A Igreja de Nossa Senhora da Encarnação ou Igreja Paroquial da Ameixoeira, é um templo de características barrocas e pombalinas erigido no centro da Ameixoeira, em Lisboa.

História

Origens A ocupação ancestral do território é atestada pelo achado, em 1719, de uma concavidade com ossadas humanas na Várzea, na zona do Olival do Morgado / Quinta do Outeiro, seguindo-se em 1720 a descoberta de uma epígrafe romana noutro olival administrado por António Sanches de Noronha. A influência islâmica perpetuou-se em dois poços, um no largo superior e outro lavrado em pedra conhecido por poço do Álamo, bem como em inúmeros silos subterrâneos para recolha de frutos designados como Covas. Até a toponímia deriva de um arabismo: Ameixoeira, anteriormente Ameyjoeira ou Mexoeira, derivará de Amixo, "nome de hum mouro, que habitava nelle".

Em 1267, em pleno reinado de D. Dinis, os Portugueses edificaram a ermida de Nossa Senhora do Funchal, possivelmente sobre alicerces do século VII, para albergar uma "soberana imagem" da Virgem descoberta entre funcheiras ou sob uma oliveira por populares. Este modesto templo dispunha de capelão, missa diária e da Confraria da Nossa Senhora da Encarnação do Funchal.

A igreja quinhentista Os Templários, instalados desde 1098 na zona, construíram em 1504 uma albergaria (referido como "hum hospital de peregrinos"), que transitou para a Ordem de Cristo. Um incêndio consumiu o primitivo templo, motivando a edificação de uma nova capela em 1500. Subordinados à freguesia de São João Baptista do Lumiar e às abadessas de Odivelas, os habitantes locais pediram a desanexação, conseguindo um breve papal em 1535 para possuírem pia baptismal e sacramentos ministrados pelo capelão. A 6 de Junho de 1536 formalizou-se a criação da paróquia da Ameixoeira, originando em 1540 um dos mais antigos registos paroquiais do concelho de Lisboa. O processo concluiu-se após um breve de 1539 promulgado pelo Cardeal D. Henrique, e pela bula do Papa Paulo III de 4 de Abril de 1541, efectivada a 16 de Outubro, que exigia a entrega anual de um círio ou 200 réis ao Lumiar no dia de São João Baptista. Um documento setecentista descreve assim estes episódios:Antigamente [esta igreja] era anexa à freguesia de São João do Lumiar, que é da apresentação das Abadessas de Odivelas (...). Não se deram por satisfeitos os moradores da Ameixoeira, de que a igreja que eles haviam reedificado fôsse anexa e subordinada à de São João do Lumiar: e assim alcançaram da Sé Apostólica um Breve (que guardam no seu arquivo), por onde fazia isenta aquela igreja da sujeição da do Lumiar; concedendo-lhe o privilégio de apresentarem o Pároco, que é o cura daquela igreja; porque não só a expensas próprias levantaram a igreja, mas a fabricaram de tudo o que lhe é necessário, e pagam ao Cura, e acodem a tudo o mais do culto e serviço da SenhoraEntre 1559 e finais do século XVI, a integrava a igreja a capela do Senhor Jesus Crucificado (fundada pelo comendador Tomás de Barros sob administração de Junípero da Cunha d'Eça da Costa mediante o foro de um pote de azeite e 2500 réis), o lavabo da sacristia encomendado pelo cura Sebastião Ribeiro em 1561, e um sino financiado por Simão Ferreira em 1569 por 12 000 réis. O Arcebispo D. Jorge rubricou um novo compromisso com a irmandade em 1573. Cerca de uma década depois, regista-se a mudança de nome da igreja para o seu nome actual, Nossa Senhora da Encarnação, fundando Manoel Vieira da Maia a capela do Santíssimo Sacramento em 1589.

Campanhas dos séculos XVII e XVIII O Papa Gregório XV concedeu indulgências perpétuas ao templo em 22 de Março de 1621. Em 1664, por alvará do rei D. Afonso VI, iniciaram-se reedificações na estrutura sob direcção da chancelaria-mor. Por autorização do regente D. Pedro (futuro rei D. Pedro II) em 1681, encetaram-se obras maiores concretizadas entre 1682 e 1685, suportadas pelo monarca e por D. Miguel de Portugal, sétimo Conde de Vimioso. Para expandir o adro e a capela-mor, o governador confirmou em 1682 a doação de terrenos pela casa de Vimioso, tendo o conde financiado os trabalhos da tribuna, executados por um entalhador, e do dourador, além de uma porta exterior de pedra vermelha. Na transição para a década de 1690, procedeu-se à aquisição do retábulo-mor, dos azulejos da nave e de madeira de Cascais para o entalhador Manuel Álvares revestir as paredes. A Irmandade do Santíssimo Sacramento adjudicou em 24 de Novembro de 1697 o douramento e pintura do tecto a José de Sousa de Figueiredo, em parceria com António da Cunha Cidrão e João Carvalho, prosseguindo-se em 1702 com ornamentações em brutesco por António da Serra, Caetano de Almeida, Manuel do Monte e Manuel Dias.

A cronologia adentra o século XVIII com novos arranjos nos telhados, no óculo da empena, nos tectos e nos azulejos. Em 1726, Manuel Dias esculpiu a imagem de Santo António, registando-se no mesmo período o reinício da Irmandade das Almas. Uma extensa empreitada em 1734 consolidou os pegões do flanco Poente, elevou o adro e integrou balaustradas, grelhas de ferro nas janelas, uma cruz e azulejos junto ao púlpito por intervenção de Elias José da Costa, dotando-se as torres com sinos em 1750.

O sismo de 1 de Novembro de 1755 provocou a ruína da fachada principal e fendas generalizadas, registando-se na época a existência de cinco altares e das capelas colaterais da Piedade e do Crucificado. O clérigo José Nunes Vieira financiou o restauro concluído em 1760, ano epigrafado no portal. Em 1766, realizaram-se obras na sacristia, procedeu-se à transição da pia baptismal e à demolição de uma das torres.

Do século XIX à actualidade Como nota histórica, regista-se que no decurso das invasões napoleónicas, na manhã de 4 de Julho de 1808, soldados de Pierre Margaron fuzilaram na estrada de Alcoentre romeiros do Círio da Ameixoeira e confiscaram os seus pendões.

Quanto à igreja, entretanto promoveu-se a construção do cemitério em 1818, relatando-se José António Morais Sarmento como o último homem sepultado no interior do templo. O rei D. Miguel I fundiu irmandades em 15 de Setembro de 1831, operando ainda na paróquia a do Nome de Jesus das Almas e a do Rosário.

Ao longo do século XIX, os sinos e a cobertura sofreram reparações, e a antiga albergaria foi alienada. Em 1891, a Mesa executou conservações em caiações, telhados e portas. Já no século XX, a cruz de cobre foi roubada e o cruzeiro destruído em 1914. Procedeu-se ao arranjo do órgão e à electrificação do espaço em 1928, vindo o cemitério a ser demolido em 1972 para edificar infraestruturas comunitárias. Na década de 1990, o monumento recebeu restauros gerais e inaugurou um carrilhão financiado por devotos e emigrantes, sofrendo a capela da Epístola uma intervenção em 1993. O conjunto mereceu uma Carta de Risco pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais em 1998.

Descrição

Exterior

O templo assenta num largo com cruzeiro, tendo uma vista que alcança a Várzea da Ameixoeira, os altos de Montachique e o vale para Odivelas. O corpo da igreja consiste num bloco longitudinal voltado a Poente, rematado por telhados de duas águas onde uma cruz pontua a empena posterior. A fachada frontal, austera e em cantaria, é enquadrada delimitada por pilastras e encimada por frontão triangular com elementos piramidais. O acesso rasga-se ao centro por porta com tímpano portadora da inscrição de 1760 nas folhas, sobreposta pela abertura ortogonal do coro. Ancorada no alçado Norte num plano subtilmente retraído, levanta-se a torre sineira de secção quadrada, enriquecida por ventanas, mostrador relacional e coroa de quatro pináculos. Na frontaria correspondente à capela anexa divisa-se um emblema heráldico dos Maias com flor-de-lis, seis vieiras distribuídas em duas palas e águia distendida negra.

Interior Internamente, o espaço organiza-se numa nave única coberta de silhares de azulejo azuis e brancos setecentistas. De contornos recortados, os painéis concebidos pelo mestre Dâmaso da Silva retratam festões e anjos, episódios como a Anunciação ou Adoração dos Magos e cenas de pastoreio e natalícias. O lajeado calcário cobre vários sepulcros quinhentistas e seiscentistas da família Fóios.

Assente em robustas mísulas, o sub-coro forrado de azulejo precede a varanda superior cinzelada por Domingos Francisco. Nas paredes, painéis de estuque branco com ornamentos marianos ladeiam púlpitos rectilíneos de mármore cor-de-rosa e janelões coroados pelo Espírito Santo. Os púlpitos têm aventais de marcenaria dourada, esculpidos por Francisco Ferreira e folheados por Elias José da Costa. O tecto de caixa prismática ostenta ramagens brutescas gravadas por Pedro Alexandrino de Carvalho centrando-se no emblema A Encarnação.

Capelas laterais Precedendo o arco do cruzeiro projectado por João Antunes, situam-se duas capelas laterais embutidas nos muros. Do lado do Evangelho, à esquerda, encontra-se a capela do Santíssimo Sacramento, que preserva as suas portas de madeira dourada e um retábulo pintado com a Descida da cruz. No lado oposto, da Epístola, localiza-se a capela do Senhor Jesus Crucificado, alternativamente denominada de Nossa Senhora do Rosário ou das Dores, cujo retábulo exibe a tela As Trevas no Calvário, encimada por estuques com símbolos da Flagelação de Cristo. Numa pequena dependência à direita, a capelinha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro acolhe um grupo escultórico em madeira estofada e pintada representando Santa Ana e a Virgem, dispondo o topo da nave de dois altares móveis modernos dedicados ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora de Fátima.

Capela-mor A capela-mor, representativa do primeiro barroco português, apresenta um rodapé de pintura decorativa encimado por ornatos de talha dourada que emolduram as aberturas e as telas. O programa pictórico das paredes laterais inclui as obras Bodas de Canaã e Ceia, executadas no século XVII por Bento Coelho da Silveira, em paralelo com as pinturas de São Cristóvão e Santa Bárbara, da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho. A cobertura em abóbada de berço exibe pinturas de brutesco e grotescos delineadas por António da Serra, Caetano de Almeida, Manuel do Monte e Manuel Dias em 1702, contando com intervenções posteriores de Manuel de Sousa Pereira e António Francisco Carvalho.

O altar-mor resultou de um projecto do arquitecto Mateus de Sousa, edificado pelo entalhador Manuel Álvares entre 1690 e 1695, sob o patrocínio e custeio do juiz da confraria Gonçalo Mendes de Brito. A estrutura configura um retábulo de talha organizado em torno de um nicho central em arco de volta inteira com trono, onde se resguarda a imagem quinhentista da padroeira. A escultura, com cinco palmos de estatura, surge representada com os vestidos e as mãos levantadas, sendo flanqueada em nichos laterais por imagens setecentistas de São José e de Santo António, esta última esculpida por Manuel Dias em 1726. O arco do cruzeiro e os retábulos colaterais foram delineados pelo arquitecto João Antunes. No flanco Norte da capela, as grades de ferro das janelas foram executadas por José Roiz Pereira. No espaço anexo da sacristia, as paredes encontram-se revestidas por um silhar de azulejos setecentistas de padrão padrão tipo tapete, integrando ainda um lavabo de mármore com inscrição, mandado lavrar pelo cura Sebastião Ribeiro em 1561.

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