān
A principal obra conservada de Alfarra é o Maʿānī al-Qurʾān ("Significados do Alcorão"), cujo título original é Tafsīr mushkil iʿrāb al-Qurʾān wa-maʿānīhi. Pertence ao gênero dos maʿānī al-Qurʾān, obras dedicadas à explicação filológica do texto corânico, particularmente de seu vocabulário, estrutura gramatical e passagens que apresentavam dificuldades de interpretação. A obra de Alfarra ocupa posição destacada nessa tradição e constitui o mais antigo trabalho conservado em que aparecem desenvolvidos os princípios filológicos posteriormente associados à tradição gramatical de Cufa. A composição da obra é relacionada a um pedido de Omar ibne Bucair, que tinha dificuldades para responder às questões sobre o Alcorão formuladas por Haçane ibne Sal, vizir do califa Almamune. Alfarra teria então reunido seus discípulos e iniciado o ditado da obra em 202 A.H. (817–818), concluindo-o em 204 A.H. (819). Segundo a tradição, as sessões atraíram uma audiência tão numerosa que não foi possível contar todos os presentes; apenas as mulheres foram contadas, totalizando oitenta. Alfarra teria ditado o trabalho de memória, sem consultar uma cópia.
O Maʿānī al-Qurʾān acompanha geralmente a ordem das suras e dos versículos, embora apresente ocasionalmente alterações nessa sequência. Alfarra não comenta sistematicamente todos os versículos: seleciona aqueles que considera necessitarem de explicação e, com frequência, concentra-se apenas em determinada palavra ou expressão. Sua abordagem é predominantemente linguística e filológica. Examina a etimologia e a formação das palavras, questões de morfologia e sintaxe, diferentes possibilidades de iʿrāb e as diferenças de sentido decorrentes delas. Para fundamentar suas análises, recorre a outros versículos do Alcorão, à poesia e aos usos linguísticos dos árabes.