miniaturadaimagem| Daniel Defoe in the Pillory (Eyre Crowe, 1862) miniaturadaimagem| Titus Oates, perjuro do século XVII, na berlinda A berlinda ou picota (; mais arcaicamente também berlina, a partir do italiano) é geralmente um dispositivo feito de uma estrutura de madeira ou metal erguida sobre um poste, com orifícios para prender a cabeça e as mãos, usado durante os períodos medieval e renascentista para punição por humilhação pública e muitas vezes por abuso físico adicional. A berlinda está relacionada com o instrumento de tortura chamado tronco.
A berlinda também pode se referir a outros tipos de estruturas (porém com a mesma função de exposição de condenados) ou mesmo ao local dessa punição. No espaço onde localizava a berlinda, simbolicamente ocorria a morte social do criminoso, em um ritual de degradação. Em muitos casos, essa degradação era uma pena aplicada a crimes mais leves. Na Europa Central, a berlinda tinha tamanha associação com a infâmia que as pessoas evitavam tocá-la e havia até mesmo rituais específicos para erigi-las sem se tornar impuro.
Etimologia A palavra pillory está documentada em inglês desde 1274 (atestada em anglo-latim por volta de c. 1189), e deriva do francês antigo pellori (1168; francês moderno pilori (ver abaixo), derivado do latim medieval pilloria, de origem incerta, talvez um diminutivo do latim pila, "pilar, barreira de pedra". Apesar de mesma raiz, não se confunde, nem se restringe apenas a um pelourinho ou mero pilar de açoite, apesar de, na forma mais simples de berlinda, o condenado ser acorrentado a alguma estrutura onde permanecia exposto. Não há formas diretas em outros idiomas que correspondam ao pillory inglês: no alemão, é Pranger; em holandês, kaak; em dinamarquês, gabestok; em espanhol, picota; no italiano berlina (além de gogna), dentre outras línguas. Também podia ser referido em latim, nas obras medievais, como cippus, palus infamis e columna infamiae, e em francês antigo como pilori e pellori, com as fontes mais antigas para esses usos sendo dos séculos XII e XIII.
O significado único dessa palavra inglesa, de uma tábua prendendo o pescoço e com buracos para as duas mãos, foi proposto pela Enciclopédia Britânica como equivalendo ao latim collistrigium (do latim collium strigens, prender o pescoço), e também já foi afirmado que se derivaria talvez do francês Pilleur (ladrão) ou do grego pyle (porta) + horao (olhar), pois o prisioneiro se assemelha a como se colocasse a cabeça por entre uma porta.
Uma outra proposta de origem é do provençal esplitori, do qual teria surgido a forma francesa pilori, com o significado original provavelmente de "janela" ou postigo, em ironia ou humor de que aquele confinado na madeira parece alguém com a cabeça olhando para fora de uma janela. Também para "pequena janela" se encontra no catalão espittlera, bem como o latim specularia (ver também associação com speculatorium, local de observação).
A expressão "ser posto na berlinda" encontra-se também no espanhol (estar en berlina) e deriva-se do italiano mettere alla berlina, significando expor alguém ao escárnio público. Houve quem associasse berlinda com a condução de mesmo nome, especulando que as pessoas punidas eram postas, na Idade Média, em carros para exposição pública. Assim afirma, por exemplo, o Dizionario Etimologico Italia (1951). Para Joan Corominas, berlina, no italiano, derivaria do alto-alemão médio bretling, um diminutivo do alemão Brett (tábua, prancha de madeira).
De acordo com o lexicógrafo Antonio Martínez del Romero, não há nenhuma associação com aquela carruagem de origem berlinense: no contexto italiano, a primeira acepção para berlina é forense, referindo-se ao castigo público aos malfeitores, em um local também chamado "berlina", equivalente à picota, um rollo de madeira ou um patíbulo de pedra presente na entrada de localidades, onde os condenados colocavam suas cabeças para serem humilhados. Em um registro de escrivão por Monterroso y Aluarado (século XVI), encontra-se a ocorrência: "Que seja levado pelas vias públicas costumeiras, ao rollo ou picota, e ali seja enforcado pelo pescoço, com os pés altos do solo, até que naturalmente morra".
Conforme Du Cange, encontra-se um uso antigo da palavra berlina nos Estatutos de Mântua (séculos XIV-XV):Ferreira, Pedro Augusto (1907). Tentativa etymologico-toponymica. Porto: Typographia Pereira. Baseando-se no verbete "Rotundare". In: Du Cange et al. (1883-1887). Glossarium mediæ et infimæ latinitatis. Niort: L. Favre, 1883-1887., que cita Stat. Mantuæ lib. 1. cap. 152. ex Cod. reg. 4620.
Condemnetur (concubina)... ut tonsis crinibus stare debeat per totam illam diem ad berlinam, et in mane sequenti, usque ad nates pannis rotundatis, fustigari debeat per plateas communis Mantuae.
"A concubina seja condenada à seguinte pena: — que, depois de lhe cortarem o cabelo, esteja na berlinda um dia inteiro e na manhã do dia seguinte, vestida apenas com panos redondos (saias) até ás nádegas, seja açoutada pelas ruas publicas da cidade de Mântua."
Em 1606, Ben Jonson, na sua peça Volpone, afirma que a palavra berlina que por ele usada é equivalente ao pillory devido ao quesito da humilhação pública, justificando como tradução suficientemente adequada.
Aqui, no italiano, berlina se derivou do pilori francês, pois a palavra inicialmente se manifesta como pilorina. O pilori francês, como aparato para exposição de condenados à morte, também já recebeu a etimologia sugerida Puits Lori (Poço de Lori), uma localidade de alguém chamado Lori que era situada em Paris próximo àquele primeiro aparato. Em Aragão, pellerich era o nome dado a uma argola que prendia o pescoço ao pelourinho ou patíbulo, mantendo os réus expostos.
Segundo Jaime Lopes Dias, as gaiolas para exposição de condenados também se relacionam com o pilori no Francês e corresponde às formas mais antigas de pelourinho em Portugal (representados, por exemplo, no Livro das Fortalezas), pois eles tinham uma gaiola elevada na parte superior. esquerda|miniaturadaimagem|Gaiola-berlinda alemã (Schubstuhl ou Schandkorb) José Pedro Machado defendeu que a belinda ou picota se refere ao poste de madeira onde se prendiam as cabeças para humilhação pública; porém há outros como Sérgio Luís de Carvalho e António Cabral que contextualizam envolver referência à punição no jogo da berlinda.
Golilha (palavra que também pode se referir à gaiola do pelourinho) também já se associou ao léxico. António Vieira Transtagano, no século XVIII, definiu pillory como "uma espécie de golilha em que prendem pelo pescoço e pelas mãos a um criminoso, o qual fica neste estado exposto aos insultos do vulgo que lhe atira a cara com lama, cascas e outras imundícias". Golilha era um tipo de castigo feito pelos portugueses, envolvendo um garrote em torno do pescoço e de uma estaca, que vigorou até 1830. Houve ocorrência de a palavra golilha aparecer em dicionários como uma tradução direta para pillory.
Quanto à canga asiática, muito similar, os primeiros cronistas portugueses chamavam-na de "colar" e "tábua", e no inglês já foi vertida como um tipo de pillory.
Descrição miniaturadaimagem|Berlinda-torre em Cracóvia, em cuja gaiola elevada, de delimitação hexagonal, permanecia exposto o criminoso. Semelhante à punição menor chamada tronco, a berlinda inglesa consistia em tábuas de madeira articuladas que formavam orifícios pelos quais a cabeça ou vários membros eram inseridos; em seguida, as tábuas eram travadas para prender o prisioneiro. Berlindas eram erguidas para prender pessoas em mercados, encruzilhadas e outros locais públicos.
Aqueles que se reuniam para assistir à punição geralmente queriam (e eram até encorajados a) tornar a experiência do infrator a mais desagradável possível. Além de ser vaiado e zombado, o criminoso pode ser atingido por comida podre, lama, vísceras, animais mortos e excrementos de animais. Às vezes, as pessoas eram mortas ou mutiladas na berlinda porque as multidões podiam ficar muito violentas e atirar pedras, tijolos e outros objetos perigosos ao infrator. No entanto, quando Daniel Defoe foi condenado à berlinda em 1703 por difamação sediciosa, ele foi considerado um herói pela multidão e foi apedrejado com flores.
Dentre outras formas de berlinda, Achim Timmermann aponta para as berlindas arquiteturais, que tinham requinte estético, e classifica a presença delas a partir da Baixa Idade Média em duas categorias: a berlinda em pináculo ou coluna era o tipo mais comum, amplamente difundido por toda a Europa e abrange os pelourinhos e picotas da Península Ibérica. Já a berlinda-torre (referida em alemão como Turmpranger) era encontrada principalmente na Europa Central (incluindo-se registros na Silésia, Morávia, França, Países Baixos, Valônia) e nela se elevava um espaço onde o condenado deveria ficar ao relento (alguns, à semelhança dos estilitas). Há berlindas sobreviventes desse tipo que exibem gaiolas ornamentadas. Durante o espetáculo de punição, esse tipo de berlinda também podia ser investido de função litúrgica.
Em algumas torres, também se podiam encontrar, ao alto, uma trave circular com furos, como uma berlinda para exposição coletiva.
Berlindas de gaiola ou cesto pendente podiam ser chamadas na Alemanha de schandkorb ("cesto da vergonha") e na Bélgica uma punição similar à berlinda era o mandzitten, em que a pessoa ficava exposta a sol e chuva sobre um cesto.
Usos O uso da berlinda foi restringido na Inglaterra pela Lei de Abolição da Berlinda de 1816 (56 Geo. 3. c. 138) para punição por perjúrio ou suborno. A berlinda como pena foi abolida na Inglaterra e País de Gales pela Lei de Abolição da Berlinda de 1837 (7 Will. 4 & 1 Vict. c. 23),An Act to abolish the Punishment of the Pillory – 30 June 1837 depois que Lord John Russell disse: "Eu também irei propor trazer um projeto de lei para abolir a punição da berlinda - uma punição que nunca é infligida". No entanto, os troncos permaneceram em uso, embora extremamente raro, até 1872. A última pessoa a ser posta na berlinda (pilloried) na Inglaterra foi Peter James Bossy, que foi condenado por "perjúrio voluntário e corrupto", na oyer and terminer do Old Bailey em 1830. Ele foi condenado a sete anos de desterro penal para A Terra de Van Diemen, seis meses de prisão em Newgate e uma hora na berlinda no Old Bailey.
Na França, o tempo nos pilori "geralmente era limitado a duas horas". Foi substituído em 1789 por "exposição" e abolido em 1832. Foram utilizados dois tipos de dispositivos:
O (literalmente: "poste" ou "vara") era um poste simples, geralmente com uma tábua em volta apenas do pescoço, e era sinônimo do método de punição. Isso era o mesmo que o ("poste da vergonha") em holandês. O , um anel de ferro em volta do pescoço para amarrar um prisioneiro a um poste, era o nome de uma punição semelhante que foi abolida em 1832. Um criminoso condenado a cumprir pena em uma prisão ou nas galeras seria, antes de seu encarceramento, amarrado por duas a seis horas (dependendo se a condenação fosse para prisão ou para as galeras) à , com seu nome, crime e sentença escritos em uma placa acima de sua cabeça. Uma pequena torre permanente, cujo andar superior possuía um anel de madeira ou ferro com orifícios para a cabeça e os braços da vítima, que frequentemente ficava sobre uma plataforma giratória para expor o condenado a toda a multidão.
A berlinda também era de uso comum em outros países e colônias ocidentais, e dispositivos semelhantes eram utilizados em outras culturas não ocidentais. De acordo com uma fonte, a berlinda foi abolida como forma de punição nos Estados Unidos em 1839, mas isso não pode ser totalmente verdade porque estava claramente em uso em Delaware até recentemente em 1901. O governador Preston Lea finalmente assinou um projeto de lei para abolir a berlinda em Delaware em março de 1905.Spokesman-Review (Spokane, Wash.). "Has Abolished The Pillory" . 22 March 1905, p. 6. Retrieved on 2 October 2013.