O ducado da Gótia ou marquesado da Gótia (em latim Gothia ou Gothica;Sabaté 1998, p. 377 também referido como Marca Hispânica)Balaguer i Cirera, Víctor: Historia de Cataluña y de la Corona de Aragón, p. 203 é o nome que os francos deram aos territórios conquistados aos muçulmanos entre 759 e 801 e que anteriormente tinham sido províncias do Reino Visigótico. A Gótia era constituída por toda a antiga Septimânia visigótica e pela parte norte da Tarraconense visigótica, enquanto a parte sul da antiga província permaneceu sob domínio islâmico. A campanha de conquista iniciou-se com o cerco de Narbona, prosseguiu do outro lado dos Pirenéus com o cerco de Girona (785), continuou com o cerco de Barcelona, mas não pôde culminar com a tomada de Tortosa, consolidando-se deste modo a fronteira do Llobregat. O ducado não estava sob a jurisdição única de um duque, mas, entre os vários condes nomeados pelos reis francos, aquele que detinha maior poder recebia o título honorífico de Dux. Com a extinção da dinastia carolíngia e a crise da monarquia franca, os condes situados a sul das Corbieres afirmaram a sua independência relativamente aos monarcas francos da nova dinastia capetiana, enquanto os territórios da antiga Septimânia visigótica permaneceram sob obediência franca, ficando a denominação de Marquesado da Gótia restringida a este território transpirenaico.

Reino dos Visigodos

A Tarraconense, como boa parte da organização territorial romana, continuou a ser uma das divisões administrativas do Reino Visigótico ao longo dos séculos VI e VII. A Tarraconense foi utilizada como base pelos diferentes reis visigodos para defender as suas possessões da Gallia Narbonensis e travar os ataques promovidos pelos reis francos da antiga Gália.

Os duces provinciais lang=pt|miniatura|As províncias romanas persistiram durante o Reino Visigótico de Toledo. O governador visigótico de uma província era o dux provinciae; as competências de que gozava eram basicamente de ordem militar. Existem escassos dados sobre as funções dos governadores provinciais godos (denominados dux, no plural duces, isto é, dux provinciae ou duces provinciarum). As províncias eram frequentemente designadas ducatus. Os duces tinham autoridade sobre toda a província e sobre os condes (comites) das cidades. Ignora-se se tinham funções judiciais, embora se saiba que, em alguns casos, quando, pela personalidade dos indivíduos julgados, o assunto era submetido ao rei, este podia delegá-lo no dux ou no conde. Parece que a sua principal função era militar e que tinham o comando de um exército que constituía o maior contingente de tropas da província (os condes também dispunham de contingentes locais). O número de soldados do dux em tempo de paz é estimado em cerca de trezentos, enquanto os contingentes dos condes eram provavelmente de uma centena. Embora os cidadãos romanos estivessem excluídos de algumas funções, suspeita-se que pudessem tornar-se duques provinciais, conhecendo-se o nome romano de um dux (concretamente Cláudio ou Claudius, dux da Lusitânia, embora, apesar de ter um nome claramente romano, não exista evidência de que não fosse um godo que tivesse adotado um nome romano ao converter-se ao catolicismo). O facto de o cargo poder ser exercido por romanos e de o dux ter o comando das tropas confirmaria que não existia qualquer receio da hostilidade da população romana. Parece provável que os romanos não pudessem exercer o cargo de conde devido ao seu presumível desconhecimento das leis e costumes godos, que, pelas suas funções judiciais, era necessário conhecer.

Os comes municipais A mais alta autoridade local visigótica era o comes civitatis, «conde da cidade», com jurisdição sobre os habitantes de nacionalidade visigótica de uma cidade e sobre o território circundante dela dependente, enquanto os habitantes romanos ou hispanos dispunham das suas próprias autoridades. Por isso, crê-se que apenas existiam condes nas cidades onde havia cidadãos visigodos. Assim, existiam condes, mas não havia uma divisão em condados, mas sim em territórios, dos quais alguns tinham conde e outros não. O conde da cidade era nomeado pelo rei e normalmente tinha de ser um homem rico e de nascimento nobre. Os condes recebiam um salário do tesouro público e não podiam fixar tributos sobre os cidadãos romanos. A principal função do conde era de carácter militar, estando sob o seu comando a guarnição militar da localidade e tendo controlo direto sobre o principal oficial militar, o Thiufadi. O conde tinha também funções administrativas, nas quais era auxiliado por um funcionário denominado vicarius. O vicarius não podia impor tributos aos romanos nem confiscar propriedades sem ordem judicial. Paralelamente à sua função militar e administrativa, o conde também tinha jurisdição sobre casos civis e criminais, mas deixava a maioria dos casos, sobretudo os civis, ao iudex loci. Alguns casos eram julgados pelo conde e pelo iudex loci conjuntamente, enquanto o conde tinha direito de recurso sobre as decisões do juiz local, de modo que, se alguém recorresse das decisões de um juiz, tinha de atender ao pedido. Do mesmo modo, o conde podia punir o juiz local se este negligenciasse os seus deveres. Por sua vez, os delitos cometidos por godos tinham de ser denunciados tanto perante o conde como perante o iudex loci. A detenção competia a este último, mas, se não pudesse realizá-la, estava autorizado a solicitar ajuda ao conde, que lha devia prestar, facultando-lhe homens armados.

A invasão islâmica miniatura|A fronteira superior (Ath-Thaghr al-Alà) compreendia a parte sul da antiga Tarraconense.

Os muçulmanos desembarcaram em 711 em Gibraltar e pouco depois venceram os visigodos na Batalha de Guadalete. Com a destruição do Reino Visigótico, o sistema de administração territorial da Hispânia herdado do Império Romano desapareceu e, com ele, a província Tarraconense. Ainda assim, a zona oriental desta serviu como último bastião de resistência aos dois últimos monarcas visigodos, Áquila II (711–713) e Ardão (713–720). Na primavera de 714, os muçulmanos chegaram ao vale do Ebro e, uma vez assegurada a retaguarda através da submissão de Córdova, Sevilha, Mérida e Toledo, a ocupação do território passava pelo domínio dos centros urbanos mais importantes do Reino Visigótico, entre eles Cesaraugusta. A entrada dos muçulmanos em Cesaraugusta foi pacífica, mas alguns nobres visigodos e altos dignitários eclesiásticos fugiram para os Pirenéus. Depois da conquista da Tarraconense, o vali da Hispânia, Al-Samh ibn Malik al-Khawlani, invadiu a Gália Narbonense, estabelecendo a sua capital em Narbona em 720, oferecendo aos habitantes condições generosas e uma rápida pacificação das outras cidades. Com Narbona assegurada, e sobretudo com o seu porto, os marinheiros árabes dominavam o Mediterrâneo ocidental, submetendo rapidamente as cidades controladas pelos condes visigodos. Em 721 chegaram reforços para preparar o cerco de Toulouse, que era a chave para dominar a Gália Aquitânia nas mesmas condições que a Gália Narbonense, mas estes planos falharam devido à derrota na Batalha de Toulouse (721). As forças árabes, solidamente instaladas na Gália Narbonense e facilmente abastecidas por mar, continuaram a atacar para leste, chegando até Autun em 725. Em 731, o vali berbere de Narbona e da região da Cerdanha, Uthman ibn Naissa, rebelou-se contra Abderramão ibne Abdalá, devido à opressão sofrida pelos berberes no norte de África, e estabeleceu uma trégua com o duque da Aquitânia Eudo, o Grande. Em represália, al-Ghafiqi enviou uma missão para capturar Uthman, que, durante o Combate de Llívia, ficou cercado e foi morto.

A conquista franca da Gótia e o reinado de Luís I, «o Piedoso»

Em 732, al-Ghafiqi retomou a ofensiva contra o reino dos francos e escolheu a rota de Pamplona e Roncesvales para penetrar na Gália Aquitânia. Depois da Batalha de Bordéus, conquistou a cidade e saqueou-a com violência. O duque da Aquitânia, Eudo, o Grande, saiu ao encontro dos invasores quando estes atravessavam o rio Dordonha, mas foi derrotado na Batalha do Garona, razão pela qual se viu obrigado a recompor a sua relação com Carlos Martel, oferecendo-lhe submissão e ajuda para fazer frente aos muçulmanos. Carlos Martel enviou rapidamente um exército enquanto Al-Ghafiqi avançava sem encontrar resistência. Depois de saquear a região de Poitiers, Al-Ghafiqi prosseguiu o avanço para norte, em direção à abadia de São Martinho de Tours, mas, no caminho entre Poitiers e Tours, foram-lhe ao encontro as forças do duque Eudo e os reforços enviados por Carlos Martel, travando-se a decisiva Batalha de Tours em outubro de 732. As tropas árabes foram derrotadas e Al-Ghafiqi morreu. Os sobreviventes retiraram-se em desordem para Narbona. Depois da Batalha de Tours, as novas agressões dos muçulmanos na zona de Arles Francisco Codera y Zaidín, Estudios Criticos de Historia Arabe Española, pp. 324–325 e a aliança de Mauronte com Iúçufe ibne Abderramão Alfiri contra os francos Geary, Patrick J. Before France and Germany. Oxford University Press: 1988 obrigaram Carlos Martel a promover uma nova expedição, reunindo um grande exército de francos e borgonheses que se apoderou de Avinhão. Depois de tomar a cidade, Carlos Martel atravessou o Ródano e entrou na Gália Narbonense, onde iniciou o cerco de Narbona em 737, cidade que finalmente não conseguiu tomar. Em 742, a eclosão da Revolta berbere do Valiado de al-Andalus e a posterior Revolta iemenita do Valiado de al-Andalus em 745 desembocaram na reconquista omíada de 756.

miniatura|A Batalha de Tours (732)