Os anamiritas ou Banu Anamir ibne Cácite () foram uma tribo árabe pertencente ao grande agrupamento dos rebiaítas. Segundo a tradição genealógica, descendiam de Anamir ibne Cácite, cuja linhagem remontava através de Jadila e Açade a Rebia, filho de Nizar ibne Maade ibne Adenane. Eram estreitamente aparentados aos becritas e taglibitas, igualmente descendentes do ramo jadilaíta de Rebia, e mantiveram vínculos particularmente próximos com os últimos ao longo de sua história.
Na segunda metade do , parte dos anamiritas acompanhou os taglibitas em sua migração para a porção oriental da Jazira, posteriormente conhecida como Diar Rebia, enquanto outros permaneceram na Península Arábica, sobretudo em Iamama e Barém. Alguns membros da tribo estabeleceram-se posteriormente no Alandalus, e a maioria permaneceu cristã durante pelo menos dois séculos após o advento do Islã. Antes das conquistas muçulmanas, os anamiritas estiveram, juntamente com os taglibitas, na esfera de influência do Império Sassânida e dos lácmidas de Hira, tendo combatido ao lado dos sassânidas na Batalha de Di Car, por volta de 605.
Durante as Guerras da Apostasia, grupos anamiritas combateram contra o nascente Estado muçulmano, e um dos ramos da tribo foi exterminado por Calide ibne Alualide. Nas primeiras conquistas muçulmanas, cristãos anamiritas combateram tanto contra quanto ao lado dos exércitos muçulmanos, enquanto alguns dos convertidos ao Islã se estabeleceram em Cufa. As divisões internas persistiram durante a Primeira Guerra Civil Muçulmana, quando membros da tribo combateram em ambos os lados na Batalha de Sifim. Posteriormente, os anamiritas conservaram sua antiga associação com os taglibitas e, durante a revolta de Abedalá ibne Azobair, combateram ao lado deles contra os caicitas na Jazira.
Origem e genealogia
Os anamiritas (Banu Anamir ibne Cácite) pertenciam ao grande agrupamento dos rebiaítas, descendente de Rebia ibne Nizar. No esquema genealógico apresentado por Kindermann, Anamir fazia remontar sua descendência a Jadila, filho de Açade ibne Rebia, cuja linhagem remontava, por sua vez, a Nizar ibne Maade ibne Adenane. De Jadila descendiam, em linha direta, Dumi, Afexa, Himbe e Cácite. Cácite foi pai de Anamir, ancestral epônimo dos anamiritas, e de Uail, de quem descendiam Becre e Taglibe, epônimos dos becritas e taglibitas, respectivamente. Assim, na tradição genealógica árabe, os anamiritas constituíam um agrupamento rebiaíta estreitamente aparentado aos descendentes de Uail, embora não integrassem os becritas propriamente ditos; Donner, ao tratar das tribos becritas e de seus vizinhos no nordeste da Arábia, distingue expressamente os anamiritas como uma tribo não becrita. Sua designação tribal, Anamiri, exige, contudo, alguma cautela nas fontes. Nem todo indivíduo identificado como Anamiri pertencia necessariamente aos anamiritas, pois existiam outros agrupamentos chamados Anamir entre os azeditas, cudaaítas e iaditas.
História
A história dos anamiritas esteve estreitamente ligada à dos taglibitas, seus parentes rebiaítas. Quando os taglibitas migraram para a porção oriental da Jazira, região também conhecida como Diar Rebia, na segunda metade do , foram acompanhados por parte dos anamiritas. A migração não envolveu toda a tribo, pois grupos anamiritas continuaram vivendo na Península Arábica, sobretudo em Iamama e Barém, enquanto alguns de seus membros se estabeleceram posteriormente no Alandalus. Na época da conquista muçulmana do Iraque, os anamiritas também ocupavam territórios mais ao norte ao longo do Eufrates. Segundo Fred Donner, as narrativas da conquista indicam que dominavam a região em torno de Hite, situada ao norte das áreas ocupadas pelos xaibanitas. A maior parte da tribo permaneceu cristã durante pelo menos dois séculos após o advento do Islã. Entre as tradições relativas ao período pré-islâmico destaca-se a figura semilendária de , chefe anamirita cujo epíteto, Adaiane, "aquele que se expõe ao sol", teria derivado de seu costume de exercer a função de juiz no início da manhã. Segundo Ibne Alcalbi, a liderança do conjunto dos rebiaítas passava sucessivamente entre suas diferentes tribos e compreendia o comando no campo de batalha, a arbitragem, o direito de nomear o porta-estandarte e a prerrogativa de receber um quarto dos despojos. Quando essa posição passou aos anamiritas, Amir Adaiane a exerceu durante um longo período. Sua morte às mãos de um membro dos abuceus provocou um grave conflito: os anamiritas receberam apenas metade do preço de sangue estipulado e, como mantinham reféns abuceus como garantia do pagamento da parcela restante, mataram-nos. Na guerra intertribal que se seguiu, os anamiritas uniram-se às demais tribos rebiaítas contra os abuceus. O relato de Ibne Alcalbi foi preservado no tratado genealógico al-Inbāh ʿalā qabāʾil al-ruwāt, de Ibne Abede Albarre, ele próprio anamirita. No plano político, os anamiritas, assim como os taglibitas, encontravam-se estreitamente vinculados à esfera de influência do Império Sassânida e dos lácmidas de Hira. Donner inclui-os, juntamente com os iaditas e taglibitas, entre os grupos tribais iraquianos que se encontravam habitualmente sob predominância persa, distinguindo-os de tribos como os tamimitas e taiítas, cujos diferentes segmentos podiam seguir uma política mais independente em relação aos sassânidas. Essa vinculação manifestou-se na Batalha de Di Car, por volta de 605, quando contingentes anamiritas, iaditas e taglibitas integraram o exército sassânida enviado de Hira contra os becritas e seus aliados.
Os anamiritas também reivindicavam vínculos com personagens e grupos importantes da história árabe e islâmica. O indivíduo de maior destaque em suas genealogias era o companheiro de Maomé , embora sua filiação à tribo fosse controversa. Abede Albar defendia enfaticamente essa ascendência e, em seu dicionário biográfico dos companheiros de Maomé, chegou a afirmar que não havia divergência a respeito dela. Lecker observa, porém, que essa posição refletia o favorecimento de Abede Albar por sua própria tribo e que a alegação da origem árabe de Suaibe contrastava com uma conhecida tradição atribuída a Maomé, segundo a qual Suaibe seria o primeiro bizantino a entrar no Paraíso, ao lado do próprio Maomé como primeiro árabe, Salmane, o Persa como primeiro persa e Bilal ibne Rabá como primeiro etíope. Apesar da controvérsia, Suaibe aparece invariavelmente nas genealogias dos anamiritas. , figura proeminente do início do período islâmico e suposto parente de Suaibe, aparece apenas em algumas delas. Capturado durante as conquistas em Aine Atanre, Hunrane é descrito como sendo de origem judaica, e Lecker considera duvidosa sua alegada origem árabe, observando que a reivindicação de sua descendência anamirita surgiu entre seus próprios descendentes e que tradições familiares também estavam por trás da atribuição de origem árabe a Suaibe. Um vínculo pré-islâmico com os coraixitas era estabelecido através da mãe de Alabás, tio de Maomé, que pertencia à tribo e, segundo a tradição, teria sido a primeira mulher árabe a fornecer uma cobertura para a Caaba, em cumprimento de um voto feito quando Alabás desapareceu ainda criança. Ma Açama, mãe do rei lácmida , era anamirita e havia sido capturada numa incursão realizada pelo pai do soberano; os genealogistas registraram ainda que Almondir possuía um meio-irmão entre os anamiritas.
Durante as Guerras da Apostasia, anamiritas estiveram entre as tropas provenientes da Jazira que acompanharam Sajá, a profetisa dos tamimitas. Um ramo inteiro da tribo, os Banu Auce Manate, foi exterminado por Calide ibne Alualide durante esses conflitos. Nas primeiras conquistas muçulmanas, as divisões políticas e religiosas entre os anamiritas tornaram-se particularmente evidentes. Em Aine Atanre, um chefe anamirita comandou uma grande força composta por cristãos anamiritas, taglibitas, iaditas e outros grupos, que foi derrotada por Calide. Posteriormente, outros cristãos anamiritas combateram no lado muçulmano, sob Almutana ibne Harita, contra os sassânidas na , nas proximidades de Hira. Alguns dos membros da tribo que se converteram ao Islã durante as conquistas estabeleceram-se em Cufa juntamente com taglibitas e iaditas. Em Ticrite, membros dessas mesmas três tribos que serviam como auxiliares dos sassânidas teriam entregado a cidade aos sitiantes muçulmanos. As divisões entre os anamiritas continuaram durante a Primeira Guerra Civil Muçulmana. Na Batalha de Sifim, membros da tribo combateram tanto ao lado de Ali quanto de , circunstância que Lecker relaciona provavelmente à divisão da Jazira, então principal região de residência dos anamiritas, entre as áreas controladas pelos dois adversários. A antiga associação entre anamiritas e taglibitas também sobreviveu às conquistas: durante a revolta de Abedalá ibne Azobair, as duas tribos combateram juntas em várias batalhas travadas na Jazira contra os caicitas.
Bibliografia
Categoria:Anamiritas