Julio Cesar Bentivoglio é um historiador, tradutor e pesquisador brasileiro, reconhecido por sua contribuição à Teoria da História, à História da Historiografia e ao estudo dos povos indígenas no Espírito Santo. Atualmente, ocupa o cargo de Professor Titular no Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES),LOCATEL, Luiza Santana. Uma vida escrita em teoria: trajetória do Prof. Dr. Julio Bentivoglio. In: PEREIRA, Luiz Fernando Soares; SANTOS, Rafael Kiefer Teixeira dos; AMARAL, Weverton Bragança do (org.). Perspectivas históricas: biografias, intelectuais e política: I Jornada de Pesquisa LETHIS. Vitória: Antíteses, 2025. p. 8-22. onde atua na graduação e no Programa de Pós-Graduação em História (PPGHis).
Biografia e formação acadêmica Nascido em Rifaina, no interior de São Paulo, Bentivoglio cresceu em Franca, em uma família de origens humildes ligada à construção civil.BENTIVOGLIO, Julio Cesar. Memorial acadêmico para promoção ao nível E – Professor Titular – da carreira do Magistério Superior. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, Departamento de História, 2024. Disponível em: <https://lethis.ufes.br/sites/lethis.ufes.br/files/field/anexo/3_-_memorial_-_progressao_-_julio_bentivoglio.pdf> Sua trajetória acadêmica iniciou-se na UNESP-Franca, onde se graduou em História em 1993 e concluiu seu mestrado em 1997, defendendo a dissertação intitulada Os dois corpos da cidade: a formação do espaço urbano de Franca no século XIX. Em 2002, obteve o título de Doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) com a tese O império das circunstâncias: o Código Comercial e a política econômica no Segundo Reinado (1840-1860), focada no Código Comercial de 1850. Posteriormente, em 2014, realizou estágio pós-doutoral na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) sobre a Clube da Joana no Segundo Reinado.
Projeto Povos Indígenas do Espírito Santo O projeto Povos Indígenas do Espírito Santo é uma iniciativa sistemática e pioneira dedicada ao estudo da arqueologia, história, línguas e cultura das etnias originárias que habitaram o território capixaba. O projeto é resultado de pesquisas iniciadas por Bentivoglio em 2010 e consolidadas através de financiamento da Fapes (Edital Universal n.28/2023).
Desde então, foram lançados 13 volumes que abrangem diversas etnias, incluindo os Puri, Guarani, Tupinikim (ou Tupiniquim), Pataxó, Goitacá, Krenak, Borum, Guerém, Temiminó, Maxakali, Botocudo, Coroado e Tupinabá. Além dos volumes específicos por etnia, o projeto publicou obras de síntese sobre os Povos Indígenas do Espírito Santo em diversos idiomas (português, italiano, inglês, francês, espanhol e alemão).
Cada um desses trabalhos reúne ensaios originais, traduções de registros históricos e relatos etnográficos, buscando oferecer uma imersão cultural e antropológica sobre a ancestralidade da região
Contribuições para o pensamento sobre utopia e distopia Julio Bentivoglio é considerado um dos principais pesquisadores brasileiros a articular as relações entre a Teoria da História e as narrativas utópicas e distópicas contemporâneas. Sua obra central nessa área, História & Distopia: a imaginação histórica no alvorecer do século 21, analisa como a investigação do passado e os modos de narrar a história sofreram mudanças profundas ao longo do século XX e início do XXI.PEIXOTO, Fabrício Ribeiro. A distopia do tempo presente na história, na ficção e no ensino de história. In: MARQUES, Rita de Cássia (org.). Anais do 33º Simpósio Nacional de História [livro eletrônico]: os (des)confortos da história e os futuros do ensino de história. Belo Horizonte: Associação Nacional de História, 2025. v. 1.
Bentivoglio defende a tese de que vivemos a transição de uma "imaginação histórica utópica", típica da Modernidade Clássica e baseada no ideal de progresso e perfectibilidade, para uma nova consciência histórica de caráter pós-moderno e distópica. Segundo o autor, enquanto as utopias modernas (como as de Thomas Morus ou Tommaso Campanella) projetavam sociedades perfeitas no futuro para criticar o presente, as distopias contemporâneas geralmente se localizam em um "lugar em deslocamento" que pode habitar qualquer tempo, inclusive o passado e o presente.
Para Bentivoglio, o próprio conhecimento histórico se fixou no Ocidente como uma "utopia cientificista": a crença de que seria possível encontrar o passado como um lugar fixo e recuperar verdades absolutas por meio do método científico. No entanto, os traumas do século XX e a fragmentação pós-moderna teriam levado à falência esse projeto, dando lugar a múltiplas leituras do passado, muitas vezes conflitantes e incertas.
Carreira docente e atuação institucional Bentivoglio iniciou sua carreira no magistério superior em 2003 na Universidade Federal de Goiás (UFG), no campus de Catalão. Em 2008, ingressou na UFES, instituição onde foi responsável pela consolidação da área de Teoria da História e pela criação do Laboratório de Estudos em Teoria da História e História da Historiografia (LETHIS) em 2013. Em 3 de agosto de 2024, foi promovido ao nível de Professor Titular.
Ao longo de sua trajetória na UFES foi coordenador do programa de pós-graduação. Na esfera científica nacional, presidiu o conselho científico da Sociedade Brasileira de Teoria da História e História da Historiografia (SBTHH) entre 2022 e 2024 e é membro da Associação Nacional de História (ANPUH).
Pesquisa e produção intelectual Sua produção acadêmica destaca-se em quatro eixos principais:
Historiografia Alemã: Realizou um trabalho sistemático de tradução e apresentação de autores clássicos alemães do século XIX, como, Wilhelm von Humboldt, Georg Gottfried Gervinus, Leopold von Ranke e Ernst Bernheim. Teoria e Distopia: É autor de obras como História & Distopia e História & Literatura, além de pesquisar o impacto do pensamento pós-moderno e das distopias na consciência histórica contemporânea. História Indígena: Desde 2014, coordena a coleção editorial "História dos Povos Indígenas no Espírito Santo", que em 2026 atingiu seu 13º volume com a publicação de Os Tupinambá.BENTIVOGLIO, JULIO. Os Tupinambá. 1. ed. Serra: Milfontes, 2026. v. 1. 262p. Brasil Império: Dedicou grande parte de sua carreira ao estudo da política e economia do século XIX.
Prêmios e honrarias Em reconhecimento à sua contribuição aos estudos históricos e sociais no estado do Espírito Santo, Julio Bentivoglio recebeu em 2014 a Comenda Domingos Martins, além do título de Cidadão Espírito-santense. Na área literária, foi contemplado no edital da Lei Aldir Blanc de Vila Velha pelo romance infantojuvenil A Pedra do Trovão: a lenda do tesouro perdido dos jesuítas.
Algumas obras 1997 Igreja e Urbanização em Franca: Século XIX (Serie Historia Local). 2010 Fundamentos de teoria da história. 2013 A Constituição da História como Ciência: De Ranke a Braudel. 2016 Afirmação da história como ciência no século XX: De Arlette Farge a Robert Mandrou. 2019 Os Guarani. 2020 Distopia, Literatura & História. 2020 A religião da História: As raízes teológicas da moderna ciência histórica. 2020 As Revistas de História: e as Dinâmicas do Campo Historiográfico. 2020 Escrever História: Historiadores e historiografia brasileira nos séculos XIX e XX. 2020 História dos povos indígenas no Espírito Santo. Volume 1: os Puri. 2020 História dos Povos Indígenas no Espírito Santo. Volume 2: os Tupiniquim. 2020 História dos povos indígenas no Espírito Santo. Volume 3: os Guarani. 2020 História dos povos indígenas no Espírito Santo. Volume 4: os Krenak. 2021 Hayden White: cuarenta años de Metahistoria: Del pasado histórico al pasado práctico. 2025 History & Dystopia: Historical imagination at the dawn of the 21st century. ISBN 979-8999019103. 2025 Tempos Históricos - Os Múltiplos Tempos dos Historiadores.
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