Marie Louise da Câmara Nery (Berna, 31 de maio de 1924 – Berna, 11 de maio de 2020) foi uma artista plástica, cenógrafa, figurinista e professora suíça, naturalizada brasileira, considerada a primeira carnavalesca mulher da história do carnaval carioca.
Na Suíça, conheceu e se apaixonou pelo cenógrafo pernambucano Dirceu da Câmara Nery. Os dois se casaram e se mudaram para o Rio de Janeiro. Marie foi jurada do carnaval carioca de 1958 e, no mesmo ano, foi convidada para fazer o desfile do Salgueiro do ano seguinte. Junto com o marido, assinou o histórico enredo "Viagem Pitoresca Através do Brasil - Debret", que marcou a chegada de artistas acadêmicos ao carnaval, mudando a estética e a narrativa dos desfiles, movimento que ficou conhecido como "Revolução Salgueirense". Também desenhou figurinos para a Portela. Seu último desfile foi no Salgueiro, em 1968. Com a morte repentina de seu marido, em 1967, decidiu abandonar a carreira no carnaval.
Trabalhou como figurinista, aderecista e cenógrafa no teatro, cinema e televisão com destaque para as peças infantis do Teatro O Tablado; o filme Orfeu Negro (1959), vencedor do Oscar de melhor filme internacional de 1960; e a primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo. Foi professora da Escola de Belas Artes da UFRJ e da Escola de Teatro da Unirio. É vencedora de prêmios importantes como o Saci e o Molière. Nos últimos anos de vida, passou a viver com o único filho, Frederico Nery, na Suíça. Morreu de COVID-19, aos 95 anos de idade, no dia 11 de maio de 2020.
Biografia Filha de Marie Fol e de Frederic Charles Fol, Marie Louise nasceu em 31 de maio de 1924 em Berna, capital da Suíça. Cresceu e foi educada sob os rígidos preceitos e costumes de uma família protestante, mas se considerava a "ovelha negra" da família por seguir a carreira artística, o que desagradava seus familiares. Frequentou a Escola Técnica de Ofícios e a Escola de Belas Artes Utilitárias, em Berna. Na década de 1950, durante uma exposição no Museu Etnográfico de Neuchatel, conheceu o cenógrafo pernambucano Dirceu da Câmara Nery, que executava a exposição "Bumba-Meu-Boi" para a Mostra de Arte Brasileira do museu. Os dois se apaixonaram e em pouco tempo se casaram. Em junho de 1957, Marie Louise se mudou para o Rio de Janeiro com Dirceu. Foram morar na Travessa Santa Leocádia, em Copacabana. O casal logo começou a participar ativamente da vida cultural do Rio. Com Dirceu, teve seu único filho, Frederico Nery. Foi jurada do carnaval carioca de 1958. No mesmo ano, foi convidada pelo então presidente do Salgueiro, Nelson de Andrade, para fazer o carnaval da escola no ano seguinte, junto com seu marido, Dirceu. O casal aceitou o convite e escolheu fazer um enredo baseado no álbum iconográfico Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, do pintor francês Jean-Baptiste Debret. Naquela época, as escolas de samba não tinham barracão para fazer as fantasias. Marie Louise subia o Morro do Salgueiro para instruir como as costureiras e aderecistas fariam a confecção das fantasias. O Salgueiro foi a primeira escola a se apresentar na Avenida Rio Branco no carnaval de 1959. A escola desfilou sem alegorias (na época não era quesito). Grupos de componentes reproduziram as pinturas de Debret que retratavam o cotidiano do Rio de Janeiro no início do século XIX, época em que o pintor integrava a Missão Artística Francesa no Brasil. Especialistas elogiaram o desfile, mas apontaram favoritismo da Portela. Confirmando a expectativa, a Portela foi campeã do carnaval com um ponto de vantagem sobre o Salgueiro, que foi vice-campeão, conquistando o melhor resultado de sua história até então. O desfile marcou a chegada de artistas acadêmicos ao carnaval, mudando a estética e a narrativa dos desfiles, movimento que ficou conhecido como "Revolução Salgueirense" e contou com a participação de outros artistas como Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. No carnaval de 1960, desenhou os figurinos para o desfile da Portela, que sagrou-se campeã. No carnaval de 1961, voltou a desenhar os figurinos do Salgueiro. Com um desfile sobre o escultor mineiro Aleijadinho, o Salgueiro conquistou mais um vice-campeonato. Em 1962, Nelson de Andrade assumiu a presidência da Portela e levou Marie Louise para desenhar os figurinos da escola, função que ela exerceu até o final de sua gestão, em 1966. Em 1967, retornou ao Salgueiro a convite do carnavalesco Fernando Pamplona, para desenhar os figurinos do enredo "Dona Beja, a Feiticeira de Araxá" para o carnaval de 1968. Ainda em 1967, passou pelo trauma da morte repentina de seu marido, Dirceu Nery, falecido aos 47 anos de idade. Sem o marido, decidiu abandonar definitivamente o carnaval.
Passou a fazer figurinos para teatro, cinema e televisão, e tornou-se professora da Escola de Belas Artes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da Escola de Teatro da Unirio. Deu aulas de artes plásticas e indumentária, tendo como alunas as carnavalescas Maria Augusta e Rosa Magalhães e a figurinista Beth Filipeck. Como figurinista, aderecista e cenógrafa, assinou diversos espetáculos de teatro, ópera e balé, entre os quais destacam-se as peças infantis do Teatro O Tablado, de Maria Clara Machado; Todomundo (1959), dirigido por Bárbara Heliodora; Os Ciúmes de Um Pedestre ou O Terrível Capitão do Mato, de Martins Pena, e O Velho Ciumento, de Miguel de Cervantes, traduzido por Millôr Fernandes, ambos dirigidos por Gianni Ratto (1961); a ópera Il Dibuk, de Lodovico Rocca, também sob a direção de Gianni; Mirandolina (1964), da Cia. Teatro dos Sete; Chiquinha Gonzaga (1974), de Elza Osborne e Carlos Paiva, com direção de Pernambuco de Oliveira; Meu Reino por Um Cavalo (1989), de Dias Gomes, com direção de Antonio Mercado; e O Sorriso ao Pé da Escada (1996), de Henry Miller, com adaptação de Sidney Cruz e direção de Mônica Alvarenga. No cinema, criou figurinos para os filmes Os Selvagens (1964), de Franz Eichhorn e Eugenio Martín; As Duas Faces da Moeda (1969), de Domingos de Oliveira; e Le Grabuge (1968), de Édouard Luntz. Também trabalhou na confecção de cenários de Orfeu Negro (1959), filme ítalo-franco-brasileiro, dirigido por Marcel Camus, vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro; e A Dança das Bruxas (1970), de Francisco Dreux. Aparece em uma das cenas do filme Edu, Coração de Ouro (1968), de Domingos de Oliveira.
Na TV, criou cerca de 150 figurinos de bichos para a primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, entre 1977 e 1986, uma co-produção da TV Globo com a TV Educativa. Em 1962 e 1963, participou de exposições no Museu de Arte Moderna de Belo Horizonte com trabalhos de pintura e tapeçaria e, no ano de 1994, apresentou máscaras afro-brasileiras no Galpão das Artes do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Ilustrou livros infantis de autores como Maria Clara Machado, Vinicius de Moraes, Lygia Bojunga Nunes, Manuel Bandeira e Cecília Meireles. No carnaval de 2003 desfilou numa alegoria do Salgueiro no desfile em homenagem aos cinquenta anos da escola. No mesmo ano lançou o livro A Evolução da Indumentária: Subsídios para Criação de Figurino. Os desenhos dos figurinos criados por Marie Louise ao longo de sua carreira integram parte do acervo do Projeto Brasil Memória das Artes, da Funarte. Em 2014 foi a grande homenageada do Prêmio Shell de Teatro. Nos últimos anos de vida, passou a viver com o filho na Suíça. Marie Louise Nery morreu no dia 11 de maio de 2020, aos 95 anos de idade, vítima de complicações da COVID-19. Foi enterrada no Cemitério Municipal de Morges, com vista para o Lago de Genebra. O Salgueiro divulgou nota lamentando a morte da carnavalesca, ressaltando que ela "é considerada pioneira no ofício de carnavalesca e a autora do primeiro capítulo da Revolução Salgueirense".
Prêmios e homenagens
1961 - Prêmio de Melhor Figurinista do Círculo Independente de Críticos Teatrais (CICT). 1961 - Prêmio Saci pelos figurinos realizados para a Cia. do Teatro dos Sete, no Festival de Comédias. 1961 - Prêmio de Melhor Figurinista da Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT). 1963 - Prêmio de Melhor Figurinista Nacional na VII Bienal de São Paulo. 1964 - Prêmio Molière pela realização dos figurinos de "Mirandolina" encenada pela Cia. do Teatro dos Sete. 1964 - Prêmio de Melhor Figurinista do Círculo Independente de Críticos Teatrais (CICT). 2007 - Homenagem especial no Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude – CBTIJ e SESC Rio. 2008 - Homenagem especial no Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil. 2014 - Homenagem especial no Prêmio Shell. Ver também Carnavalescos campeões do carnaval do Rio de Janeiro Escolas de samba campeãs do carnaval do Rio de Janeiro Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro Escola de samba Carnaval no Brasil Carnaval do Rio de Janeiro Lista de livros sobre o carnaval do Brasil
Bibliografia
Categoria:Carnavalescos do estado do Rio de Janeiro Categoria:Carnavalescos do Acadêmicos do Salgueiro Categoria:Artistas plásticas do Brasil Categoria:Naturais de Berna