miniaturadaimagem|326x326px|Reneé Gagnon em frente à obras suas Renée Gagnon (Montreal, 1942) é uma artista canadiana radicada em Portugal, cuja produção abrange a fotografia, a pintura e a serigrafia. O seu trabalho caracteriza-se pelo interesse por paisagens, estruturas construídas, memória e património, tendo desenvolvido séries dedicadas aos musseques de Luanda, às oliveiras ancestrais e aos monumentos megalíticos europeus.

Biografia Renée Gagnon nasceu em Montreal, no Canadá, em 1942. Estudou pintura na Escola de Belas-Artes de Montreal e prosseguiu a sua formação em Paris, na Escola do Louvre e na Académie de la Grande Chaumière, onde estudou com o pintor Aujame.

Em 1970, fixou residência em Lisboa, onde desenvolveu técnicas de serigrafia aplicadas a telas de grandes dimensões. Entre 1972 e 1974 viveu em Luanda, Angola, onde iniciou uma pesquisa sobre a construção dos musseques. Em 1975, recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para desenvolver esse estudo. Voltaria a receber uma bolsa da instituição em 1986–1987.

Gagnon vive e trabalha em Lisboa. Ao longo da sua carreira participou em exposições individuais e coletivas em Portugal, Angola, França, Suíça e outros países, e as suas obras integram coleções públicas e privadas, incluindo as da Fundação Calouste Gulbenkian, Caixa Geral de Depósitos, Fundação Júlio Resende, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Presidência da República de Angola e câmaras municipais de Luanda e Lobito.

Obra

Musseques de Luanda A experiência de Gagnon em Luanda deu origem ao trabalho desenvolvido em torno dos musseques, bairros de construção precária da cidade. Entre 1972 e 1974 iniciou os estudos sobre essas estruturas e, posteriormente, regressou a Angola com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para desenvolver uma pesquisa documental e plástica sobre as paliçadas dos musseques.

A artista registou fotograficamente ruas, caminhos, becos, portas, janelas, paliçadas e outros elementos das construções, produzindo milhares de fotografias. O trabalho documentou também o uso de materiais recuperados, como tonéis, bidões, madeira, chapas metálicas, cartão, plástico, tecidos, paus, terra e outros materiais utilizados na construção dos bairros.

A pesquisa deu origem à série Musseques, desenvolvida entre 1976 e 1980. A produção inclui fotografias e serigrafias nas quais a artista combinou a documentação dos musseques com uma intervenção plástica marcada pelo uso intenso da cor. Entre as obras da série encontram-se Muro da Alegria (1976), Elogio do Lixo (1976), Ordem para a Guerrilha (1977), Muro da Dança (1978), Lata (1978), Tábua (1978), Esteira (1978), Depois da Noite (1978), Porta da Serenidade (1980) e Criar (1980).

Em 1980, a série foi apresentada no Museu Nacional de Angola, em Luanda, numa exposição intitulada Musseques. Pintura e Gravura Renée Gagnon. O Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu posteriormente a série de onze serigrafias, completando a aquisição em 2021.

Em 2024, parte do registo fotográfico realizado por Gagnon em Luanda foi apresentado na exposição Mu Seke 75, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. A exposição reuniu fotografias realizadas entre 1975 e 1976 e apresentou pela primeira vez o projeto fotográfico na sua totalidade, destacando simultaneamente o seu valor documental e artístico.

Oliveiras Outra vertente importante da produção de Gagnon surgiu a partir do interesse por oliveiras ancestrais. Em 2014, durante uma deslocação ao Alentejo, a artista começou a fotografar árvores antigas, posteriormente ampliando a pesquisa a exemplares na Sardenha, em Itália, e na região de Barcelona, em Espanha.

As fotografias foram posteriormente trabalhadas no estúdio da artista em Lisboa, através de manipulação digital e aplicação de tinta, criando imagens que combinam o registo fotográfico com intervenção pictórica.

O resultado foi apresentado na exposição Now and Ever | Oliveiras, inaugurada em 2017 na Fundação Portuguesa das Comunicações, em Lisboa. A exposição também foi apresentada posteriormente no âmbito da programação cultural de Monsaraz.

Monumentos megalíticos Na série Sanctuaries (Santuários), Gagnon voltou a combinar fotografia e intervenção pictórica, desta vez tendo como objeto monumentos megalíticos europeus, incluindo antas da Irlanda, Bretanha, Países Baixos e Portugal.

A exposição Santuários, apresentada em 2021 no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, reuniu fotografias de grande formato. Sobre as imagens fotográficas, Gagnon aplicou materiais como guache, lápis e aguarela, introduzindo uma dimensão pictórica no registo fotográfico.

O interesse pelos monumentos megalíticos relaciona-se com a pesquisa anterior sobre oliveiras ancestrais e com a atenção da artista à permanência, à memória e à relação entre elementos naturais e vestígios da presença humana.

Exposições Entre as exposições individuais de Gagnon encontram-se mostras realizadas na Sociedade Nacional de Belas-Artes e na Galeria de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, em 1972; na Galeria CITA, em Luanda, em 1973; no Lobito, em 1974; no Museu Nacional de Angola, em 1980; no Centro Cultural da Embaixada do Canadá, em Lisboa, em 1982; na Galeria Árvore, no Porto, em 1983; na Galeria Posseidon, em Zurique, em 1985; e no Centro Cultural do Canadá, em Paris, em 1987.

Nas décadas seguintes, apresentou trabalhos em Faro, Lisboa, Monsaraz e outras localidades portuguesas. Entre as exposições mais recentes encontram-se Santuários, apresentada em Évora em 2021 e posteriormente em Redondo e Estremoz em 2023; Mu Seke 75, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, em 2024; e Obstinada.mente, exposição antológica apresentada na Casa da Liberdade – Mário Cesariny e na Perve Galeria, em Lisboa, entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025.

Obstinada.mente foi apresentada como a primeira exposição antológica dedicada à artista, reunindo trabalhos de diferentes períodos e técnicas, incluindo fotografia, pintura e serigrafia, com destaque para as séries relacionadas com os musseques de Luanda, oliveiras e monumentos megalíticos.

Prémios Gagnon recebeu o Prémio Aquisição da 1.ª Bienal de Belas-Artes AIP, em 1992; o Prémio Júlio Resende de Pintura, em 1997; o Prémio de Desenho da 2.ª Bienal de Belas-Artes da Maia, em 1998; e o Prémio Aquisição da 10.ª Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, em 1999.

Publicações Em 1976, Gagnon publicou trabalhos relacionados com os musseques em publicações como Le Maclean, Colóquio/Artes e Jeune Afrique. No número 26 da revista Colóquio/Artes, de fevereiro de 1976, publicou o artigo Les Musseques de Luanda ou la civilisation du déchet version africaine, acompanhado por fotografias a preto e branco.

Coleções Obras de Renée Gagnon encontram-se em coleções da Fundação Calouste Gulbenkian, da Caixa Geral de Depósitos, da Fundação Júlio Resende, da Secretaria de Estado da Cultura, da Sociedade Nacional de Belas-Artes, da Valor Sul, da Presidência da República de Angola e das câmaras municipais de Luanda e Lobito, além de coleções privadas em vários países.

Referências

Categoria:Artistas do Canadá Categoria:Artistas de Portugal Categoria:Fotógrafos do Canadá Categoria:Fotógrafos de Portugal Categoria:Pintores do Canadá Categoria:Pintores de Portugal Categoria:Naturais de Montreal