Abu Talibe Almufadal ibne Salama ibne Ácime Alcufi (; Baguedade, – após 290 A.H. (903), possivelmente 300 A.H. (913)) foi um gramático, lexicógrafo e estudioso da literatura árabe da escola filológica de Cufa. Formado inicialmente por seu pai, Salama ibne Ácime, e posteriormente por alguns dos principais estudiosos da língua árabe de seu tempo, dedicou-se à gramática, lexicografia, literatura e ciências corânicas. Esteve ligado aos círculos da corte abássida, recebendo o patrocínio de e posteriormente de Ismail ibne Bulbul, e manteve relações literárias com o príncipe e poeta Ibne Almutaz.
Autor prolífico, Almufadal escreveu sobre diversos campos da língua e cultura árabes, incluindo gramática, lexicografia, provérbios, literatura, exegese corânica, música, botânica e genealogia. Entre suas principais obras conservadas encontra-se al-Fākhir fi’l-amthāl, coletânea e estudo de 521 provérbios e expressões tradicionais árabes que se tornou fonte de trabalhos lexicográficos e paremiológicos posteriores. Outra obra importante, o Kitāb al-Malāhī wa-asmāʾihā min qibal al-mūsīqā, reúne e explica vocabulário relativo ao úde e a outros instrumentos musicais documentado na poesia árabe desde a Jailia. Também sobreviveram o tratado gramatical Mukhtaṣar al-mudhakkar wa’l-muʾannath e a obra teológica Jalāʾ al-shabah fī al-radd ʿalā al-Mushabbiha.
Numerosas outras obras atribuídas a Almufadal são conhecidas apenas por seus títulos ou não chegaram à atualidade, entre elas estudos sobre o Alcorão, botânica, genealogia, escrita, etimologia e gramática. Sua última obra, Kitāb al-Bāriʿ fī ʿilm al-lugha, permaneceu inacabada. Almufadal também escreveu uma crítica ao Kitāb al-ʿAyn, atribuído a Alcalil ibne Amade Alfaraídi. Sua data de morte permanece incerta: sabe-se que ainda vivia em 290 A.H. (903), quando Alçuli estudou com ele, enquanto uma tradição situa sua morte em 300 A.H. (913).
Vida
Abu Talibe Almufadal ibne Salama ibne Ácime Alcufi nasceu em Baguedade, provavelmente no início do . Também era conhecido pela cúnia Ibne Ácime. Algumas fontes o confundiram com o filólogo do Almufadal Adabi, atribuindo-lhe por isso a nisba Adabi. Pertencia à escola filológica de Cufa e recebeu sua formação inicial de seu pai, , destacado discípulo e transmissor de Alfarrá, com quem estudou gramática árabe, lexicografia e ciências corânicas. Frequentou também as aulas do lexicógrafo Abu Abedalá ibne Alarabi e estudou com eruditos como , Ibne Aciquite, , e . Almufadal tornou-se gramático, lexicógrafo e estudioso da literatura árabe e teve entre seus discípulos Alçuli, Abu Haçane Amade ibne Saíde Adimaxequi, Abu Haçane Ali ibne Harune, Abedalazize ibne Atairi e Abu Muça Issa ibne Maruane Alcufi. Seu filho, , foi jurista xafiíta e autor. Almufadal esteve ligado aos círculos da corte abássida e recebeu o patrocínio de , vizir do califa Almotauaquil . Depois do assassinato de Alfate, passou a desfrutar do favor de Ismail ibne Bulbul, vizir do califa Almutâmide . As fontes registram ainda que Almufadal e o poeta e príncipe abássida Ibne Almutaz trocaram correspondência em versos, embora sua poesia não tenha sido considerada de particular valor literário. A data de sua morte é incerta. As fontes biográficas clássicas não registram um ano preciso, mas Alçuli afirmou ter estudado com Almufadal em 290 A.H. (903), o que demonstra que ainda estava vivo nessa data, e Adaabi igualmente situa sua morte depois desse ano. Uma tradição atribuída a fornece, por sua vez, 300 A.H. (913) como o ano de sua morte.
Obras
Almufadal escreveu numerosas obras sobre lexicografia, gramática, literatura, estudos corânicos e outros aspectos da cultura árabe. Entre as que chegaram à atualidade destaca-se al-Fākhir fi’l-amthāl, dedicado principalmente aos provérbios e às expressões correntes entre os árabes. Aproximadamente metade de seu conteúdo é constituída por provérbios, enquanto o restante compreende explicações de fórmulas tradicionais de saudação, súplica, maldição, felicitação e condolências, além de outras expressões cujo significado continuava a ser empregado na vida cotidiana sem ser necessariamente conhecido por seus usuários. Ao todo, a obra comenta 521 expressões, sem organizá-las segundo uma ordenação sistemática. Na exposição dos relatos associados à origem dos provérbios, Almufadal recorreu, entre outras fontes, ao Kitāb al-Amthāl de Almufadal Adabi, às obras homônimas de e , bem como a tradições provenientes de Ibne Alcalbi, Auana ibne Aláqueme Alcalbi, Axarqui ibne Alcutami, de seu pai, Salama ibne Ácime, e de Azobair ibne Bacar. Para a explicação das demais expressões, utilizou igualmente material transmitido por Abu Anre Axaibani, Alfarrá, e Alasmai. Al-Fākhir exerceu influência sobre obras lexicográficas e paremiológicas posteriores, sendo extensamente utilizado no az-Zāhir, de Abu Becre ibne Alambari, no Majmaʿ al-amthāl, de Almaidani, e no Lisan al-Arab, de Ibne Manzur. A primeira quinta parte da obra foi publicada sob o título Ghāyat al-arab fī maʿānī mā yajrī ʿalā alsun al-ʿāmma fī amthālihim wa-muḥāwarātihim min kalām al-ʿArab, integrada à coletânea Khams rasāʾil, em Istambul, em 1301 A.H. Charles Ambrose Storey publicou essa parte no Cairo em 1327 A.H. e posteriormente editou o texto completo em Leiden, em 1915. Uma edição integral foi também preparada por ʿAbd al-ʿAlīm al-Ṭaḥāwī e Muḥammad ʿAlī al-Najjār e publicada no Cairo em 1380 A.H. (1960). Maomé ibne Haçane ibne Maomé produziu ainda um resumo comentado da obra, intitulado al-Mukhtaṣar min al-Fākhir fī al-amthāl al-sāʾira, conservado na Biblioteca da Universidade de Istambul.
Outra obra conservada é o Kitāb al-Malāhī wa-asmāʾihā min qibal al-mūsīqā, também conhecido como Kitāb al-ʿŪd wa’l-malāhī. Almufadal escreveu-o em resposta à alegação de que os antigos árabes não conheciam o úde e outros instrumentos musicais. Para contestá-la, reuniu e explicou palavras, expressões e termos referentes ao alaúde, às suas variedades e a diferentes instrumentos musicais encontrados na poesia árabe desde a Jailia. A obra constitui, assim, um estudo do vocabulário musical transmitido pela antiga poesia árabe. O Kitāb al-Malāhī sobreviveu em um único manuscrito copiado pelo célebre calígrafo . Um fac-símile desse manuscrito foi publicado em Glasgow, em 1938, juntamente com uma tradução inglesa de James Robson e uma introdução de Henry George Farmer intitulada Ancient Arabic Musical Instruments in the Handwriting of Yāqūt al-Mustaʿsımī. O texto foi posteriormente publicado no trabalho de ʿAbbās al-ʿAzzāwī sobre a música iraquiana durante os períodos mongol e turcomano e recebeu uma edição independente, acompanhada de notas, preparada por Ghaṭṭās ʿAbd al-Malik Khashaba e publicada no Cairo em 1984. Esta última edição incluiu também o Kitāb al-Lahw wa’l-malāhī, de Ibne Cordadebe, e um breve tratado anônimo sobre a dança e suas variedades.
Entre suas demais obras conservadas encontra-se o Mukhtaṣar al-mudhakkar wa’l-muʾannath, dedicado ao gênero gramatical, editado por Ramaḍān ʿAbd al-Tawwāb em 1971 e novamente publicado no Cairo em 1972. Também sobrevive o Jalāʾ al-shabah fī al-radd ʿalā al-Mushabbiha, obra de caráter teológico na qual Almufadal interpreta, sob a perspectiva do calâm, passagens corânicas utilizadas pelos e critica a concepção antropomórfica atribuída a esse grupo. Um manuscrito da obra é conservado na Biblioteca de Solimão, em Istambul. Seu Kitāb al-Bāriʿ fī ʿilm al-lugha, por sua vez, foi sua última obra e permaneceu inacabado; nenhum manuscrito dela foi identificado. As fontes atribuem ainda a Almufadal numerosas obras hoje conhecidas sobretudo por seus títulos. Entre elas estão Kitāb al-Ṭayf; Ḍiyāʾ al-qulūb fī maʿānī al-Qurʾān fī gharībihi wa-mushkilihi, extensa obra sobre passagens incomuns e problemáticas do Alcorão, composta de mais de vinte volumes; Maʿānī al-Qurʾān; Kitāb al-ʿIṭr wa-ajnāsihi, também denominado Kitāb al-Ṭīb ou Kitāb al-Muṭayyab; Kitāb al-Zarʿ wa’l-nabāt wa’l-nakhl wa-anwāʿ al-shajar; Kitāb al-Anwāʾ wa’l-bawāriḥ; Khalq al-insān; Kitāb mā yaḥtāju ilayhi al-kātib, também conhecido como Ālat al-kātib; al-Khaṭṭ wa’l-qalam; Jamāhīr al-qabāʾil; Kitāb al-Ishtiqāq; al-Maqṣūr wa’l-mamdūd; al-Madkhal ilā ʿilm al-naḥw; uma obra sobre a poesia de ; e al-Radd ʿalā al-Khalīl wa-iṣlāḥ mā fī Kitāb al-ʿAyn min al-ghalaṭ wa’l-muḥāl wa’l-taṣḥīf, crítica ao Kitāb al-ʿAyn, de Alcalil ibne Amade Alfaraídi. Sobre esta última, considerou que a maioria das críticas formuladas por Almufadal contra a obra de Alcalil estava equivocada.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século IX Categoria:Árabes do século X Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Naturais de Bagdá